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Opinião de Francisco Sousa
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Mundial 2026

Portugal-Croácia: Querer ser diferente, quebrar, arriscar tudo, viver no limite e, no fim, ser feliz

03 jul, 2026 • Opinião de Francisco Sousa


Análise à sofrida vitória portuguesa sobre a Croácia nos 16 avos de final.

Um plano para aproveitar as fragilidades croatas

Roberto Martínez soube identificar uma das fragilidades mais notórias da Croácia (o espaço nas costas dos laterais e a dificuldade em ambos os lados para defender a zona do 2º poste) e tentou rentabilizar esse aspeto como plano inicial para o encontro.

Pedro Neto manteve-se à direita, Rafael Leão entrou para o lado esquerdo e a ideia da turma das quinas foi explorar o jogo exterior, tendo Nuno Mendes como lançador de passes a partir de trás (e interior-esquerdo em movimentos de avanço). Assim nasceu a dupla ocasião inicial para Bruno Fernandes (mais utilizado numa lógica de 2º avançado no ataque à área nesse período).

Portugal mostrou argumentos na circulação de um lado ao outro, mas o jogo foi-se tornando demasiado unidimensional para as necessidades da equipa – que se assenhoreou do jogo, sim, mas gerou objetivamente pouco perigo nítido para a baliza croata. Começou a faltar, sobretudo depois da pausa para compromissos publicitários, capacidade para gerar alternativas também por via da exploração do jogo interior, com mais presença e desequilíbrio nas entrelinhas.

Jogo Portugal- Croácia "foi épico", mas ainda há "defeitos que resistem na equipa portuguesa"
Jogo Portugal- Croácia "foi épico", mas ainda há "defeitos que resistem na equipa portuguesa". Veja o vídeo.

Os ajustes de Dalić e os problemas sérios para Portugal

Portugal teve uma agressividade e nível de compromisso defensivo, na pressão (com referências individualizadas) e reação à perda superior ao do jogo com a Colômbia. Isso também ajudou a que a equipa lusa se impusesse durante a fase inicial.

Noutra vertente, o médio-direito Vlašić passou a acompanhar mais o lateral no momento defensivo e a capacidade para desequilibrar pelo lado esquerdo foi-se progressivamente perdendo. Além do mais, a forma como Portugal avançava para condicionar a construção croata também implicava riscos, de cada vez que o timing de abordagem não fosse o melhor ou o duelo não fosse ganho. E nos últimos 20 minutos da 1ª parte, a formação balcânica começou a encontrar, a espaços, os caminhos para se aproximar da área da equipa de Martínez.

Com a entrada de Igor Matanović ao intervalo, a Croácia ganhou mais argumentos em apoio, uma referência mais pertinente na ligação com os prodigiosos médios (Modrić foi imponente, Kovačić teve mais espaços para progressão e a mobilidade de Sučić e Baturina deu soluções nas chegadas à frente).

De repente, voltámos a ver o descontrolo absoluto na seleção portuguesa, com uma transição defensiva deficitária e muitas dificuldades para pressionar subido, adicionando a isso a forma quase amadora como se originou o 1-0 – com os jogadores de Portugal a pedirem lançamento de linha lateral e a não redefinirem os comportamentos defensivos adequados, enquanto a Croácia rodava rapidamente e sem pressão a bola de um lado ao outro.

As quatro substituições de Martínez, um São Diogo numa área e um São Gonçalo na outra – e ainda o equilíbrio fundamental de Rúben

A equipa portuguesa estava perdida em campo e Martínez fez "all-in" no casino de Toronto, com quatro trocas simultâneas, promovendo um 4-2-4 de tração à frente, sinal de pânico com o início de segundo tempo preocupante e a sensação de potencial eliminação.

O golo acabou por chegar da marca dos 11 metros, por Cristiano, depois de penálti conquistado por Renato Veiga num pontapé de canto, mas o que ficou do pós-empate foram momentos absolutamente preocupantes de quem se arrisca a viver permanentemente na dependência dos eventos se vão sucedendo nas partidas. Sem um meio-campo equilibrado e com um quarteto marcadamente ofensivo, Portugal demorou a ajustar-se no posicionamento defensivo e a Croácia conseguiu ainda ganhar mais ascendente face ao que já tinha no arranque da etapa complementar.

O jogo partiu-se, a Croácia cercou a área com várias unidades, criou situações de finalização emergente e Diogo Costa voltou a provar que é top-3 mundial nas balizas, de momento. O cenário caótico foi corrigido tardiamente "ma non troppo" por Martínez, sacando, surpresa, Cristiano de campo e lançando Rúben Neves para ajudar a equilibrar uma equipa quebrada.

Daí em diante, e apesar de a Croácia continuar a ter vias de saída, a turma lusa reequilibrou-se defensivamente e soube acumular alguma posse, o que permitiu, de resto, o lance decisivo do 2-1, com Renato Veiga a rodar para Rafael Leão, que tirou um dos cruzamentos da carreira para o espaço entre central-esquerdo e lateral, que Gonçalo Ramos aproveitou da melhor maneira – cabeceamento sublime, de ponta-de-lança de elite.

Não deu, contudo, para descansar, porque Portugal adora viver em sofrimento mesmo com tudo a favor para gerir resultados e o golo anulado à Croácia, com algum caos na defesa da própria área perante tanto adversário, é mais uma lição a levar para os próximos jogos.

Agora, a Espanha. Nada a temer, muito a melhorar

O adversário que se segue está noutro patamar. Não tendo o virtuosismo e nível de controlo da geração 2008-2012 ou sequer o brilhantismo individual da última grande conquista, em 2024, a Espanha tem um modelo bem sólido, definido de há uns anos a esta parte por Luis de la Fuente, sem grandes desvios-padrão.

É uma equipa que continua a saber respeitar os padrões do jogo posicional espanhol a partir das botas do maestro Pedri, acompanhado por Rodri, salpicada com a irreverência do indomável Lamine Yamal, talento maior do futebol mundial da nova era, ainda que algo limitado por questões físicas nos últimos meses. Mas não são só estes que assustam: Dani Olmo liga as pontas maravilhosamente nas entrelinhas e chega mais à frente, a dinâmica Cucurella-Baena à esquerda está cada vez mais refinada e Oyarzabal tem somado exibições de culto como avançado (e finalizador) móvel. Não esquecendo que atrás mora o central mais promissor do futebol atual – Pau Cubarsí.

Pede-se uma equipa portuguesa a respeitar os timings certos para pressionar e as fases em que deve assumir mais contenção, sempre com o coletivo compacto e a fomentar sinergias entre laterais e extremos em ataque, como neste último jogo, sabendo prolongar posses, tendo também os setores mais próximos com e sem o esférico e sabendo tirar partido de situações de cruzamento para o 2º poste (de forma mais efetiva) e de bola parada ofensiva.

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