Hora da Verdade
Uma parceria entre a Renascença e o jornal “Público”. Entrevistas aos protagonistas da atualidade. Quinta às 23h20.
A+ / A-
Arquivo

HORA DA VERDADE

Fernando Rosas: “É difícil um candidato de esquerda chegar à segunda volta”

30 out, 2025 • Susana Madureira Martins, Fábio Oliveira (Renascença) e Helena Pereira (Público)


O fundador e antigo deputado do Bloco de Esquerda não acredita que o candidato presidencial apoiado pelo PS consiga unificar a esquerda: “Seguro não é coisa nenhuma.”

Fernando Rosas aponta “erros graves” a Mortágua e pede “empatia” e “ousadia” à futura direção
Veja o programa Hora da Verdade. Foto: Rui Gaudêncio/Público

Fernando Rosas diz que o Bloco de Esquerda fez tudo o que era possível para que houvesse uma candidatura abrangente de esquerda e lamenta não só que Sampaio da Nóvoa tenha recusado avançar, como o tenha feito tarde, a ponto de deixar a esquerda sem "margem de manobra".

Em entrevista ao programa Hora da Verdade, da Renascença e do jornal Público, o historiador e fundador do Bloco de Esquerda é ainda muito duro com o antigo líder do PS e candidato presidencial António José Seguro - "Não é coisa nenhuma" - mas também com Henrique Gouveia e Melo que acusa de andar “a cheirar o tempo".


É impossível Catarina Martins desistir da candidatura a favor do candidato de esquerda António José Seguro, como sugeriu aqui Eurico Brilhante Dias?
Isso só por graça, não é? Quer dizer, António José Seguro não é um candidato da esquerda. É um candidato da atual direção do PS, que é cada vez menos de esquerda, e que está a mendigar um lugar de parelha com o PSD, numa atuação suicidária.

O António José Seguro é uma candidatura da qual faz parte aquela parte da direita que se quer aliar à extrema-direita, que são os partidários de Passos Coelho. Quando lhe perguntam se é de esquerda ou de direita, responde: “Não me incomodem com isso, eu não sou nem de esquerda nem de direita”, como se, na situação atual, se pudesse ser nem de esquerda nem de direita. Este tipo de centrismo é suicidário para a democracia. A esquerda devia ter um candidato próprio. Aliás, o Bloco procurou ter um candidato unificador da esquerda e fez tudo o que foi possível para isso.

Sampaio da Nóvoa.
Infelizmente, ele não se mostrou disponível e também comunicou a sua indisponibilidade um pouco tarde, o que significou que ficámos praticamente sem margem de manobra.

No que toca ao Bloco de Esquerda, procurou-se denodadamente fazer isso. Agora, nestas situações de crise complicada, a disponibilidade das pessoas também é diferente. E o Nóvoa refletiu, refletiu, refletiu e depois acabou por dizer que não ia. Lamento que assim fosse e, ainda por cima, porque deixou depois pouco espaço de manobra para seguir. Mas tentou-se. É certo que o PCP se pôs de fora, numa atitude sectária e absolutamente errada, mas pôs-se de fora.

E porque é que não foi possível a esquerda à esquerda do PS se entender num candidato único?
Desde logo, porque o PCP, como fez em Lisboa, saiu fora desse jogo e anunciou uma candidatura que não se alia com ninguém. E depois, porque, não existindo um candidato unificador da esquerda, é natural que as forças políticas à esquerda queiram, elas próprias, protagonizar as suas candidaturas. Não é bom.

Não é bom porquê?
Porque divide a esquerda. Imagine que vamos ter uma segunda volta nas presidenciais entre o almirante e o bufão da extrema-direita. Qual é a escolha da esquerda, nesse caso?

Não é possível ainda, na primeira volta, haver aqui um rearranjo diferente, exatamente para evitar que essa possibilidade aconteça?
A partir do momento em que o PS declarou a sua adesão à candidatura de Seguro, uma candidatura fantasmática, não. O PS tinha muitas alternativas, mas a atual direção entendeu que tem de encostar-se à direita e, portanto, a um centrismo mítico de centro-direita e centro-esquerda, como se isso não fosse exatamente o que está em causa na atual crise. É por aí que aquilo vai cair. A escolha deles foi o menor denominador comum. Vai o Seguro, que não é coisa nenhuma.

Então, e se uma segunda volta colocar António José Seguro contra o almirante?

Tenho uma opinião sobre isso, mas não a vou dizer. Acho que isso é uma coisa muito pouco hipotética. A esquerda vai dividida à campanha, mas a direita também. É por isso que esta campanha eleitoral é um bocadinho uma incógnita. Vamos ver o que é que as sondagens dizem, mas vejo com dificuldade que um candidato de esquerda chegue à segunda volta, por causa das tendências que se têm manifestado eleitoralmente. Agora, têm de fazer o seu papel e aproveitar a campanha eleitoral para fazer uma pedagogia de esclarecimento. Catarina Martins está muito apta para esse trabalho.

Se ganhar, Gouveia e Melo será um perigo para a democracia?
Gouveia e Melo tem dias. Começou com uma campanha a namorar o Chega e acaba com uma campanha a piscar o olho à esquerda.

Isso quer dizer que ele é mais desorientado do que perigoso?
Anda a cheirar o tempo. Percebeu que, da parte do Chega, a candidatura é bufónica, provocatória e, em muitos aspetos, até ilegal, com esta história dos cartazes sobre o Bangladesh e os ciganos, que é uma coisa absolutamente impensável poder ser permitida. O Chega nunca alcançará, felizmente, a Presidência da República. Mesmo que junte todos os seus eleitores e até uma parte possa vir da social-democracia, não chega para ganhar as eleições.

Gouveia e Melo surge como o homem das vacinas, como um almirante fardado. Isso desperta o instinto primitivo de certas camadas da população e permite falar pouco de política, mais de independência, de ordem, demarcando-se agora do Chega, coisa que inicialmente não fez tanto. Ele percebe que tem de ir buscar apoio onde tem de ir, mas não é um candidato de esquerda, como é evidente. Um militar apolítico e apartidário é sempre um perigo.

Pode ser o regresso a um certo tempo em que Portugal viveu? No tempo dos presidentes militares?
No tempo de Salazar. O único Presidente militar que a democracia teve foi Ramalho Eanes, a seguir ao 25 de novembro. E que, aliás, demonstrou uma presidência centrista, tirando aquele episódio do PRD. A democracia portuguesa é suficientemente madura para dispensar militares reformados na vida política. Não tem sentido apresentar um militar reformado na vida política, ainda por cima em nome do suprapartidarismo e explorando um pouco o desgaste dos partidos políticos na sociedade portuguesa. É uma demagogia que é um bocadinho perigosa. O facto é que os partidos políticos são a vida da democracia e, portanto, são a forma de os cidadãos se associarem para intervir politicamente. Que o almirante e António José Seguro façam disso uma bandeira, acho que é algo absolutamente suspeito do ponto de vista democrático.


Pode ler aqui a primeira parte desta entrevista em que o fundador do Bloco de Esquerda aborda os “erros graves” de Mortágua na liderança do partido e pede “empatia” e “ousadia” à futura direção.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.