Hora da Verdade
Mariana Leitão desafia Montenegro sobre reforma do Estado: "Será que tem coragem para enfrentar os boys?"
12 jun, 2025 • Susana Madureira Martins , Marta Pedreira Mixão (Renascença) e Joana Mesquita (Público)
Candidata à liderança da IL admite uma coligação com o PSD para as eleições locais em Lisboa e no Porto. Sobre as presidenciais, Mariana Leitão diz que o novo nome apoiado pelos liberais deverá surgir antes das autárquicas.
Mariana Leitão desafia o primeiro-ministro, Luís Montenegro, a fazer uma reforma do Estado ambiciosa, dá-lhe o “benefício da dúvida”, mas questiona: “Será que tem coragem para enfrentar os boys?". Em entrevista ao programa Hora da Verdade da Renascença e do jornal Público, a líder parlamentar e candidata a presidente da Iniciativa Liberal (IL) questiona: “Vai garantir que há cortes efetivos?”.
Nesta entrevista, a dirigente da IL elogia ainda as políticas liberais que estão a ser aplicadas na Argentina pelo presidente Javier Milei. “Aquilo que mostra é que elas de facto funcionam”, defende Mariana Leitão, que acrescenta: “a inflação desceu, a pobreza desceu, tirou já um milhão e tal de crianças da pobreza. Demora? Sim. Às vezes há um choque inicial, mas resulta”.
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Sobre as eleições autárquicas que serão realizadas no outono, Mariana Leitão admite que a IL possa integrar uma coligação da AD em Lisboa, se se confirmar uma frente de esquerda liderada pelo PS. “Nesse contexto, parece-me que sim, que faz sentido”, diz a dirigente liberal. “Se temos uma esquerda toda unida para tentar derrubar os restantes - a direita e os liberais e o centro-direita, acho que sim, faz sentido”, conclui a dirigente da IL. E não está excluído cenário idêntico para a corrida autárquica no Porto.
Com o Conselho Nacional da IL marcado para este domingo, dia 15 de junho, Mariana Leitão afasta a hipótese de a eleição para a liderança do partido ficar apenas para depois das autárquicas, como tem vindo a ser defendido pela oposição interna da atual direção. “Não consigo conceber a ideia de um partido estar quatro ou cinco meses sem uma liderança”, sentencia a candidata a líder dos liberais.
Nada fazia prever que Rui Rocha se demitisse da liderança da Iniciativa Liberal. Não achou bizarro um líder que, na noite eleitoral, não deu sinal de demissão, vai a uma reunião com o Presidente da República e à saída faz o anúncio de uma revisão constitucional e que, entretanto, decida bater com a porta?
Não acho nada bizarro. Foi uma decisão pessoal do Rui Rocha, que deu muito ao partido e ao país, nada mais lhe poderia ser exigido e, portanto, cabe-nos respeitar a sua decisão, que demorou o tempo que o próprio entendeu necessário para a tomar. A mim, resta-me agradecer todo o trabalho que fez, que foi essencial para o partido e respeitar a decisão que tomou.
Na última convenção da Iniciativa Liberal, em fevereiro, dizia que não tinha a ambição de chegar a líder do partido. O que é que mudou? Foi só a força das circunstâncias?
Houve esta situação que não era expectável. Há todo um novo ciclo político, também, que eu acho que exige uma resposta forte por parte da Iniciativa Liberal e depois, após a demissão de Rui Rocha, eu também senti bastante apoio por parte dos membros da Iniciativa Liberal e, obviamente, isso fez-me ponderar bastante e chegar à minha decisão de avançar para a candidatura à presidência da Iniciativa Liberal, decisão que foi, de facto, também muito ponderada e que eu decidi em consciência que era algo que eu devia fazer já, perante as circunstâncias que, entretanto, se apresentavam.
Entretanto, Rui Malheiro já veio dizer que está a ponderar se apresenta uma candidatura à liderança da IL. Seria preferível, em nome de uma unidade, no pós-Rui Rocha, haver um único candidato, como fez o PS, por exemplo?
