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Pureza apela a diálogo à esquerda e aponta “exemplo de unidade” dos sindicatos na greve geral

HORA DA VERDADE

Pureza apela a diálogo à esquerda e aponta “exemplo de unidade” dos sindicatos na greve geral

11 dez, 2025 • Susana Madureira Martins , Beatriz Pereira (vídeo) e Ana Bacelar Begonha (Público)


Novo coordenador do Bloco de Esquerda admite, "eventualmente", chamar ao Parlamento a lei da despenalização da eutanásia para expurgar inconstitucionalidades, embora admita que, com atual maioria parlamentar, o processo possa cair por terra.

Hora da Verdade: Pureza apela a diálogo à esquerda e aponta “exemplo de unidade” dos sindicatos na greve geral
Hora da Verdade: Pureza apela a diálogo à esquerda e aponta “exemplo de unidade” dos sindicatos na greve geral

José Manuel Pureza apela à esquerda que abandone o “sectarismo” e inicie um diálogo para fazer frente à atual maioria parlamentar de direita. Em entrevista ao programa Hora da Verdade, da Renascença e do jornal Público, o recém-eleito coordenador do Bloco de Esquerda pede que se olhe para a “lição” de unidade que as duas centrais sindicais deram na convocação da greve geral marcada para esta quinta-feira.

Pureza lamenta que o Governo da AD, mas também o do PS, tenham feito um “veto de gaveta” à lei da despenalização da morte medicamente assistida e admite que o BE venha a chamar o diploma ao Parlamento para expurgar as irregularidades detetadas pelo Tribunal Constitucional.

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Naquela que é a primeira entrevista de fundo desde que foi eleito líder do BE, José Manuel Pureza assume que ser cristão católico tem “influência” no seu posicionamento ideológico, porque “marca” a sua “forma de compromisso com a esfera pública e a sociedade”.

Recusa ter avançado para a liderança do BE para ser “mordomo”, garante que irá coordenar-se com o líder parlamentar Fabian Figueiredo e que não vai “disputar a agenda mediática de quem quer que seja”. Uma das primeiras propostas que admite apresentar no Parlamento é a criação do Serviço Nacional de Cuidados, uma ideia que admite que não é nova, mas que considera “absolutamente fundamental”.

Sobre o eventual desaparecimento eleitoral do Bloco e da esquerda, em geral, José Manuel Pureza recorre a uma versão de uma frase atribuída ao escritor americano Mark Twain: “Estou convencido de que as notícias sobre o desaparecimento do Bloco são francamente precipitadas”.


Porque é que decidiu candidatar-se a coordenador do Bloco de Esquerda nestas condições?

Porque sou militante do Bloco de Esquerda. A militância tem expressões diversas, é sempre um compromisso de disponibilidade e, num momento em que as circunstâncias, quer exteriores, quer internas, são manifestamente difíceis, entendi que, havendo essa vontade de encabeçar a lista para a mesa nacional, [devia] assumir essa responsabilidade.

Sentiu que tinha condições...

Foi uma assunção de responsabilidades. Não sei se tenho condições, farei tudo o que estiver ao meu alcance para que essas condições se criem. Nunca foi um entendimento de carreira ou de prémio. Num partido como o Bloco, o que temos de fazer é dar aquilo que podemos dar em cada momento e agora cabe-me a mim ter essa responsabilidade e vou a ela com toda a determinação.

Nunca quis fazer da minha condição de crente uma arma política, nunca o fiz. Agora, não quero esconder essa dimensão porque me influencia naquilo que sou

Onde é que se situa politicamente? É visto como uma figura moderada, mas também já disse que é radical na defesa da habitação ou da saúde.

Tenho dificuldade em rotular-me. Sou tributário de um conjunto de trajetórias. Tenho 66 anos, era adolescente no 25 de Abril e, portanto, recebi um conjunto de inspirações que são muito diversas, mas que têm essa marca profunda de luta por igualdade e por diferença. Os movimentos cívicos nos Estados Unidos, a luta pela igualdade em tantos sítios, o movimento feminista, o movimento de combate às alterações climáticas e o facto de ser cristão católico tem também influência porque isso marca a minha forma de compromisso com a esfera pública e a sociedade.

