Vivemos no Advento do vazio?
15 mai, 2026 • João Pedro Tavares
Interagimos nos tempos atuais com máquinas a quem agradecemos e pedimos “por favor”. Não existe espaço para o ético e o moral, nem para a compaixão ou misericórdia, nem para a relação ou o afeto.
Vivemos numa mudança de época, como tantas vezes referiu o Papa Francisco, plena de oportunidades e possibilidades. Qualquer um tem nos dedos a possibilidade de enviar mensagens públicas, pronunciar-se sobre qualquer tema, partilhar sentimentos e estados de espírito, com alcance, em rede. Tudo é tornado público e buscam-se aprovação e “likes”, sem se criarem compromissos ou estabelecerem-se laços muito próximos.
Em simultâneo, vivemos numa época particularmente vulnerável ao engano, porque muitas destas possibilidades dão-nos a sensação de proximidade, de protecção e de companhia. Mas é precisamente essa ilusão de ligação permanente que, paradoxalmente, nos pode conduzir ao vazio.
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O engano que é substituir pessoas por máquinas, relações por prompts, verdade por relatos, compromissos por likes, mesmo que representem a apreciação de alguém. Interagimos nos tempos atuais com máquinas a quem agradecemos e pedimos “por favor”. Que nos deliciam por tanta “sabedoria” que demonstram. Do outro lado, estão agentes e algoritmos que criam conexões, podem “alucinar” e respondem sempre alguma coisa, independentemente da pergunta que fazemos. Não distinguem o certo do errado; limitam-se a estabelecer relações e causalidades, procurando aquilo que está mais próximo de uma resposta correta.
Não existe espaço para o ético e o moral, nem para a compaixão ou misericórdia, nem para a relação ou o afeto. Mesmo que do “lado-de-cá” seja suscitado um sentimento de gratidão pela rapidez e surpresa, ou a admiração pela capacidade sem limites. Privilegiamos a solução ao compromisso, o resultado à proximidade.
E é precisamente esse potencial engano que nos pode conduzir a um vazio de capacidade crítica, de relações, de valores, de calor humano, de proximidade, de rostos, de sentido de família e de verdadeira amizade, substituindo gradualmente uma cultura do cuidado. A resposta em voz poderá soar humana e calorosa, mas virá da máquina.
Como refere o Papa Leão XIV, “O desafio não é tecnológico, mas antropológico. Preservar os rostos e as vozes significa, em última análise, preservarmo-nos a nós próprios. Aceitar com coragem, determinação e discernimento as oportunidades oferecidas pela tecnologia digital e pela inteligência artificial não é sinónimo de esconder de nós mesmos os pontos críticos, a opacidade e os riscos.”
Devemos olhar com sentido crítico para as excecionais oportunidades que nos são apresentadas, testar, implementar e adoptar novas soluções, mas sem permitir que a prevalência dos resultados de curto prazo coloque em risco valores, princípios e critérios de bem comum, proximidade e entreajuda. É incontornável que o pêndulo oscile rapidamente num determinado sentido, mas tenho esperança de que regressará depois a uma “nova normalidade”, onde todos estes aspectos procurarão conjugar-se.
O desafio será compreender que lugar reservamos àquele que foi criado à imagem e semelhança de Deus.
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