Acho que é visível que somos um partido muito vivo, muito dinâmico, é perfeitamente saudável que apareçam outras candidaturas, que haja espaço para haver debate, isso é salutar e, portanto, não acho que uma única candidatura possa promover mais ou menos a união. Acho que a união vem de dois fatores, quando há uma disputa, dos que vencem e dos que perdem. Se os dois trabalharem em conjunto em prol dessa união, certamente que ela nunca estará posta em causa.
E é isso que está disponível para fazer com o Rui Malheiro?
Estou disponível para fazer com quem quer que apareça como candidato à Iniciativa Liberal, com todos os membros. A união não passa só pelos que se apresentam como cabeças de lista ao que quer que seja. A união passa exatamente por tentar agregar, desde os membros base até aos dirigentes, aos vários órgãos do partido, ouvir as várias sensibilidades, ponderá-las, e depois, obviamente, que o presidente do partido tem de tomar as suas decisões e tem de implementar a estratégia que acha melhor para o partido e que é devidamente sufragada também na Convenção.
Há depois todo o trabalho de ir ouvindo os membros, de ir ouvindo essas sensibilidades, de trabalhar com as estruturas locais, trabalhar com as pessoas que forem eleitas nas autárquicas, no sentido também de ajudar a promover o trabalho que fazem. Isso tudo são áreas em que nós podemos promover essa união e que não passam necessariamente, apenas e exclusivamente, por falar com outros cabeças de lista a uma comissão executiva. Acho que vai muito para além disso.
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A direção de Rui Rocha, de que fez parte, foi várias vezes acusada de se fechar sobre o núcleo duro. Isso é uma das mudanças que gostava de implementar?
Acho que essa crítica é um pouco injusta. Os núcleos têm uma enorme autonomia para fazerem as coisas como acham que é melhor, porque conhecem a realidade do local. Há muito pouca intromissão da comissão executiva nessa área, muito pelo contrário, o que há é ajudar, disponibilizar recursos e tentar dar um contributo positivo naquilo que os núcleos pedem de ajuda e, obviamente, ajudar depois a organizar campanhas, como agora a que vamos ter autárquica. Em todos os conselhos nacionais há pontos políticos que são discutidos, onde se recebem contributos dos membros, onde os membros falam abertamente, dão contributos sobre os mais variados temas. Tudo isso é tido em conta no trabalho que nós vamos fazendo, por exemplo, na Assembleia da República, muito com base também em alguns desses contributos.
Em relação à data das eleições internas, já defendeu que deve ser o mais rapidamente possível. Há pessoas no partido que defendem que deve ser só depois das autárquicas e até utilizam como argumento o facto de dar mais tempo para que se prepare uma candidatura alternativa. Não é sensível a este argumento do outro lado?
Para ser muito sincera, não. Não consigo conceber a ideia de um partido estar quatro ou cinco meses sem uma liderança. Não estamos a falar apenas de um presidente para assinar os papéis, estamos a falar de uma liderança. Seria profundamente prejudicial para a IL, quer a nível interno, quer a nível externo. No fundo, seria uma fragilidade com que nós iríamos ficar durante quatro ou cinco meses. Depois, estatutariamente, isto está previsto, que as convenções são marcadas com 30 dias de antecedência. O que significa que foi consensual entre os membros e isto nunca foi tema de discussão, pelo menos que eu me recorde, que 30 dias é suficiente para organizar a convenção, para as listas se organizarem, para apresentarem candidaturas. Portanto, também não acho que haja aqui nenhuma situação de excecionalidade que justifique que haja muito mais tempo do que aquele que está previsto.
Também não concebo fazermos umas autárquicas com uma panóplia de candidaturas a serem feitas no país inteiro e não termos um líder da IL. Portanto, acho que seria até um desrespeito para com os candidatos autárquicos haver essa ausência de liderança. E por estas razões todas é que eu acho que, sinceramente, as eleições devem acontecer o mais depressa possível.
