22 set, 2025
Platão apresentou as virtudes cardeais como os alicerces de uma vida equilibrada e plena, quatro qualidades essenciais que formam um ser humano completo, enquanto Aristóteles sublinhou que essas virtudes se cultivam e consolidam através da prática e do hábito.
Coragem, sabedoria, justiça e temperança são as virtudes cardeais que atravessaram séculos e ainda têm o poder de transformar vidas. Estes pilares éticos, enraizados tanto na filosofia clássica como na tradição cristã ou espiritual, permanecem ainda como relevantes nos dias actuais.
Mas quando estas virtudes são ignoradas ou relegadas a meros ideais do passado, a sua ausência torna-se evidente nos acontecimentos do presente, onde a violência, a intolerância e a injustiça assumem o lugar que lhes deveria ser vedado. E são muitos os exemplos.
Quando, perante um acidente recente se aumenta o ruido, emergem as acusações, em vez de se respeitarem os mortos e os feridos, aligeirando-se responsabilidades buscando culpados presentes ou passados. Quando, por não concordar com alguém, pego numa arma e disparo de forma furtiva retirando uma vida ainda jovem, deixando famílias em sofrimento. Quando, perante uma violência crescente, em busca de gente escondida, destruo vidas, cidades, e deixo muitos à fome e em condições miseráveis. Quando, acabado de chegar a um país, me considero com direito a condições e proteção e decido protestar. Quando se substitui a tolerância e hospitalidade, que eram reconhecidamente valores da nossa sociedade, por insultos e agressões. Quando invado um país e decido expandir fronteiras, não me abrindo à paz e ao diálogo.
Vivemos num mundo em que se desistiu de buscar a paz, o diálogo, a escuta, o respeito pelo outro como critérios inaugurais de qualquer situação. Por isso me pergunto: por onde andam as virtudes cardeais da coragem, da sabedoria, da justiça e da temperança?
A coragem não é o impulso interior de confrontar o outro ou a justificação para agredir. Nem tão pouco a ausência de medo. É precisamente a capacidade de agir mesmo diante do medo, é a fortaleza, a força interior, que nos permite enfrentar desafios e adversidades com determinação e confiança.
A sabedoria, ou a prudência, é a virtude que nos ajuda a discernir o certo do errado, guiando as nossas decisões com racionalidade e bom senso. É o fator mais diferenciador a que podemos recorrer, mais ainda que a inteligência ou o talento e é por isso conhecida como a “rainha das virtudes”, pois orienta todas as restantes.
A justiça é a base para a paz e a dignidade. Sem justiça não pode haver paz e é, por isso, a virtude que sustenta relacionamentos saudáveis e sociedades justas. É o compromisso de tratar os outros com equidade, respeitando-os e promovendo o bem comum.
A temperança é a capacidade de moderar desejos e impulsos, evitando excessos. É a virtude que nos ajuda a manter o equilíbrio, a justa medida, sem excessos nem abusos, de forma equilibrada e responsável.
Como nos faz falta deixar que estas virtudes respirem em cada gesto do nosso dia. Em vez do ruído que fere, dos insultos que afastam e das agressões que nos oprimem, poderíamos abrir espaço à paz que vem d’Aquele que, na humildade, nos ensina a viver mais plenos, mais inteiros, mais humanos.