O facto de ser católico tem algum significado dentro do Bloco, para o eleitorado a que o partido quer chegar neste momento?

Não quero confundir os planos. Nunca quis fazer da minha condição de crente uma arma política, nunca o fiz. Agora, não quero esconder essa dimensão porque me influencia naquilo que sou, na maneira como fui crescendo para a vida política e para o compromisso social. Se tem significado para o Bloco, acho que não, a não ser na exata medida em que isso significa uma presença de muitos anos em lutas pela igualdade, pela dignidade das pessoas, pelos direitos das pessoas e, isso sim, diz bastante ao Bloco.

O facto de assumir-se como católico pode captar eleitorado à esquerda ou afugentar um certo eleitorado?

O que capta eleitorado à esquerda é a capacidade que eu e o Bloco tenhamos de dar resposta às questões essenciais das vidas das pessoas. O que faz as pessoas aproximarem-se é a perceção de que está aqui alguém que vai ao encontro das minhas necessidades essenciais e que está disponível para lutar por elas. Aquilo que afugenta o eleitorado é precisamente essa forma de fazer política que não assume responsabilidades, que faz jogada política e nada mais. Ou então faz salamaleque, faz carreira, e tudo isso afugenta muito eleitorado. As pessoas querem respostas concretas para os problemas essenciais da habitação, do emprego, da saúde, da dignidade em geral.

Engana-se quem achar que estou como coordenador do Bloco para ser mordomo

Como é que pretende ter visibilidade não estando no Parlamento? Não corre o risco de ficar em segundo plano?

Andaria muito mal uma força política como o BE se não aproveitasse o saber, a experiência e a combatividade do Fabian Figueiredo. Ele já o demonstrou enquanto deputado e sabemos que podemos contar com o Fabian num Parlamento que tem 60 deputados de extrema-direita, que se desqualificou profundamente do ponto de vista do debate e da proposta. Não aproveitar essa sabedoria, essa combatividade, essa valentia seria uma asneira total. Sabemos que em momentos em que esteja, por qualquer razão da sua vida, impedido de fazer isso, temos a Andreia Galvão, que também já esteve no Parlamento e mostrou todas as suas qualidades do ponto de vista da prestação parlamentar.

Agora, engana-se quem achar que estou como coordenador do Bloco para ser mordomo. Não o serei. O que vai haver é complementaridade, articulação, trabalho conjunto. Não vou disputar a agenda mediática de quem quer que seja, nem quem quer que seja que esteja no Parlamento vai disputar a agenda mediática.

Porque é que sente necessidade de dizer isso?

Sinto necessidade para responder à pergunta: “Como é que vai arranjar o seu espaço de autonomia em termos da agenda mediática?”.

No sentido de que espaços que é vai encontrar fora do Parlamento…

É um desafio. Não tem sido frequente o coordenador do Bloco estar fora do Parlamento. Assumo todos os desafios que isso significa, mas temos um Parlamento que, pela sua composição e pela sua dinâmica própria, está profundamente bloqueado em termos de capacidade de aprovar leis, medidas para a nossa sociedade. O trabalho fora do Parlamento - não estou a arranjar uma desculpa, estou a dar sentido à minha coordenação -, é mais essencial agora do que nunca. É fora do Parlamento que tentarei criar condições para formar maiorias sociais para alterar coisas.

Dou um exemplo: foi fora do Parlamento que fui uma das pessoas que conseguiu formar um largo espectro de gente que vinha da direita, de Rui Rio ou André Coelho Lima até pessoas mais ligadas ao Bloco, para exigirmos em conjunto aquilo que já devia estar feito há muito tempo: a regulamentação da lei da morte medicamente assistida. Sou isso, tenho feito isso ao longo da minha vida e é isso que vou continuar a fazer.

Eutanásia? Um Governo que faz "veto de gaveta" é um Governo que não está a cumprir as suas obrigações

O Governo mantém a regulamentação da morte medicamente assistida na gaveta. O diploma deve ir ao Parlamento para ser expurgado das normas que o Tribunal Constitucional declarou inconstitucionais ou o Governo tem a possibilidade de regulamentar, expurgando por si próprio essas normas?

