10 nov, 2025 • Olímpia Mairos , com Sérgio Costa
O comentador da Renascença Henrique Raposo descreve Lux, o novo álbum de Rosalía, como “um álbum agressivamente humano contra a inteligência artificial”.
“Tal como o Frankenstein de Guillermo del Toro, este disco é um ato de resistência — de artistas contra a invasão de algo que tem um poder tão grande que é necessário reafirmar o humano, o artístico, o manual”, explica Raposo.
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Segundo o comentador, Rosalía fez questão de sublinhar que o álbum foi criado inteiramente por pessoas, sem um único milímetro de algoritmos de IA.
“Por isso foi buscar o que há de mais antigo e difícil de replicar: a música clássica e o coro. E depois vozes como a da nossa Carminho, o Fado, vozes que escapam à caixa que as máquinas conseguem reproduzir”, exemplifica
Raposo recorda ainda que vários músicos, como Sting, têm alertado para a limitação crescente do mainstream atual, já condicionado pela influência da inteligência artificial. “Acho maravilhoso como esta miúda espanhola cria um ato de resistência artística dentro do pop”, destaca.
Para Raposo, a busca de Rosalía por sons reais é reveladora: “Quando ela diz que quer ouvir a madeira do violino, o ferro dos ferrinhos, isso é fundamental. Guillermo del Toro também dizia: ‘eu não quero um barco feito no computador, eu quero um barco de verdade; quero roupa feita por alfaiates’.”
No seu espaço de comentário n’As Três da Manhã, Raposo salienta ainda o regresso a Deus e à espiritualidade presente em Lux — uma espiritualidade que mistura o catolicismo e o islamismo. “Sendo espanhola, Rosalía está no lugar ideal para fazer essa síntese”, observa.
Para o comentador, esse movimento reflete algo que está a acontecer com as gerações mais novas: “Os nossos filhos são muito mais religiosos do que nós. Vão à igreja mais vezes, colocam questões espirituais com uma intensidade muito maior”, diz.
Raposo vê nisto um eco do que aconteceu há cem anos, quando autores como Bernanos, Chesterton, Tolkien e C.S. Lewis reagiram ao avanço da tecnologia da sua época.
“Hoje achamos normal o carro, o comboio, a eletricidade, o elevador — mas há cem anos essas inovações também causavam medo. Agora, com a inteligência artificial, vivemos algo semelhante. E nesse sentido, é bom voltarmos a Deus, como resistência individual contra estas forças coletivas”, conclui.
Lançado na sexta-feira passada, o quarto álbum de Rosalía, 'LUX', já figura entre os destaques de 2025 e bateu um recorde até aqui detido por Karol G.