"Onde é que Montenegro vai fazer a reforma do Estado? Vai garantir que não há nomeações de boys?"
A Mariana de Leitão retirou a sua candidatura à Presidência da República. Quem é que a IL vai apoiar na corrida a Belém? Vão ter candidato próprio?
Retirar a minha candidatura foi uma decisão também refletida, porque acho mesmo que seria incompatível ser candidata a líder do partido e candidata à Presidência da República. O meu foco deve estar agora no partido, no país, e é para isso que vou trabalhar. Quanto ao futuro relativamente à Presidência da República, sinceramente acho que isso é um tema não para o imediato, não lhe vou dizer quem é que vamos apoiar ou se vamos apresentar um candidato próprio já. Continuo a defender que a IL deve apoiar um candidato que represente as ideias liberais, que represente o espaço liberal. Essa é a minha convicção. Mais tarde, certamente, teremos a oportunidade de voltar a este tema.
Mais tarde quando, depois das autárquicas?
Espero que não tão tarde. Tudo isto foi bastante inesperado, são decisões que tive de tomar, há outras que têm de ser tomadas, espero que sejam rapidamente.
Candidaturas que já se apresentaram como Gouveia e Melo estão fora de causa, por exemplo?
Das candidaturas que já são conhecidas, é óbvio que não há nenhuma que represente esse espaço liberal, muito menos a de Gouveia e Melo, muito pelo contrário. Aquilo que vemos nas candidaturas presidenciais é, no fundo, mais do mesmo. A candidatura que vou chamar do medo e que surge com um certo purismo, a de Gouveia Melo, que não vem dos partidos políticos e que faz disso uma grande bandeira, como se alguém que viesse da política fosse menor ou tivesse de ser desconsiderado, no fundo, aproveita-se da posição que teve na altura da pandemia. Aproveitou-se o medo das pessoas para se tomarem um conjunto de decisões que atentaram diretamente contra direitos, liberdades e garantias das pessoas, que se levou a um extremo brutal, e que, por incompetência do Governo da altura, se foi chamar Gouveia Melo para tratar de um problema logístico. Aquilo que conhecemos de Gouveia e Melo é uma candidatura na qual o espaço liberal, certamente, não se revê.
Anunciou a sua candidatura à liderança da IL pouco depois de ter sido reeleita líder da bancada parlamentar. São funções compatíveis?
Acho que será sempre muito complicado, mas lá está, eu sou candidata à liderança do partido, e, portanto, depois logo se tomarão as decisões, ou se reavaliará essa situação, como é óbvio.
Se for eleita, é isso?
Com certeza.
A Iniciativa Liberal mantém a proposta de abrir o processo de revisão constitucional. Não foi um erro lançar um tema que foi rapidamente capturado pelo Chega?
Não, muito pelo contrário. Para o Chega é sempre muito fácil, chega aqui, diz uma série de coisas que chocam a maior parte das pessoas, aproveitando-se, lá está, do medo das pessoas e do receio. E isso é um perigo, porque isto passa a deixar de ser a razão a funcionar e passa a ser o medo. Nós, enquanto partido político responsável, credível, com soluções testadas, temos uma responsabilidade de não permitir que haja determinados temas que ficam reféns de alguns partidos ou são tabu. Não aceito isso, acho que isso é antítese do que deve ser um regime democrático, todos os assuntos devem ser discutidos. Não podemos ter medo de falar das coisas, se não discutirmos os assuntos é que ficamos reféns apenas de uma única visão, que é a visão do único partido que fala desses temas. Acho que foi muito oportuna a proposta de avançarmos com a revisão constitucional, é algo que para nós é relevante, é algo que o país também precisa, como forma de conseguir ultrapassar um conjunto de restrições que a própria Constituição tem, que nos permita avançar.
IL
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A economia, por exemplo?