Acho absolutamente inaceitável que uma lei da República que foi aprovada por uma maioria tão larga, que foi sucessivamente sujeita a fiscalização de constitucionalidade, que sofreu - por isso e por razões de opinião política não declaradas, mas evidentes por parte do Presidente da República -, vetos… depois de todo este processo, um Governo que faz "veto de gaveta" é um Governo que não está a cumprir as suas obrigações. E não é este Governo, é o Governo anterior. O Governo chefiado por António Costa fez exatamente esse tipo de bloqueio de gaveta e isso é totalmente inaceitável. Segundo, atendendo à última decisão do Tribunal Constitucional, parece-me avisado que o Parlamento dê resposta às últimas observações críticas por parte do Tribunal Constitucional. Se houvesse boa-fé, era isto que estaria a acontecer.

O Bloco pode chamar o diploma ao Parlamento?

Eventualmente. Mas, no essencial, tem de haver é uma consciência muito alargada para que haja uma exigência de decência social. Se não for assim, o Parlamento, com a composição que tem, há de refugiar-se em mais uma desculpa, como aconteceu, aliás, com este Governo, para manter as coisas como estão.

No limite, havendo essa tal maioria, o processo até pode cair por terra.

Em tese, pode acontecer. Seria um desrespeito profundo pela expressão reiterada de várias legislaturas e da maneira como isso expressava a vontade social. Não há nenhum estudo de opinião que não diga que a larga maioria das pessoas tem esse objetivo como seu. Portanto, aí está um bom exemplo de como é possível fazer pontes. É muito importante fazer pontes para, não apenas jogar com a aritmética partidária, mas articular aquilo que é o sentir social.

Se o diploma for à Assembleia da República, conta com alguma parte dos partidos de centro-direita ou de direita.

Essa é a história deste processo legislativo. Este é um assunto que, pela sua natureza, foi mobilizando, ao longo do tempo, gente de muitas proveniências políticas. Não há nenhuma razão, não há nenhum fundamento sequer para haver radicalização ideológica a este respeito. A única radicalização ideológica é cumprir direitos de dignidade essencial. Portanto, é perfeitamente admissível, como aconteceu com a exigência de regulamentação. Estavam Rui Rio, Francisco Balsemão. Não há nenhuma razão para que isso não volte a acontecer.

Não me parece minimamente aceitável um referendo sobre direitos fundamentais

Mas este PSD é um bocadinho diferente. Neste PSD de Luís Montenegro, existe a ideia de que devia ser feito um referendo.

Primeiro, não me parece minimamente aceitável um referendo sobre direitos fundamentais. É um erro do ponto de vista constitucional e político. Segundo, bem sei quais são as atuais condições de vida política no Parlamento e é por isso que é tão importante fazer todo o combate no Parlamento e contamos com uma representação parlamentar brava, valente para esse efeito. E é também muito necessário que gente como eu, que não está no Parlamento, faça todo o combate para juntar forças para criar pressão social no sentido de serem adotadas medidas que sejam benéficas para os direitos das pessoas.

Disse na convenção que é preciso o Bloco ter propostas mais inovadoras. Pode dar um exemplo? O Bloco tem de abraçar novas bandeiras?

Há duas dimensões que isso pode assumir. Primeiro, assumir propostas que sejam inovadoras relativamente àquilo que é essencial para a vida das pessoas. Dou um exemplo, que nem sequer é uma proposta nova, mas nunca foi trazida para o primeiro plano do debate público: a criação de um Serviço Nacional de Cuidados. É algo que o Bloco vem apresentando e que, com o envelhecimento da população, a fragilidade de tanta gente e, sobretudo, a ausência de oferta pública suficiente para ir ao encontro das pessoas que não podem pagar serviços de qualidade no sector privado, é absolutamente fundamental. Toda essa dimensão dos cuidados, que tem a ver com a oferta às pessoas, o trabalho das pessoas que estão nesse sector e, muitas vezes, numa lógica informal ou muito precária, é absolutamente essencial. Essa proposta de consolidação, de criação de um Serviço Nacional de Cuidados podia perfeitamente ser uma dessas linhas de trabalho.

Isso quer dizer o quê? Ir para lá dos lares que já existem?

