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Ana Abrunhosa, presidente da Câmara de Coimbra, critica resposta "totalmente insuficiente" do ministério da Agricultura às tempestades

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Ana Abrunhosa critica "resposta totalmente insuficiente" do Ministério da Agricultura

09 abr, 2026 • Tomás Anjinho Chagas , Ricardo Fortunato (vídeo) , Rita Gonçalves (vídeo) , Adriana Castro (Público)


Autarca de Coimbra diz que é "inaceitável" que o Governo ainda não tenha tomado certas decisões. Câmara já recebeu mais de 500 pedidos de apoio e cerca de metade são "indevidos", alguns feitos com Inteligência Artificial. Ana Abrunhosa admite que faltam mulheres no poder local, mas afasta cenário de se filiar no PS: "Corta muito a liberdade".

Ana Abrunhosa critica "resposta totalmente insuficiente" do ministro da Agricultura
Ana Abrunhosa critica "resposta totalmente insuficiente" do ministro da Agricultura

Dois meses depois das tempestades e cheias que afetaram o país, em Coimbra, ainda não há estimativa dos danos e os apoios tardam a chegar.

Em entrevista ao Hora da Verdade, programa semanal da Renascença e do Público, Ana Abrunhosa, presidente da Câmara Municipal de Coimbra, dirige as suas críticas diretamente ao ministro da Agricultura.

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A antiga ministra da Coesão Territorial (nos Governos de António Costa) revela que metade dos pedidos que chegaram à autarquia são "indevidos", e muitos deles foram feitos com recurso a inteligência artificial (IA) para tentar obter apoios.

Sobre o seu futuro, afasta-se dos partidos políticos e critica o seu funcionamento: "Cortam muito a liberdade". Tenciona descansar quando deixar a vida autárquica.


Oiça aqui a entrevista a Ana Abrunhosa, presidente da Câmara de Coimbra

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A Câmara de Coimbra já conseguiu dar respostas às principais necessidades de habitação das populações que viram as suas casas destruídas pelas tempestades?

Em termos de danos nas habitações, Coimbra foi sobretudo afetada na freguesia de Assafarge. Com o apoio da Junta de Freguesia e do Exército, muito rapidamente resolvemos as situações. Tivemos mais de 500 candidaturas para apoios. Grande parte dessas candidaturas estão vistas, [mas] consideramos que uma parte significativa é de pedidos que não se adequam e não são legítimos. As outras fecharemos em muito pouco tempo. O apoio às habitações é um não problema em Coimbra. Consideramo-lo resolvido, com a agravante de que detetamos pedidos indevidos, incluindo alguns que recorrem a Inteligência Artificial.

De pessoas que se vão tentar aproveitar da situação?
Infelizmente, isso tem acontecido. No nosso caso, é capaz de representar metade dos pedidos. Começámos a ir ao local e a detetar situações de pedidos indevidos. A partir daí, começámos a ser muito cautelosos nas análises. Por isso, estamos a demorar um bocadinho mais.

Detetamos pedidos indevidos, incluindo alguns que recorrem a Inteligência Artificial

Quanto às consequências das cheias, como é que está a decorrer o processo?
Creio que as coisas não estão a corresponder às necessidades que temos no território, de todo. A APA [Agência Portuguesa do Ambiente] e o Ministério do Ambiente tiveram e continuam a ter uma atitude exemplar. Não temos nada a apontar.

O problema é com o Ministério da Agricultura?
No caso da agricultura, temos tido articulação com a CCDR, mas o problema não está na CCDR, está em quem cria as medidas e o tipo de apoios. Há vários agricultores cujos terrenos estão inundados de areia e que em maio não vão poder iniciar a nova colheita de arroz ou milho. Neste momento, não consigo, enquanto presidente de câmara, dizer quem é que se responsabiliza por retirar aquela areia. Há problemas gravíssimos no Baixo Mondego que não têm tido resposta do Ministério da Agricultura. Quando damos conta, passaram meses e não temos respostas. É a pior coisa que pode acontecer.