E não só. A saúde, a educação, a própria propriedade privada. Há ali um conjunto de coisas que já estão bastante datadas, outras que criam, de facto, constrangimentos a podermos ter um funcionamento muito melhor em sociedade, para depois podermos, de facto, garantir que conseguimos dar resposta às pessoas. Se o Chega a seguir faz muito barulho com isso é um problema do Chega, não vou deixar de falar dos temas.
Temos propostas para problemas difíceis e as propostas também não são simples, mas são coisas que já foram testadas em vários sítios do mundo, em que deram resultados. Demoram tempo? Demoram.
Não é imediato? Não. Implica mudança? Implica. E eu sei que há aqui uma certa resistência à mudança, mas temos de explicar às pessoas que é possível mudar e mudar para melhor. Se continuarmos deixá-las reféns do medo não têm outra alternativa se não virar-se para o desespero.
Em relação a governabilidade e estabilidade política, é possível a IL chegar a um eventual entendimento com o Governo da AD em alguma área, ou querem descolar completamente da governação de Luís Montenegro?
Nós temos uma postura na Assembleia da República que é conhecida. Nós, independentemente de onde vêm as propostas, nós votamo-las em consciência. Se funcionarem ou se achamos que elas são boas propostas, bem feitas, que vão ter aplicação prática, votamos a favor.
Mas depois de ter havido uma campanha em que a IL abriu a porta a fazer parte de um governo da AD, o que lhe pergunto agora é como é que vai ser a relação com este governo da AD de Luís Montenegro?
Vamos estar no Parlamento a cumprir o nosso papel de fiscalização, de oposição construtiva, no sentido em que fiscalizamos, vamos ver o que é que está a ser feito, apontamos e denunciamos aquilo que achamos que está a ser mal feito e sem qualquer problema em evidenciar o que está a ser bem feito. Nós queremos é resultados. E aquilo que vimos do último ano de governação da AD, foi muitas palavras e poucos resultados. Queremos reformas, que elas comecem a ser implementadas, porque as reformas depois demoram tempo a mostrar os seus resultados.
Na saúde, a própria reforma do Estado, que agora o Governo veio dizer que tem um ministério mesmo para esse efeito, nós achamos ótimo que assim seja. Agora, tem de ter resultados. Onde é que vão cortar? Onde é que o Luís Montenegro vai fazer a reforma do Estado? É no setor empresarial do Estado? Vai garantir que não há nomeações de boys? Vai garantir que há cortes efetivos? Vai garantir que o setor empresarial do Estado diminui e que não é o buraco que tem sido até hoje?
Até onde é que devem ir esses cortes?
Deve ser feita uma avaliação profunda de tudo aquilo que existe, que muitas vezes é uma das dificuldades que nós inclusivamente temos, apesar de estarmos na Assembleia da República, porque o próprio Estado não sabe exatamente o que é que tem. Tivemos esse exemplo com os imóveis. O Estado não sabe que imóveis tem devolutos, não tem um conjunto abrangente de informações que são essenciais para se tomar decisões. Parece-me que era essencial começar por aí, fazer de facto um levantamento exaustivo daquilo que o Estado tem, do número de pessoas que trabalham para o Estado, em que funções e, com base nisso, depois ter um programa objetivo para começar a cortar.
Os funcionários públicos e a administração do Estado devem estar preocupados com essa reforma?
Se for instituída uma cultura de mérito na função pública, não. Ou seja, se de facto houver uma avaliação objetiva do trabalho que é desenvolvido pelos funcionários públicos, e se os bons forem recompensados, é óbvio que não têm de estar preocupados, porque os bons estarão sempre salvaguardados. Agora, é preciso que isto seja consequente, como é óbvio, e é preciso que o Estado perceba qual é a dimensão que tem, de facto, quantos funcionários públicos é que tem, em que áreas. É óbvio que há áreas essenciais onde nós provavelmente precisamos até de mais pessoas, mas se calhar há outras onde não precisamos de tantas. E depois, ter a coragem de fazer os cortes se se perceber que é preciso fazer esses cortes, porque estar aqui só a fazer uns pequenos ajustes e pôr uns ministérios num edifício e coisas do género, não chega. Precisamos mesmo de aliviar as pessoas, de ter o Estado a funcionar bem, coisa que não funciona.