Neste momento, temos uma oferta de cuidados, sobretudo, para a população mais envelhecida, que é frágil e seletiva. É frágil na exata medida em que a resposta dada às necessidades da população é escassa e é seletiva na exata medida em que, não havendo oferta pública à altura, há um desempenho dessa função por parte de entidades privadas que fixam os seus custos. Bem o sabemos, isso faz parte da história das nossas famílias, todas elas. Isto significa que temos de criar na área dos cuidados algo inspirado no Serviço Nacional de Saúde, que tem a capacidade de dar resposta a todas as pessoas, pobres e ricas, do litoral, da cidade ou do campo. Isso significa articular aquilo que já existe, mas, sobretudo, um grande reforço da oferta pública porque o Estado não se pode demitir desta função.

Na convenção assumiu dois compromissos: diálogos à esquerda e disputar mais na luta social. Não é muito diferente dos objetivos que o BE já tinha na convenção de 2023. O que é que vai ser diferente agora?

Primeiro, não me preocupo com a diferença pela diferença. É absolutamente essencial que o Bloco seja muito firme na defesa das suas causas fundadoras e das suas causas de sempre. É um trabalho que dá continuidade ao trabalho feito pelas coordenações anteriores, todas elas. Segundo, é muito importante que haja uma intensificação do combate ao sectarismo na esquerda. Não é aceitável que, numa situação como aquela que temos, com uma extrema-direita em crescimento e com uma direita tida como moderada que é cada vez mais radicalizada, e com a hegemonia que as direitas hoje têm no país, se cristalize uma prática ou uma cultura de sectarismo à esquerda.

O Bloco foi sempre o partido que esteve em todas as tentativas de criar pontes, diálogos e agora têm de ser mais intensificados, mais persistentes. Temos de ter maior ousadia no estabelecimento desses diálogos, mais ainda num tempo em que não há eleições previsíveis no curto, médio prazo. Do que se trata é de estabelecer diálogos com forças partidárias, mas também com movimentos, com gente na perspetiva de dotar a esquerda de um programa de resposta à ofensiva das direitas e de abertura de horizontes de esperança para as pessoas.

Temos um Estado que está a falhar em várias dimensões, na saúde, na habitação, e isso cria ressentimento e condições que são facilmente aproveitadas pela extrema-direita, no sentido de fazer da pura zanga um fator de mobilização. Ora, o Bloco tem de dar o seu contributo para que isso seja travado e haja alternativas de esperança, que mobilizem. Mas é um esforço de toda a esquerda, o Bloco não vai chegar para isso e, portanto, temos de criar condições para que à esquerda haja mobilizações. Fizemos isso no passado quando foi preciso resistir à troika. Quando toda a gente dizia que era inevitável que assim fosse, o Bloco esteve muito envolvido em articulações muito amplas para resistir e criar alternativas. É outra vez esse tempo.

Farei tudo o que for preciso para que seja possível, articulações para a criação de força do lado esquerdo para mudar a política

Pode ser difícil com este PS, considerado mais moderado, esse diálogo?

Não faço a mínima ideia, não falei ainda com José Luís Carneiro, terei muito gosto em o fazer. Creio que o PS, como todas as forças políticas à esquerda, está diante de uma responsabilidade: tem de dar resposta àquilo que são as condições de vida das pessoas que estão com um dia-a-dia de aflição, de privação. Portanto, assumo as responsabilidades em nome do Bloco, outros assumirão em nome de outros partidos. O desafio está feito, cada um fará aquilo que entender mais certo. Espero que seja possível. Com franqueza, farei tudo o que for preciso para que seja possível, articulações para a criação de força do lado esquerdo para mudar a política.

Tem visto isso da parte do PS?
Tenho visto que há muita gente do PS que é sensível a isto e que está aberta.

E a direção do PS?

Pela direção do PS não posso falar, não o devo fazer e não o saberei fazer.

A ação é pública.

Olho com bastante reserva para algumas posições que têm sido tomadas pelo PS, designadamente de viabilização de um Governo que está a atacar direitos absolutamente essenciais. Estamos na semana da greve geral, onde os direitos essenciais do trabalho, as questões que têm a ver com direitos de parentalidade, com a conjugação da vida privada e familiar com o trabalho… Vejo com alguma dificuldade que instrumentos essenciais da governação de um Governo que tem este programa sejam viabilizados pelo PS.

