16 jan, 2026 • Olímpia Mairos , com Sérgio Costa
No último dia de campanha eleitoral, tempo de balanços e leituras finais, o comentador da Renascença Henrique Raposo traça um retrato severo do que viu nas ruas e nos debates, sublinhando duas grandes desilusões: o almirante Gouveia e Melo e João Cotrim Figueiredo.
Para o cronista, a campanha serviu precisamente para isso - retirar o verniz aos candidatos e perceber quem resiste à pressão.
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Raposo começa por contrariar a ideia de que as campanhas de rua já não contam. Pelo contrário, defende que é na exposição prolongada, no contacto direto com as pessoas e com os jornalistas, que se percebe o verdadeiro carácter dos políticos.
“Se deixarmos os políticos só no espaço digital, ficam num mundo fechado que controlam em absoluto”, afirma, comparando-os a jogadores e treinadores que só falam aos canais dos clubes.
Essa pressão constante - um mês inteiro de rua, cansaço, perguntas incómodas e erros à vista - foi, para o comentador, reveladora. “Agradeço imenso a esta campanha, porque havia candidatos com uma pintura que caiu”, diz.
Um deles é o almirante Gouveia e Melo, que Raposo considera uma das grandes desilusões. A imagem de líder firme e exemplar, associada à “ética castrense”, desfez-se durante a campanha.
“As pessoas pensavam que estava ali um Napoleão, ou um Horácio Nelson, e afinal está só um cacilheiro. É o mestre do cacilheiro”, ironiza, acrescentando que foi precisamente o almirante quem mais contribuiu para degradar o tom da campanha.
A outra grande desilusão é João Cotrim Figueiredo. Raposo admite que estava preparado para votar no líder liberal, mas diz que a campanha — em particular a última semana — lhe mudou completamente a perceção. “Caiu ali muito verniz do cavalheiro”, afirma, questionando o seu verdadeiro liberalismo.
Entre os erros apontados está a declaração sobre cenários de segunda volta envolvendo André Ventura, que Raposo classifica como um erro político básico e um sinal de mau instinto.
“Quando estamos cansados, o instinto vem mais ao de cima”, sublinha. Outro momento criticado foi a intervenção ao lado de Santana Lopes, quando Cotrim Figueiredo afirmou que as mulheres, para fazerem um aborto, têm que pedir autorização ao homem. “Grande liberal”, comenta, com sarcasmo.
O cronista é igualmente duro na análise ao debate público em torno das acusações de assédio.
Defende a presunção de inocência do acusado, mas lembra que a mulher que acusa também tem direito à sua própria presunção de inocência.
“Não admito que se ponha a miúda num pelourinho”, diz, rejeitando argumentos sobre oportunismo ou ‘timing’ político e lembrando que os traumas não seguem calendários racionais.
“Vários psicólogos já explicaram isso. Não é preciso psicologia. Basta um pouco de empatia humana. Sofreste um trauma provocado por X tu vês X todos os dias na televisão com a possibilidade de chegar ao poder. Claro que é um gatilho emocional”, sublinha.
Sobre o comunicado de 30 mulheres a defender o visado, Raposo é taxativo: “Eu posso ser encantador com 30 pessoas e um canalha com uma. Isso não prova nada”.
Por fim, critica a atitude de confronto com os jornalistas quando os candidatos são pressionados. “Fazer birrinha com os jornalistas não é aceitável. Eles estão a fazer o seu trabalho”, conclui.
Para Henrique Raposo, esta campanha cumpriu uma função essencial da democracia: expor os candidatos à realidade, ao escrutínio e ao desgaste — e permitir aos eleitores decidir com menos ilusões.