05 jan, 2026 • Olímpia Mairos , com André Rodrigues
O comentador da Renascença Henrique Raposo diz que “não se compreende que em dez anos o Estado cresça em 100 mil funcionários públicos e, ainda assim, falhe em garantir médicos e professores” , numa crítica feita no dia de regresso às aulas, marcado por novos alertas para a falta de docentes nas escolas públicas.
Para o escritor e cronista, esta situação não é fruto do acaso, mas o resultado de opções políticas prolongadas no tempo. “A meu ver, PS e PSD, quando olham para o Estado, não veem um instrumento para servir o povo, veem um instrumento para servir as suas clientelas políticas” , afirma, defendendo que esta lógica ajuda a explicar a degradação dos serviços públicos essenciais, nomeadamente na educação e na saúde.
Henrique Raposo enquadra a falta de professores no crescimento do setor privado, tanto na saúde como no ensino. “O número de seguros privados em Portugal não pára de aumentar” , sublinha, recordando que em 2024 “cerca de 300 pessoas por dia aderiram a seguros privados, o que dá cerca de 120 mil num ano” . No ensino, acrescenta, o cenário repete-se: “O número de colégios privados não pára de aumentar” .
De acordo com o comentador, “em Lisboa e no Porto, os colégios privados já superam as escolas públicas” , num contexto em que “o ensino privado cresceu 25% na última década e já tem cerca de 350 mil alunos” . Para Raposo, estes números estão diretamente ligados à incapacidade do Estado em assegurar professores nas escolas públicas e em garantir a confiança das famílias no sistema público.
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O contraste com a evolução da função pública é, para o comentador, particularmente chocante. “Não há dinheiro para médicos, não há dinheiro para professores, no mesmo contexto histórico em que o número de funcionários públicos aumentou em 100 mil”, afirma, citando dados divulgados pelo ministro das Finanças. “Para onde é que vão estes funcionários públicos?”, questiona, acrescentando: “Servem o quê, se todos sentimos que o Estado, no fundamental, nas escolas e nos hospitais, está a falhar?”.
No seu espaço de comentário n'As Três da Manhã, Raposo deixa ainda um alerta específico para o ensino especial, no dia em que alguns colégios não abriram em protesto para exigir um reforço do financiamento, que consideram insuficiente para garantir o futuro de cerca de 500 alunos com necessidades educativas especiais. “Estes miúdos, sobretudo autistas, estão a ser empurrados para a invisibilidade”, critica.
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O comentador condena também discursos políticos que, no seu entender, contribuem para essa exclusão. “Uma das coisas mais asquerosas que ouvi da bancada do Chega foi dizer que estes miúdos estavam a ocupar espaço nas escolas”, afirma.
No final, Henrique Raposo volta a sublinhar a ideia central do seu comentário, reiterando a crítica à incoerência das políticas públicas. “É escandaloso que em dez anos o número de funcionários públicos aumente em 100 mil e, ainda assim, não haja dinheiro para médicos e professores. Não se compreende”.