Uma motosserra…
Não é uma questão de uma motosserra, é uma questão de políticas que de facto funcionam. Faz referência à motosserra, claramente ao presidente argentino, Javier Milei. As políticas económicas que estamos a ver a serem aplicadas na Argentina, por exemplo, têm funcionado, estão a funcionar. E atenção, elas não são novidade nenhuma. Não chegou ali uma pessoa e lembrou-se que agora aquilo é que era de aplicar e aplicou. Não. Estas medidas que estão a ser aplicadas, por exemplo, na Argentina, nós já as defendemos desde o início da fundação da IL. Aquilo que mostra é que elas de facto funcionam. A inflação desceu, a pobreza desceu, tirou já um milhão e tal de crianças da pobreza. Demora? Sim. Às vezes há um choque inicial, mas resulta.
Enquanto olharmos para o Estado como um sorvedouro de dinheiro dos contribuintes e continuarmos a alimentar essa máquina estamos só a alimentar um monstro. Não estamos a dizer às pessoas, ‘vão, empreendam, sigam os vossos sonhos’. Não, muito pelo contrário, estamos a dizer às pessoas que ‘fiquem quietinhas aí no vosso cantinho a pagar os impostos e não chateiem muito’. Isto é o contrário daquilo que um país deve ser. E é por isso que é fundamental reformar o Estado.
A Iniciativa Liberal não está preocupada que o governo de Luís Montenegro seja demasiado bem sucedido nessa reforma do Estado e seque esse tema?
Nada. Eu ficaria mesmo muito satisfeita que Luís Montenegro e o governo fossem muito bem sucedidos nessa missão. Não tenho esse tipo de problemas.
E acredita que Luís Montenegro vai ser bem sucedido nesta tarefa?
É preciso ter coragem. Será que Luís Montenegro tem coragem para enfrentar os boys? Será que Luís Montenegro tem coragem para cortar onde é preciso? Será que Luís Montenegro tem coragem para reformar o setor empresarial do Estado? Para acabar com todos os conselhos consultivos e organismos e observatórios? Às vezes, temos vários observatórios para tratar exatamente do mesmo tema. Será que vai ter coragem para fazer isso? Eu espero que sim. Vamos ver. Mas aí é ver para crer. Tenho mesmo de ver que isso acontece para acreditar. Mas tem o benefício da dúvida.
Em relação às autárquicas, há acordo para Lisboa e para o Porto?
Não, isso são processos que estão em curso.
Mas é natural que existam?
É natural que existam acordos em vários municípios. Tenho a certeza que quando estiverem fechados, onde quer que seja, também depois serão devidamente conhecidos.
Há conversações com Carlos Moedas em Lisboa?
São matérias que estão em curso.
E o CDS é um problema para a formação desses entendimentos?
Só se o CDS quiser ser um problema. Não vejo que seja um problema nas autárquicas, para essas negociações que, eventualmente, estão em curso onde quer que seja.
Não tem sentido desconforto por parte dos centristas?
Que eu tenha conhecimento, não. Agora, lá está, como digo, são processos que, numa primeira instância, são todos tratados pelas estruturas locais e, portanto, não faço ideia se nalguma dessas estruturas locais houve algum problema que tenha chegado ao meu conhecimento.
Em Lisboa, por exemplo, para fazer frente a uma coligação de esquerda, seria vantajoso que essa frente de centro-direita mais os liberais existisse?
Nesse contexto, parece-me que sim, que faz sentido. Se temos uma esquerda toda unida para tentar derrubar os restantes - a direita e os liberais e o centro-direita, acho que sim, faz sentido.
E no Porto?