Isso é um apelo ao ministro da Agricultura?
Obviamente. Aliás, não é a primeira vez. Já fiz o pedido oral, já fiz através da comunicação social e agora vou ter que fazer por escrito. Pode ser que assim consiga responder aos agricultores e às associações de agricultores. É inadmissível. Outra questão que nos deixa muito preocupados é que as autarquias são responsáveis por tudo o que é redes. Nalguns casos, partilhamos essa responsabilidade com outras entidades, nomeadamente nas estradas, com as Infraestruturas de Portugal, mas fruto da chuva muito intensa, muitas estradas desabaram e algum saneamento também ficou danificado. Sabemos que as CCDRs já têm as verbas para nos apoiar nestes danos, mas ainda não recebemos um cêntimo.

O modelo de financiamento não está a funcionar?

Nós nem sabemos qual é o modelo de financiamento. Não sabemos se por cada 100 euros de danos, o apoio que vamos ter é a fundo perdido ou um empréstimo. Nós [Câmara de Coimbra] já adiantámos mais de um milhão de euros para resolver problemas. Precisamos de saber, dos danos que são da responsabilidade dos municípios, que tipo de apoio é que vamos ter, até porque a verba já está na CCDRs. Digam-nos as regras do jogo para saber com o que contamos. Já estive do lado de lá, sei que não é fácil, mas nesta altura, até dando uma tolerância, creio que já é tempo de sabermos a resposta e as regras do jogo. Há um tempo de resposta e esse tempo está quase a esgotar-se.

O Governo propõe uma flexibilização do regime financeiro para as autarquias, como contrair empréstimos a curto prazo sem a autorização das assembleias municipais. Essas regras são suficientes?
Não. Até ponho em causa como é que uma autarquia faz um empréstimo sem passar pela assembleia. Revi e estive a analisar muito recentemente essa proposta. Endividar a autarquia nunca é a solução.

Na agricultura, na minha perspetiva, a resposta está a ser totalmente insuficiente

É responsabilizar ainda mais os municípios?
É. Isto foi uma calamidade. Já estamos a assumir obra que é da APA, do Ministério do Ambiente, e bem, com a maior boa vontade, porque sabemos que a APA não tem recursos. Agora, não podemos assumir dívida que resultou de uma calamidade, que também não é nossa responsabilidade. Tem que haver, no mínimo, partilha. Enfrentar os danos não pode ser responsabilidade total das autarquias.

Onde é que o Governo está a falhar?
Numa resposta que tenha em conta que tivemos milhares de milhões de prejuízo. Se [o Governo] tem dúvidas sobre a avaliação dos danos reportados pelos municípios, tem que fazer uma auditoria ao reporte dos danos. Para cada problema, temos de encontrar uma solução. Na área do ambiente não nos podemos queixar, está a correr lindamente.

É a única área que está a correr bem?
Da avaliação que faço, é a única área que está a correr bem. Na área da habitação, creio que é uma questão de um mês ou dois meses até fecharmos o processo. Mas acho muito complicado que municípios como Leiria, Marinha Grande, Pombal, cujas equipas estão completamente assoberbadas de trabalho, ainda tenham que se multiplicar para estarem a ver processos das habitações.

A bolsa de técnicos anunciada pelo Governo não chega?

Estamos a falar de uma bolsa de técnicos que trabalha ao fim de semana, provavelmente, ou nas horas vagas. Se temos milhares de pedidos, precisamos de equipas grandes a trabalhar dia e noite. A resposta tem que ser adequada ao problema. Na área do ambiente está a ser. Na agricultura, na minha perspetiva, a resposta está a ser totalmente insuficiente.

Teve um episódio muito aceso com o ministro da Agricultura. Foi causado por várias noites mal dormidas e por um momento de cansaço extremo ou foi também uma forma de marcar posição? Arrepende-se?
Provavelmente tê-lo-ia tido na mesma, mas bastava que tivessem sido 30 segundos. Agora, não menosprezem por andar cansada ou stressada. Aguento o que qualquer homem aguenta. Não é por ser mulher que tenho que ter qualquer compreensão porque ando cansada. Isso é paternalismo ou até machismo, achar que tive aquela reacção porque não durmo.