O PS tem criticado este pacote laboral.

Sim, mas ao mesmo tempo viabilizou o Orçamento do Estado. Portanto, essa é uma decisão que cabe ao PS. Da minha parte, o que haverá é, com lealdade, diálogo no sentido de todas as forças, todas as pessoas, fazerem um combate muito premente, muito forte pela defesa dos direitos e pela abertura de frentes de esperança para as pessoas.

Também a nível eleitoral? Agora não se perspetivam eleições, mas há uma abertura para coligações?

Não se perspetiva coisa nenhuma, não vou agora fazer esse tipo de exercício, não faz nenhum sentido. O desafio que nos está criado à esquerda é de conversarmos, falarmos e, sobretudo, de estarmos no mesmo lado das lutas sociais. A greve é muito importante também desse ponto de vista. É um exemplo de unidade. O facto de as duas centrais sindicais e de muitos sindicatos independentes estarem a aderir à greve geral é uma lição para quem olha para a política governamental ou da extrema-direita e diz: “Isto tem de parar”. Se as centrais sindicais, se os sindicatos independentes nos dão esta lição, temos de estar à altura dela. Agora que não há eleições, que não há a questão de juntarmos listas ou de fazermos cálculos de aritmética, agora que aquilo que se trata é de fazer programa, criar objetivos políticos, esse trabalho é mais importante porque mais à frente terá as expressões que tiver de ter. Não sou capaz de adivinhar. Quero é trabalhar com toda a gente, com todas as forças que querem transformar este pântano político que está criado com a política governamental e com a ascensão da extrema-direita para criar essas alternativas.

A revista The Economist ter vindo dizer que Portugal é a economia do ano não vem calçar o argumento do Governo contra a greve geral?

Temos de ler a escolha da Economist com alguma cautela. Primeiro, a própria notícia mostra que Portugal cresceu menos do que economias como a Dinamarca ou a Polónia. Tem uma inflação mais baixa, mas no cálculo da inflação não se incluem os preços de alimentação. Ora, o custo de vida hoje tem dois rostos: habitação e alimentação. Segundo, a Economist faz a advertência de que o crescimento em Portugal se deve sobretudo a dois impulsos: um, o turismo, segundo, a imigração. Isso diz bem daquilo que é a fragilidade do modelo económico que está a ter como resultado uma colocação no ranking muito alta. Isso tem tudo a ver com a greve geral. Aquilo que é trazido por esta greve geral é precisamente essa denúncia de que há aqui uma certa ironia com uma frase conhecida de Luís Montenegro: “A economia está melhor, as pessoas é que não”. E é exatamente isso que está a acontecer. Falamos de habitação, de alimentação, de custo de vida e as pessoas não estão melhores. Bem percebo que o Governo quer embandeirar em arco com essa notícia, mas faz mal.

O progressivo desaparecimento da esquerda é uma notícia bastante precipitada

Movimentações como a da greve geral podem ajudar a conter um progressivo desaparecimento da esquerda?

O progressivo desaparecimento da esquerda é uma notícia bastante precipitada. Mas há uma vitória que a greve geral já conseguiu, que é ter mudado o debate político, a agenda política. Quando o país se entretinha a discutir burcas ou uma lei cruel como a lei da nacionalidade, depois de revista pelo atual Governo -, que são coisas que não têm rigorosamente colagem nenhuma à realidade do dia-a-dia das pessoas -, a greve geral anunciada conseguiu mobilizar as pessoas para discutirmos aquilo que é essencial: direitos do trabalho, modelo de desenvolvimento, modelo económico, compatibilização da vida pessoal e familiar com o trabalho, precariedade para o resto da vida. É isso que importa discutir e a greve geral conseguiu isso. E estou muito convencido, francamente convencido, de que esta greve geral vai ser muito forte porque vai ser uma resposta a duas coisas: por um lado, ao pacote laboral enquanto agressão ao tecido social, ao trabalho, às pessoas que trabalham e, por outro lado, a estas manobras de diversão que a direita e, sobretudo, a extrema-direita, nos vai lançando para nos distrair daquilo que é essencial.

