29 dez, 2025 • Olímpia Mairos , com André Rodrigues
O chamado “mito do almirante” começa a desfazer-se à medida que assume maior protagonismo mediático. A leitura é do comentador da Renascença Henrique Raposo, que considera que a perceção de invencibilidade em torno de Henrique Gouveia e Melo assentou mais numa construção simbólica do que numa base política sólida.
“Acabou o mito do almirante”, afirma Raposo. “Toda a gente dizia que ia varrer. Eu sempre disse a mesma coisa: vamos deixá-lo começar a falar todos os dias e ele vai começar a cair”.
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Segundo o comentador, a origem desse mito está quase exclusivamente associada ao papel desempenhado durante a pandemia. “De onde é que vem aquele mito? É a ideia de que ele nos salvou a todos porque soube organizar as filas da vacinação. É daí que vem o seu legado político, o seu currículo político”, sustenta.
Henrique Raposo relativiza, no entanto, esse mérito, sublinhando o contexto excecional em que a vacinação decorreu.
“O mito aqui é achar que essa competência era extraordinária. Eu, que não consigo organizar a minha secretária, conseguiria organizar aquelas filas porque havia poderes de emergência”, afirma. “Poderes que permitiram passar por cima das 20 burocracias habituais. O mérito da eficácia da vacinação foi o estado de emergência, não uma visão política”, acrescenta.
Questionado sobre as fragilidades de Henrique Gouveia e Melo nesta fase da campanha, Raposo é direto: “Começou a falar. Começou a falar. Ele não tem estaleca política, não tem visão política.” E acrescenta: “Limitou-se a atacar os outros quando precisou”.
Outro alvo da análise é Luís Marques Mendes, a propósito do que o comentador chama de “o véu do Marques Mendes”. “Conheço advogados, lobistas, pessoas que ligam empresários, que fazem negócios, que atraem investimento. Essas pessoas são necessárias, mas não as quero para Presidente da República”, afirma.
Para Henrique Raposo, o problema não é legal nem moral, mas de coerência no espaço público. “Não há nada de ilegal, nem sequer imoral, mas há uma amoralidade que irrita. Tens de escolher o que queres fazer. Se és um advogado de negócios, tens toda a legitimidade. Depois não podes ser comentador e muito menos Presidente da República”.
No campo da esquerda, o diagnóstico é particularmente duro. Apesar dos apelos do PS à convergência para evitar uma segunda volta sem um candidato de esquerda — nomeadamente António José Seguro — Raposo considera que o problema é estrutural. “A esquerda tem de se culpar a si própria. Foram incapazes de se juntar. Há um colapso histórico da esquerda”, observa.
O escritor e cronista aponta ainda para os níveis de rejeição eleitoral: “As taxas de rejeição da Catarina Martins, do candidato do LIVRE e do candidato do PCP são superiores às taxas de rejeição do Ventura.” E acrescenta: “A grande notícia que tivemos do Seguro ao longo destes anos é que ele é apoiado pelos passistas”.
Henrique Raposo termina com uma observação de cariz sociológico, baseada na sua experiência pessoal. “Infelizmente, tenho passado os natais — e este não é diferente — em funerais nas velhas zonas da esquerda, o Alentejo e a Cintura Industrial de Lisboa.” E conclui: “Vês nas pessoas, nos mais novos e nos mais velhos, uma rejeição patológica, orgânica, visceral da esquerda. E isso vai notar-se nestas presidenciais”.