O que fica de Portugal e de Martínez após este Mundial
07 jul, 2026
Numerologia, uma gestão errática do plantel, um discurso a várias vozes e a certeza de que dava para mais e melhor.
As responsabilidades do "numerólogo" Martínez
Em entrevista à RTP, prévia ao Mundial, Roberto Martínez explicava que "acredita muito na numerologia" e que "o número 6 podia trazer algo de muito bom". Evocava, como referiu nessa noite, a conquista do Europeu em 2016 e as chegadas às meias-finais dos Campeonatos do Mundo em 1966 e 2006. Irónica e cruelmente, o "6" espanhol guiou Portugal para casa mais cedo, no dia 6 do mês de julho, assim como fez com que terminasse a aventura de Martínez enquanto selecionador português.
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Este exemplo de discurso redondo e místico pareceu nortear quase todas as conferências de imprensa e entrevistas do "mister simpatia" de 2023 em diante, numa repetição do que os belgas já haviam ouvido durante alguns anos. O agora ex-selecionador nacional não quis assumir qualquer dose de favoritismo para este torneio (ao contrário de vários jogadores e da expectativa de meia-final criada por Pedro Proença), começando por dizer que seria um torneio de três jogos, para depois falar num 2º Mundial (esse sim, seria mais a sério, contra os poderosos todos) e só lhe faltou mesmo dizer que este era um torneio tão importante quanto o Europeu – essa ficou para outra voz.
Preferiu sempre destacar a atitude, palavra repetida vezes sem conta ao longo dos últimos meses, chegando ao ponto de a sobrevalorizar face a questões de índole técnico-tática – sim, há treinadores capazes de dizerem coisas destas e Martínez não é caso virgem.
Ficou a faltar a definição de um modelo de jogo de acordo com os pergaminhos do futebol nacional e com as características de tão notável grupo de jogadores. A seleção de Roberto Martínez mostrou competitividade, sim, mas com uma excessiva preocupação com as características do adversário, independentemente da valia deste.
Os melhores argumentos técnicos de Vitinha, Bruno Fernandes, Bernardo Silva, João Neves, João Félix, Trincão, Gonçalo Ramos, entre outros, convocados e não-convocados para este Mundial, não foram devidamente capitalizados, num registo de futebol burocrático, que sempre dependeu mais das ações individuais dos jogadores ou da criação de parcerias momentâneas, de jogo para jogo, do que propriamente de uma base sustentada em termos identitários (algo que uma Espanha, por exemplo, possui).
Errou também Martínez na gestão do plantel, ponto fraco de um técnico orientado para o "endeusamento" dos jogadores com mais estatuto, fiel às hierarquias de balneário e raras vezes capaz de sacar um golpe de asa (ah ah, lembram-se da segunda parte com a Croácia? Foi isso, ficou-se por ali).
A forma como Cristiano Ronaldo foi gerido prejudicou acima de tudo o próprio, por mais que a história que ele tenha escrito na sua cabeça seja completamente distinta. Bem sabemos que se gerou uma dependência financeira da figura Cristiano, que a importância mediática da lenda supera, na era dos números, dos "likes" e do capitalismo selvagem toda e qualquer relevância da gestão desportiva. Sabemos também que CR7 podia continuar a ser útil, porque num coletivo dominador, capaz de trabalhar ataques de forma mais paciente, entre os três corredores e de ativar jogadores para zonas de finalização, era só pedir-lhe que correspondesse no sítio onde ainda é capaz de fazer a diferença, na grande área – e essa responsabilidade é, acima de tudo, do treinador.
No entanto, não é só a gestão de Cristiano que merece reparos.
A forma como, exceção feita ao jogo com a Croácia, foi tendo relutância em tirar da equipa Bruno Fernandes, mesmo em contextos exibicionais desfavoráveis, a falta de confiança para apostar de forma mais constante em Gonçalo Ramos, Trincão ou Francisco Conceição, três jogadores que chegaram a tirar a Seleção de apuros nos últimos anos vezes sem conta ou o aproveitamento questionável de Bernardo Silva ao longo do torneio (até aqui, era um dos jogadores com maior regularidade de utilização com Roberto Martínez) também levantam muitas questões e mostram que afinal não existia assim tanta confiança na totalidade dos convocados para esta prova.
O que correu bem e o que saiu pior no jogo de despedida?