No Porto também me parece. Mas isto são temas, acima de tudo, das estruturas locais que têm essa autonomia e só depois é que as coisas passam pelos restantes órgãos. Não quero estar aqui a entrar em grandes considerações sobre esses eventuais acordos. A lógica deve ser sempre: onde as candidaturas possam ser vencedoras, onde se consigam implementar ideias liberais, onde o programa eleitoral autárquico tenha um cunho forte da IL, é óbvio que essas coligações podem fazer sentido se ainda para mais forem para ganhar. Portanto, coligações potencialmente vencedoras, com um cunho forte liberal, não tenho nada contra.
"As medidas que estão a ser aplicadas na Argentina, nós já as defendemos desde o início da fundação da IL"
Estas serão as segundas eleições autárquicas da IL, sendo que em 2021 só concorreram em 53 câmaras sem eleger nenhum vereador. Qual é que deve ser a meta do partido?
Apresentar candidaturas em muitos mais municípios, até porque nessa altura, há quatro anos, nós tínhamos estruturas locais, mas apenas alguns núcleos em alguns municípios. Hoje em dia temos uma estrutura local muito maior e, portanto, com muito mais dispersão pelo território, com muito mais implementação também dentro dos próprios territórios e portanto, é normal que tenhamos um número de eleitos bastante superior ao que tivemos, inclusivamente com a possibilidade de elegermos vereadores. É um objetivo que será, certamente, alcançado.
Não quer estabelecer nenhuma meta concreta?
Não vou fazer isso, até porque, neste momento, mesmo que as eleições sejam em breve, é um processo que já está praticamente concluído e portanto, não vou agora tecer considerações sobre essas metas.
Nestas legislativas, a IL passou de oito para nove deputados, cresceu em número e em percentagem, em número de votos. Mas mesmo assim o crescimento foi insuficiente. Acha que o partido já chegou ao seu patamar máximo de crescimento?
Não, de todo. Aquilo que eu quero e aquilo que eu me proponho a fazer é fazer a IL crescer mais a todos os níveis, quer em número de votos, quer em eleitos e, portanto, não acho nada que se tenha chegado a um qualquer patamar de estagnação, muito pelo contrário. A IL tem tido um crescimento permanente ao longo do tempo e quero que cresça muito mais. E temos todas as condições para o conseguir fazer, é nisso que vou trabalhar. Será a minha prioridade número um, garantir o crescimento da IL em todos os atos eleitorais a que concorra. E é muito importante as pessoas terem essa noção de que não chegámos a estagnação nenhuma, muito pelo contrário, há um caminho para percorrer e há muito para crescer.
Mas a expectativa nestas eleições era que crescessem muito mais. Ao longo da campanha, essa expectativa foi crescendo de que a IL podia dar um salto maior do que o que deu.
Estas eleições marcaram aqui um novo ciclo eleitoral. Os resultados eleitorais foram muito marcados por aquilo que eu também já tive oportunidade de falar há pouco, que é esta lógica do aproveitamento do medo, da desconfiança das pessoas face às instituições, que, de facto, têm falhado sistematicamente. Uma consulta de cardiologia em Faro, a lista de espera são 498 dias. Foi a isto que nós deixamos as pessoas entregues e, portanto, há muito aproveitamento deste desespero e deste medo e passa a existir desespero. Compete muito à IL continuar a mostrar que é possível um caminho diferente com as nossas propostas.
Acha que Rui Rocha se afastou durante a campanha desse caminho de mostrar que a IL é alternativa? Ao longo da campanha, o anterior líder já tinha assumido que o programa era mais moderado. A vontade de influenciar a governação pode ter prejudicado o partido?
Acho que nós não devemos moderar onde não faz sentido moderar. Acho que devemos ser uma alternativa a todos os outros, porque somos liberais e temos uma visão muito concreta. As nossas propostas não são propostas teóricas, são propostas que funcionam noutros países e, portanto, nós temos aqui objetivos muito claros. A reforma do Estado que queremos fazer é ambiciosa, muito mais ambiciosa do que a de qualquer outro partido e, portanto, sim, esse é o caminho que vamos fazer.
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