Está convencido de que o desaparecimento do Bloco não é uma fatalidade?

Estou convencido de que as notícias sobre o desaparecimento do Bloco são francamente precipitadas. O Bloco tem 25 anos, foram 25 anos de anúncio de que ia desaparecer. Foi sempre assim. Os vaticínios da morte do Bloco foram permanentes e enganaram-se sempre. O Bloco está numa situação difícil, sem dúvida nenhuma, mas uma coisa é uma situação difícil e outra coisa é a inevitabilidade da sua fragilização e do seu desaparecimento. Está aqui uma direção, está aqui um partido, como mostrou na convenção, que está totalmente determinado a reganhar força, a reganhar presença.

Fernando Rosas disse que Mariana Mortágua cometeu erros graves, com um estilo de direção centralizado e uma desvalorização da comissão política. Reconhece esses erros? O que vai fazer para mudar esses erros?

Mariana Mortágua foi a primeira a denunciar os efeitos negativos de uma excessiva centralização. Não foi outra pessoa, foi ela mesma que o disse. Isso é um desafio muito grande para a nova direção, para mim, que é justamente combater da melhor maneira isso. Como é que isso se faz? Isso faz-se dando o maior impulso possível à militância local, à militância organizada tematicamente, cuidando de um enraizamento muito mais forte no terreno social e das lutas sociais. O Bloco ganha muito do ponto de vista da sua força e da sua vitalidade interna se os militantes do Bloco estiverem mais presentes em lutas pela habitação, pela escola, contra o custo de vida, pela defesa dos direitos das mulheres contra a cruzada que a direita e a extrema-direita estão a fazer.

As gerações mais novas têm uma condição de enorme dificuldade de se emanciparem porque as condições de habitação são um travão brutal. A isso a extrema-direita não diz rigorosamente nada

Essa é a forma também de irem buscar os jovens que estão a ser atraídos pela extrema-direita?

Sim, temos de ter uma preocupação muito grande com essa realidade. Os indicadores de adesão, de simpatia da malta mais nova para com o discurso da extrema-direita e as suas formas de expressão comunicacional exige à esquerda e ao Bloco que seja capaz de estar presente nos sítios onde se forma essa opinião. Desde logo, na escola, mas não só, nos ambientes de trabalho, para desmontar aquilo que são falácias claras do discurso da extrema-direita, que é um discurso muito efervescente, mas que do ponto de vista da solução das coisas não dá nada.

As gerações mais novas têm uma condição de enorme dificuldade de se emanciparem porque as condições de habitação são um travão brutal. A isso a extrema-direita não diz rigorosamente nada. A extrema-direita o que faz é favorecer fatores que só contribuem para inflacionar os preços de habitação, como é o caso dos vistos gold. Ora, a esquerda tem de ser capaz de, através das ferramentas que forem mais necessárias, mas, sobretudo, estando lá onde estas pessoas estão, desmontar isso e mostrar que há alternativas.

Mas a esquerda tem falado, por exemplo, de habitação e a extrema-direita tem crescido. O que falhou?

Falhou a nossa capacidade de perceber por onde é que estava a passar a conquista da hegemonia por parte da direita e, sobretudo, da extrema-direita. O que aconteceu foi a extrema-direita atirar para a esquerda a acusação de que estava a fazer guerras culturais, quando é a própria extrema-direita que faz as guerras culturais todas. As burcas é o exemplo mais caricato. Faltou-nos a capacidade de desmontar essa ratoeira. Sem com isto desmobilizar o Bloco de lutas sociais que têm a ver com a dignidade de cada pessoa, o respeito pelas suas escolhas, pela sua igualdade e pela sua diferença. Portanto, temos de ser capazes de fazer um exercício de muita militância, de muita presença, mas que, acima de tudo, desmonte essa armadilha brutal.

Subestimaram o impacto de temas como a imigração ou a segurança?

Acho que não é uma questão de termos subestimado. Acima de tudo, não fomos capazes de dar uma resposta à altura a esse discurso de mistificação que a extrema-direita faz e que culpa os imigrantes por todos os nossos problemas, como se a questão da habitação fosse um problema dos imigrantes. É, mas é, sobretudo, dos imigrantes ricos que apostam 500 mil [euros] em vistos gold com um efeito especulativo brutal sobre os preços da habitação. Não fomos capazes de fazer isto com competência e temos que ser.