A abordagem de Portugal ao desafio com a Espanha foi positiva, no sentido estratégico. Há que reconhecer que nunca faltou capacidade para os lusos se baterem com as melhores seleções nos últimos três anos e meio, falhou outro aspeto que já foi destacado anteriormente - a falta de um modelo impositivo, que permitisse que a Seleção ficasse mais próxima de ganhar partidas deste grau de exigência com outra frequência.
A turma das Quinas buscou alternar entre um bloco médio mais compacto e uns momentos espaçados de pressão individualizada, de forma a controlar o impacto na criação de Pedri (ontem mais condicionado e menos inspirado). Ainda assim, a Roja descobriu vias de saída por Rodri, demasiadas vezes colocado de frente para o jogo e com ótimos passes verticais, teve capacidade para sair por Cubarsí ou Laporte, movimentos de Dani Olmo que foram desconcertantes (gerando ligação nas costas dos médios).
A via de saída de Portugal foi a mais lógica, lado esquerdo, com Nuno Mendes novamente como protagonista. A espaços, a equipa de Martínez conseguiu encontrar esses caminhos para chegar mais à frente, faltando depois quem desse mais à equipa no ataque à profundidade – jogo sem rasgo de Pedro Neto, novamente, Cristiano sem argumentos e preocupado em baixar para ligar em apoio e Bruno Fernandes demasiadas vezes lateralizado.
Ainda assim, Portugal conseguiu criar algumas situações de ameaça, tanto num cruzamento para a zona do 2º poste, com Félix e Cristiano a trabalharem a parte final da jogada, como na bola parada, com Nuno Mendes a acertar no travessão, depois de combinação curta com João Félix.
Na baliza, Diogo Costa voltou a erguer-se como um gigante, capaz de efetuar defesas importantíssimas e salvando o que a organização defensiva de Portugal, mais sólida do que noutros jogos, mas não impenetrável, não conseguiu tirar. E consoante o desafio foi avançando, mais a formação lusa foi sendo empurrada para trás, com impacto nítido da saída do principal "criativo", Nuno Mendes, lesionado ainda no arranque da segunda parte.
A Seleção Nacional perdeu argumentos para prolongar ataques, num jogo que pedia manutenção de Vitinha, para dar nexo às saídas, uma saída de um Bruno pouco influente na manobra ofensiva (mais por defeito de função requisitada pelo treinador, ainda assim) e a entrada de Gonçalo Ramos para acrescentar capacidade para ligar aos médios e atacar cruzamentos com outra efetividade.
Luis de la Fuente mexeu para reforçar o setor intermediário e não perder controlo (ainda que a saída de Olmo tenha sido muito questionável), sempre tendo por base o princípio de que a decidir o jogo seria mais por dentro e assim foi: de um livre rapidamente marcado, emergiu a visão de jogo excecional do melhor em campo (Rodri), movimentos de arrastamento e apoio importantes (Ferran/Oyarzabal) e a desmarcação perspicaz de Mikel Merino na área - que havia estado na génese desse lance de bola parada
Olhar excessivamente para a gestão do empate, encolher a equipa na postura e não conseguir prolongar ataques para que a Espanha estivesse mais distante da baliza portuguesa foram chaves da cruel derrota final.
Que futuro para Portugal? Jorge Jesus? E o que fazer com CR7?
O futuro fica sempre difícil de definir enquanto imperar a mentalidade de reverência a Cristiano Ronaldo. O jogador mais brilhante e destacado, até ver, da história do futebol nacional tornou-se num ativo demasiado pesado, cuja presença gera ruído permanente que afeta todo o entorno e potencialmente as decisões dos selecionadores.
Já se percebeu que é o próprio a definir os caminhos da retirada e enquanto houver caminho para andar (que é como quem diz, a obsessão de chegar aos 1000 golos), continuará a fazer parte deste grupo, como capitão e vedeta e muito possivelmente sem aceitar um lógico papel secundário, atendendo à idade e menor competitividade técnica, tática e física no futebol de elite.
Será Jorge Jesus o homem certo para assumir o barco? Se pensarmos no impacto que consegue proporcionar à qualidade de jogo das equipas, por via dos métodos de treino, busca por um modelo de jogo mais autoritário e tentativa de conjugação do talento mais produtivo, tem tudo para dar bom resultado. Mas o enquadramento de uma seleção é sempre distinto dos clubes e esse será também um desafio para um técnico obcecado com o detalhe e habituado ao contexto do trabalho diário.
Pelo menos, se souber ser justo na análise das opções, não ligar tanto a estatutos e se conseguir atrair os jogadores pelo sucesso da sua ideia-base, já terá meio caminho andado para marcar um claro contraste com anteriores selecionadores.
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