12 dez, 2025 • Sérgio Costa , João Malheiro
Henrique Raposo aponta que as gerações e classes de trabalhadores portugueses "vivem tão separados que nem se tocam", numa reflexão sobre a complexidade do tecido laboral do país, depois da greve geral desta quinta-feira.
No seu habitual espaço n'As Três da Manhã, o comentador Renascença fala de uma "imensa contradição" em que há dois mundos difíceis de governar.
"Para mim, o tema do ano são os médicos tarefeiros que, sobretudo na Grande Lisboa, estão a tornar impossível o funcionamento do SNS. São miúdos que vêm de uma geração que não querem vínculos fortes ao trabalho. Despedem-se passados seis meses", refere.
Henrique Raposo fala no medo de perder oportunidades (conhecido pela sigla FOMO, em inglês) que parece também existir no trabalho: "Normalmente, é aplicado às questões da vida privada. Parece também existir no trabalho".
"Estamos a falar de pessoas que não querem ser médicos na sua função social de serviço. Querem fazer medicina à hora, à peça", realça.
O comentador sublinha que o mundo em que as pessoas acordavam às 08h para trabalhar às 09h e sair as 17h "já não existe".
"Só 14% dos trabalhadores portugueses são sindicalizados. 7% do setor privado. Porquê? Cada um de nós e bem quer fazer o seu próprio horário e quer flexibilidade", diz.
No entanto, apesar de reconhecer essa intenção ao Governo, avisa que "não podemos esticar demasiado a corda".
"É o mesmo Governo que está às aranhas com a excessiva flexibilidade dos médicos tarefeiros. É um paradoxo. Neste paradoxo, acho que há espaço para nos sentarmos à mesa para perceber que sociedade vamos ter e que código laboral queremos para os nossos filhos", apela.