Não era isso que estava implícito na pergunta, era pelo período ser muito complexo para todos os autarcas.
Mas nós aguentamo-nos. O que não aguentamos é o desrespeito institucional que considero que houve. O senhor ministro veio ao terreno, soubemos da sua vinda através da APA, comunicámos que estaríamos presentes. Nesse dia, estivemos a conversar com todos os comerciantes do nosso mercado. Chegámos atrasados. Avisámos o senhor ministro. O chefe de gabinete transmitiu-nos que o senhor ministro já estaria a conversar com os jornalistas e também me apercebi que fazia intenção de ir embora. Portanto, vir ao terreno para não conversar com os autarcas, com as associações de agricultores, antes de falar aos jornalistas e, sobretudo, dar respostas que ainda hoje não temos...

Teria tido a mesma atitude se fosse um ministro do PS?
Isto não tem nada a ver com partidos. Não é um ato de vaidade pessoal, é uma questão institucional. Agora, não venham [dizer] que estava cansada ou não tinha dormido, porque eu durmo muito pouco todo o ano. Não é o cansaço ou as noites mal dormidas que me fazem perder a cabeça. O que me faz perder a cabeça é o desrespeito pelos conimbricenses. Volto a dizê-lo: exagerei. Hoje, com a distância a que estou, diria, pronto, 30 segundos [bastava], mas no meio da ocasião aconteceu. Tivemos oportunidade de falar, falámos lindamente e tenho a maior das considerações pelo senhor ministro.

Onde vê o seu futuro político? Acaba na política autárquica ou pode voltar para o plano nacional?

Quero ter vida própria, um dia destes. Já fui ministra, já fui presidente da CCDR, e agora autarca. Este é o trabalho que mais me completa. Se acabar a minha vida política como autarca, acabo muito bem. Num mês a vida muda muito.

Não fecha a porta, então.
Não fecho a porta a nada, mas o que está bem presente na minha vida é, depois desta missão pública, ter um bocadinho mais de tempo para a família, que também é muito importante.

Não faltam mais mulheres na política?

Claro que faltam, aqui no distrito de Coimbra fui a única candidata. Hoje, nos governos, há muito cuidado na paridade, mas na política local faltam muitas mulheres. É a mais desafiante e onde há mais machismo encapotado.

Está a gostar mais de ser presidente de Câmara do que quando era ministra?

Claro, não tenho a mínima das dúvidas. É uma realização completamente diferente. Muito exigente, mas é onde nós tocamos a vida das pessoas.

Fez parte de um Governo do PS. Não lhe custa ver que o PS nunca foi liderado pelo PS? Gostava de ver uma das suas ex-colegas de Governo ou a própria Ana Abrunhosa a liderar o partido?

Não sou filiada, por isso não posso liderar nenhum partido.

Mas gostava?

Não, é difícil dizer isto: nunca... ou dificilmente me verão filiada em algum partido. A minha liberdade e forma de ser impede-me. Os partidos vão ter de mudar hoje.

Incluindo o PS?

Incluindo o PS. Não sou ninguém no PS, nem quero ser. Tive a confiança do PS a quem agradeço muito o apoio na candidatura à Câmara. Hoje tenho as minhas opiniões, mas não sou apreciadora da vida partidária, corta muito a nossa liberdade.

O PS foi inexcedível, mas a minha gestão não depende dos gostos ou não gostos do PS, depende do contrato que fiz com os conimbricenses. Tomamos as decisões independentemente de o PS gostar ou não.

O PS deve ser mais duro na oposição?

Em algumas áreas acho que sim. José Luís Carneiro fez muito bem em garantir a aprovação do Orçamento do Estado, a partir de agora tem de negociar.

Em que áreas?

Nas áreas que são fundamentais para o PS, a área social, a lei laboral, habitação. Na questão da imigração estou em profundo desacordo com este Governo. Não vivemos sem imigrantes. A tentativa que foi feita de associar os imigrantes à insegurança, tirando espaço ao Chega, é algo que me custa imenso e que o PS deve agarrar.

O que eu acho que ninguém nos perdoa é saber quantos imigrantes temos e onde estão.

Nisso a responsabilidade também é dos governos do PS?

Houve uma fase em que, de facto, houve muitos imigrantes. Havia pessoas no país que estavam a tentar legalizar-se e que não tinham resposta. E parece-me que nessa fase nós poderíamos ter feito melhor. Mas não devemos associar a imigração a um clima de insegurança. Em Coimbra, a população imigrante de 2024 para 2025 aumentou 71% e são pessoas que estão totalmente integradas e contribuem de forma líquida para a Segurança Social.

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