João Duque
“Crise energética deverá ter efeitos mais duradouros devido à destruição de infraestruturas”
07 abr, 2026 • Olímpia Mairos , com André Rodrigues
Comentador alerta para impacto prolongado nos preços e questiona rapidez das subidas nos combustíveis.
A crise energética global poderá prolongar-se no tempo e ter efeitos mais persistentes na economia, num cenário já considerado mais grave do que anteriores choques petrolíferos. O aviso é deixado pelo comentador da Renascença João Duque, que sublinha a dimensão inédita do impacto atual.
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O alerta surge depois de o diretor da Agência Internacional de Energia ter admitido que a crise provocada pelo bloqueio do Estreito de Ormuz já ultrapassa, em conjunto, os choques de 1973, 1979 e 2002 — uma realidade que se reflete diretamente no aumento dos preços dos combustíveis.
Para João Duque, o principal fator diferenciador desta crise está na destruição de capacidade produtiva, o que compromete a resposta do mercado. Como explica, “esta crise está agora a ter contornos um bocado diferentes porque há a destruição de muitas infraestruturas que alimentavam o mercado”, apontando como exemplo “um ataque a uma unidade industrial petroquímica iraniana que era uma fonte de alimentação do mercado com oferta de produtos importantes para as cadeias de valor na indústria em geral”.
Essa perda de capacidade torna a recuperação mais lenta e difícil. O economista alerta que “a reposição dos estoques não se faz de um dia para o outro”, o que significa que “muito provavelmente, esta crise é capaz de ter um impacto mais durável no tempo do que outras”. Nesse sentido, antecipa também efeitos prolongados nos preços: “é provável que os impactos inflacionistas sejam, se calhar, um pouco mais demorados”.
Apoios em causa na Europa
Ao mesmo tempo, cresce a preocupação entre vários líderes europeus quanto à continuidade das medidas de mitigação para travar a subida dos combustíveis. Segundo João Duque, “o que os líderes europeus, alguns, estão preocupados é na possibilidade deste prolongar de apoios que alguns países estão a fazer”.
Apesar de Portugal ter adotado algumas medidas, persistem críticas quando comparado com Espanha. O economista nota que “os portugueses queixam-se sempre quando comparam os nossos preços na bomba com os espanhóis e veem que há uma diferença muito substancial”, explicando, contudo, que “os espanhóis usam outro tipo de medidas e, portanto, com impacto na bomba”. Ainda assim, deixa a questão em aberto: “a pergunta é por quanto tempo é que vão usar estas medidas”.
Subidas rápidas levantam dúvidas
Outro dos pontos levantados prende-se com a forma como os preços sobem rapidamente nos postos de abastecimento, mesmo quando o combustível disponível foi adquirido a preços mais baixos.
João Duque considera que essa prática não é inevitável: “pois, é isso, não tem que ser assim”. Explica que existe um preço de referência baseado numa média recente — “há uma média da semana anterior que pode usar-se para preço de referência” — mas sublinha que esse valor não corresponde necessariamente ao custo real das empresas.
Na prática, “não é o preço de custo que muitas empresas [...] usam para a sua contabilidade, porque compraram o petróleo a preços e fixaram o preço de compra muito antes da semana em que estão a vender”. Essa diferença pode traduzir-se em ganhos adicionais, motivo pelo qual o Governo pondera agir: “não é por acaso que o ministro Miranda Sarmento quer instituir uma taxa extra sobre as empresas exploradoras de refinados de petróleo”.
A concluir, Duque esclarece que “o preço de referência é uma referência, mas não tem que ser o nosso preço na bomba”.
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