12 jan, 2026 • Olímpia Mairos , com Sérgio Costa
O comentador da Renascença Henrique Raposo considera altamente improvável que os Estados Unidos avancem para uma invasão da Gronelândia, alertando que um cenário desse tipo teria consequências devastadoras para a ordem internacional.
“Se isso acontecer, a invasão da Gronelândia, é o fim do nosso mundo”, afirma o comentador, sublinhando que uma ação dessa natureza ultrapassaria largamente uma crise diplomática.
“É o fim da NATO e, nesse mundo distópico, os nossos filhos vão ter de ir para a guerra. Vão mesmo”, alerta.
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Segundo Raposo, as repercussões seriam ainda mais profundas. “É o fim da União Europeia. Talvez ainda pior, é o fim dos Estados Unidos da América”, defende, argumentando que uma invasão poderia desencadear uma crise interna sem precedentes no país.
O comentador rejeita a ideia de que a América se confunda com uma única liderança política. “Nós não podemos esquecer que a América, felizmente, não é o Trump”, diz. Para Raposo, uma parte significativa do país reagiria: “A chamada América Azul não vai ficar quieta”, avisa.
Nesse contexto, aponta o tom crescente de confronto político em alguns estados. “Se ouvires a retórica do governador da Califórnia, o Gavin Newsom, está a um milímetro de uma linguagem de secessão”, afirma, admitindo a possibilidade extrema de os chamados “Estados Azuis” ponderarem sair da União. “Isso é o fim do nosso mundo. Ainda não estou disponível para acreditar num apocalipse, numa distopia”, completa.
O comentário surge num momento em que Alemanha e Reino Unido discutem a eventualidade de uma missão da NATO na Gronelândia, face a sinais de tensão com Washington — precisamente o principal financiador da Aliança Atlântica.
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Para Henrique Raposo, essa discussão é, paradoxalmente, positiva. “Essa notícia é um bom sinal”, afirma. “Nós precisamos dos Estados Unidos na Gronelândia. O que é surreal nesta conversa é que os Estados Unidos já estão na Gronelândia”, observa.
O escritor e cronista recorda que os norte-americanos mantêm uma base militar no território desde a Guerra Fria, tal como acontece nos Açores, desempenhando um papel crucial na defesa aeroatlântica. “É a base que vigia os submarinos russos e chineses. Nós, europeus, sozinhos, não somos capazes de proteger aquele flanco”, assinala.
Apesar disso, Raposo reconhece que a forma como o tema é conduzido politicamente é decisiva. “Há maneiras e maneiras de fazer as coisas”, diz, lembrando que declarações abruptas fazem parte de um padrão já conhecido. “Já passaram quase dez anos desde o início do Trump. Ele diz uma coisa e depois há várias camadas que vão caindo como dominó”.
Segundo o comentador, até dentro do Partido Republicano há críticas. “O que os senadores republicanos estão a dizer é que é uma estupidez monumental tratar assim um aliado europeu”, frisa.
Para ilustrar uma abordagem alternativa, Raposo evoca um episódio histórico envolvendo John F. Kennedy e António de Oliveira Salazar. “Os americanos já estavam há 20 anos nos Açores. O Kennedy podia ter imposto a sua posição, mas sentaram-se e fizeram um acordo”, aponta.
Na sua perspetiva, é esse o desfecho mais provável também agora. “É isto que vai acontecer entre a América e a Dinamarca”, conclui, afastando a ideia de um confronto direto e reiterando que, apesar da retórica, ainda não acredita num cenário apocalíptico.