Francisco Sousa
Opinião de Francisco Sousa
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Mundial 2026

Portugal-Colômbia: uma seleção que não sabe o que quer ser e os problemas que só parecem aumentar de jogo para jogo

28 jun, 2026 • Francisco Sousa • Opinião de Francisco Sousa


Uma série de notas sobre o sensaborão empate com que Portugal fechou a fase de grupos do Mundial.

Os dramas da transição e organização defensiva portuguesa

Roberto Martínez teve pânico da Colômbia quando, no máximo, se devia ter ficado pelos cuidados de gestão individual e tática de quem reconhece necessidade de adaptação, mas querendo manter um certo protagonismo no jogo.

Néstor Lorenzo fez todo o contrário do selecionador luso – lançou Santiago Arias para a lateral-direita para manter mais a posição e colocou por aquele flanco Jhon Arias para dar maior capacidade de pressão, anulando assim o lado associativo mais forte de Portugal, mas nem por isso perdeu as relações, a acutilância e a fluidez no jogo com bola.

Rúben Neves foi aposta num cavalo insuficiente do equilíbrio defensivo, com capacidade para ativar variações do flanco e testar a meia-distância – vertentes que raras vezes pôde explorar. Mesmo reconhecendo as dificuldades climatéricas, claramente mais usuais para os jogadores “cafeteros”, Portugal devia desde logo ter mudado o perfil de alguns jogadores do ataque para garantir maior… capacidade defensiva. Mencionámos aqui o nome de Gonçalo Ramos, mas um jogador como Francisco Trincão, abnegado no primeiro momento de pressão, poderia ter sido equacionado para conjugar criatividade, associação por dentro e remate à capacidade de recuperação de bola em zonas mais adiantadas (a dada altura, o grafismo da transmissão mostrava que o tempo médio de retoma da posse por parte da turma portuguesa rondava os 29 segundos).

A Colômbia foi sempre mais capaz de se impor a partir dos duelos e mostrou o seu habitual critério para construir a partir da linha defensiva, com demasiada liberdade para os médios receberem (James teve o jogo mais prolífico desde o arranque do Mundial e isso também diz muito sobre a prestação portuguesa). E esse foi um problema provocado pelos espaços enormes entre jogadores e setores portugueses, pela indefinição nos saltos na pressão (quantas vezes os médios têm de ir adiante compensar a falta de um avançado agressivo sem bola e a equipa se desmorona?). Entre corredor central e lado direito, os sul-americanos geraram imensos desequilíbrios e oportunidades, quer com ligação mais direta (a Córdoba), quer sobretudo num futebol combinativo pautado por James, Puerta ou Jhon Arias (e no segundo tempo, com uma entrada absolutamente incrível de Quintero).

Mesmo quando Portugal tentou tomar um pouco de iniciativa e gerar mais ligação no seu ataque organizado, a Colômbia encontrou latifúndios para atacar, sendo que também esse cenário de jogo mais caótico e partido só beneficiou a formação colombiana, que merecia claramente ter triunfado neste encontro.

O que faltou ofensivamente a Portugal

Faltou ter mais pausa, maior discernimento para sair das zonas de pressão, num jogo em que os laterais, mais por função atribuída do que por mérito da pressão colombiana, não foram tão participativos na vertente criativa (apesar de tudo, Dalot entrou bem e Nuno Mendes foi-se conseguindo soltar a espaços) e em que os médios tiveram mais linhas de passe bloqueadas. Foi mais difícil João Félix e Bruno Fernandes aparecerem nas entrelinhas, algo fundamental para dinamitar a imberbe estrutura defensiva uzbeque no jogo anterior.

Sem João Neves de início, perdeu-se elemento importante para as invasões à área contrária em momentos de ataque posicional e também se viu uma equipa demasiado expectante sobre o impacto que as individualidades poderiam trazer em termos ofensivos. Martínez foi uma vez mais conservador na hora das mexidas e só mostrou alguma ousadia com o lançamento de Rafael Leão – no tal momento de caos no jogo, até criou impacto ou outra vez no ataque ao espaço do lado esquerdo.

Diogo Costa, homem do jogo e os péssimos sinais que isso passa

O guarda-redes de Portugal foi indubitavelmente a figura do desafio, mas a imagem que isso passa corresponde precisamente ao que ocorreu no relvado de Miami: um desfile ofensivo colombiano. Com a facilidade de chegada pela direita, liberdade para criar por dentro e espaços exagerados para correr, a linha defensiva de Portugal teve de apagar fogos (nem sempre com sucesso) criados pela anteriormente mencionada falta de agressividade nos primeiros momentos de pressão.

A turma das Quinas foi pequena na mentalidade e na abordagem a um jogo que seria sempre perigoso, sim, mas que exigia cuidados de adaptação próprios de seleção grande e não de uma equipa de identidade indefinida – com e sem bola.

O que tem obrigatoriamente de mudar frente à Croácia?

Os balcânicos apresentam um registo menos enérgico, agressivo e pressionante que o da Colômbia, não são tão vigorosos nos duelos, mas têm uma base bem oleada, experiente e que dá resposta em contextos de exigência alta. Logo a abrir o torneio, sentiram dificuldades ante a pressão e variabilidade na saída da Inglaterra, mas foram encontrando algum critério para chegar ao último terço, com médios de excelência e alguns defesas com poder de construção.

Portugal terá sempre de buscar ter bola, correspondendo ao seu ideário histórico e que valoriza mais os jogadores de melhores argumentos em posse. Voltar a gerar sociedades entre os três corredores, a saber colocar gente nas entrelinhas e que saiba variar o centro do jogo, mas também conseguindo potenciar situações de ataque rápido e contraofensiva - é comum ficarem espaços nas costas dos laterais croatas e pode surgir vantagem em confrontos de 1x1.

Veremos para onde Martínez vai caminhar, mas será difícil que o faça na direção de uma identidade mais fluída e menos rígida/ortodoxa.

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