20 out, 2025
Nas inúmeras declarações produzidas a propósito das eleições autárquicas um tema parece ter estado ausente – o despovoamento do interior. Esse despovoamento não cessa de se agravar, não obstante todas as promessas de que ele se iria combater.
Os autarcas são, talvez, os menos responsáveis pelo despovoamento do interior. Mas são eles, no interior despovoado, os que encaram tal tendência com crescente angústia.
Ao longo de uma década, o interior de Portugal perdeu entre 14% e 18% da sua população. Instalou-se um movimento imparável, com os jovens a abandonarem o interior deslocando-se para o litoral, assim agravando o problema. E medidas como a densificação da rede de autoestradas rodoviárias afinal contribuíram para despovoar o interior.
Teoricamente seria possível ao Estado manter no interior serviços a funcionar. Mas escolas sem alunos e serviços públicos sem utilizadores, além de implicarem uma despesa pública gigantesca, a ninguém atraem.
Talvez seja de concentrar esforços nesta matéria, na promoção das cidades do interior, já que parece inevitável o desaparecimento gradual de milhares de pequenas aldeias. Mas há quem se queixe da fraca qualidade de vida em cidades do interior. Évora, por exemplo, é a terceira cidade mais cara de Portugal.
Por vezes aponta-se o centralismo das medidas de política vigente entre nós como um fator do despovoamento do interior, sugerindo que apenas a regionalização será capaz de obter resultados neste combate inglório. Só que que, em Espanha, com as suas 17 comunidades autónomas, o problema do despovoamento se encontra longe de ser ultrapassado, apesar dessa profunda regionalização.
A Espanha rural, que representa 84% do território do país, não consegue travar o despovoamento, pois hoje 84% da população vive em áreas urbanas – e a tendência é crescente.
Lamento não ser capaz de indicar uma via de solução para o despovoamento do interior português. Mas ao menos que se evitem falsas soluções, como sugere o exemplo de Espanha.
Francisco