Era importante Catarina Martins ter um bom resultado nestas eleições para o Bloco dar uma "prova de vida"?

Um bom resultado da Catarina Martins, evidentemente, terá repercussões sobre a força do Bloco, isso é indiscutível. O Bloco apoia convictamente a candidatura da Catarina Martins e, portanto, queremos mesmo que a Catarina Martins tenha o melhor resultado possível, faremos tudo aquilo que pudermos para que assim seja. Mas, mais do que isso, um bom resultado da Catarina Martins será bom para a esquerda e para as batalhas que a esquerda está a ter de fazer para travar esta ofensiva muito brutal por parte do Governo e da extrema-direita.

Aliás, a cada dia que passa fica mais claro que a candidatura da Catarina Martins, ao não ter vergonha de dizer aquilo a que vem, ao não se colocar num terreno de calculismo político, dizendo: "Não me arrumem em gavetas porque eu não quero ficar aqui demasiadamente rotulada"... A Catarina é genuinamente aquilo que está a dizer e vai genuinamente às causas que são essenciais para o país, para as pessoas que têm vidas de aflição. É importante que haja um bom resultado porque isso dá expressão a essa forma de entender a sociedade.

Há um risco real de a extrema-direita chegar à segunda volta?

Olho para as sondagens com atenção, elas indicam tendências, mas uma coisa são tendências, outra coisa é a fotografia final. O que posso dizer é que, diante de resultados que têm estado a ser divulgados por estudos de opinião, a determinação do bloco é total no sentido de criar condições para que uma candidatura como a da Catarina Martins faça frente a isso, mobilizando muita gente. Se a extrema-direita tiver um resultado forte não é por responsabilidade do Bloco, é por responsabilidade de outras forças no terreno do centro político que se mostram incapazes de retirar chão à extrema-direita. Isso é que é o mais preocupante.

Que balanço faz da presidência de Marcelo Rebelo de Sousa?

Marcelo Rebelo de Sousa tem no seu mandato atitudes ou iniciativas que são contraditórias. A presença junto de pessoas, comunidades, que foram vítimas de desastres, de traumas profundos, merece respeito. Mas os mandatos de Marcelo Rebelo de Sousa vão ficar também muito conhecidos por decisões que tomou que me parecem politicamente muito criticáveis. Isso tem a ver com a sua imposição de que o chumbo de um orçamento determinasse a dissolução da Assembleia da República, com as consequências que a seguir vieram. Não fosse essa precipitação, essa teimosia de Marcelo Rebelo de Sousa de fazer uma interpretação da Constituição, que não é seguramente a única possível e não era a mais recomendável, e hoje não teríamos tido quatro eleições. Objetivamente contribuiu para uma instabilidade política que só deu como resultado a subida da extrema-direita.

Mais à frente, como o novo Presidente da República, é de excluir o cenário de legislativas antecipadas? Quais são os riscos de isso acontecer? Há uma probabilidade de reforço do centro-direita ou até da extrema-direita?

Essa pergunta é boa de ser feita ao doutor Luís Montenegro. Temos uma situação parlamentar muito frágil dada a composição da maioria que dá sustentação ao Governo, o crescimento da extrema-direita. Tudo isso contribui para um Parlamento tendencialmente instável e, portanto, não excluo coisa nenhuma. O resultado das eleições presidenciais, como outras coisas, vai ter evidentemente impacto sobre a estabilidade parlamentar, mas uma coisa é a estabilidade parlamentar, outra coisa é o fundo da estabilidade política. E estabilidade política só resulta da capacidade de dar resposta à vida das pessoas.

A extrema-direita crescerá sempre se essa resposta não for dada. O Estado que falha na Saúde, na Habitação, na Educação, é pasto para a extrema-direita crescer. E quanto mais a extrema-direita crescer, mais essa instabilidade crescerá também. Portanto, isto significa que temos de ser muito determinados, o Bloco fará o que tem de fazer a esse respeito para travar essa marcha de uma direita radicalizada, seja a extrema-direita formal, seja a direita radicalizada que hoje ocupa o Governo.

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