As maiores vítimas são as mais pequenas
17 jul, 2025
A guerra, como quase sempre, trouxe mais vingança do que justiça. A desproporção da reação de Israel tornou-se tão evidente quanto a impotência mundial para impor limites.
Al-Helou é um hospital internacional em Gaza, onde as incubadoras sobrelotadas, a energia eletrica incerta e os geradores avariados são insuficientes para garantir a esperança de vida de muitos bebés prematuramente nascidos.
Em vez de uma, chegam a estar quatro crianças numa incubadora. E quando a energia falha e os geradores não respondem, a vida apaga-se.
Em breve, estas crianças ou as suas famílias serão reduzidas à condição de números, mais uns números que se somam a tantos outros na contabilidade da guerra. Gente inocente, como inocentes eram as vítimas e os reféns israelitas tomados pelo Hamas.
Os crimes sanguinários do Hamas em 2023 levaram à reação de Israel. Uma reação inevitável, como todos os atores da região previam, desde o Hamas aos seus aliados – Irão e Hezbollah.
Até aí concentrados na Ucrânia, os holofotes internacionais viraram-se de novo para o médio oriente. Putin respirou de alívio. Os seus amigos do médio oriente tinham acabado de criar novo foco de instabilidade mundial.
A guerra, como quase sempre, trouxe mais vingança do que justiça. A desproporção da reação de Israel tornou-se tão evidente quanto a impotência mundial para impor limites.
O povo judeu, atormentado pelos horrores do holocausto de Hitler, tornava-se cúmplice de uma chacina bárbara, pela mão de um primeiro-ministro que precisa da guerra para se manter no poder.
A fraqueza das instituições internacionais e dos pesos e contra-pesos do sistema mundial facilitaram a desgraça.
Sabendo que o poder tem horror ao vácuo, Benjamin Nethanyahu ocupou o espaço que as debilidades internacionais lhe abriram. E fê-lo quase sem freios nem limites. Por sua vontade, os militares israelitas não se retiram de Gaza tão cedo. E enquando durar o estado de guerra não será fácil realizar eleições e nomear, eventualmente, outro primeiro-ministro.
Entre a fragilidade de Biden e a inconstância de Trump, os Estados Unidos continuam a não oferecer atualmente garantias de estabilidade.
O que hoje se diz, de pouco vale amanhã. A incerteza tornou-se uma constante do sistema americano. E a política externa americana depende cada vez mais da agenda interna.
O sobe e desce dos amigos e dos aliados de Trump, consoante a agenda dos interesses, é apenas a confirmação de que o populismo é nebuloso e perigoso. De Elon Musk até ao caso sórdido de Jeffrey Epstein, vamos continuar a ver reflexos e consequências do populismo.
Este não é, como sabemos, um fenómeno americano. Após um período intenso marcado por uma cultura woke planetária que pretendia cancelar outras visões do mundo - desde o aborto, à eutanásia, à educação e a todo o tipo de linguagem ou comportamentos - assistimos agora à respetiva reação e a múltiplos ressurgimentos de um populismo desenfreado que também não respeita quase nada nem ninguém.
A amostra interna, recente, do líder da oposição portuguesa a debitar no parlamento, nomes concretos de crianças estrangeiras que vivem no nosso país é uma manifestação de profundo desrespeito humano que visa apenas atiçar preconceitos e que não honra a história de Portugal.
As crianças são sempre as maiores vítimas dos disparates políticos, militares, legislativos ou culturais. Nuns casos, como na guerra, vivem para morrer. Noutros, como no aborto, morrem sem viver. E ainda noutros, sobrevivem estigmatizadas pelo ódio e pelo preconceito. De muitos modos assim, se apaga ou atraiçoa a vida de uma criança.
Nada disto é novo. Mas não conseguiremos fazer melhor?
- 18 mai, 2026
- 24 abr, 2026
- 13 abr, 2026
- 07 abr, 2026
- 04 mar, 2026
- 06 fev, 2026
- 30 jan, 2026
- 14 jan, 2026
- 03 jan, 2026
- 23 dez, 2025



