23 dez, 2025
Surpreendida por uma gravidez impossível, a mãe aceita o nascimento e decide amar o seu filho.
Incrédulo primeiro, convencido depois, o pai aceita acolher, amar e proteger essa criança.
Pobres e deslocados na altura do nascimento, os pais encontram num estábulo rudimentar, junto dos animais, as condições possíveis para o nascimento do bebé.
Receado pelos mais poderosos, o nascimento desta criança foi saudado pelos mais pobres e simples que por ali andavam, mas também por gente de outras paragens e culturas que vieram de longe para ver o menino e saudar a família. Mais uma surpresa para estes pais que perseguidos na sua terra, acabam posteriormente por fugir para o estrangeiro e abandonar o pouco que tinham.
Emigram, trabalham e educam o filho. Fazem-no como podem; talvez não como queriam.
Anos mais tarde regressam ao país que amavam. Ainda assim, não tinham crédito entre os seus.
Sempre pobres, o filho do pai não passava do filho do carpinteiro. Não o viam de outra forma. E murmuravam entre si, sempre que detetavam nele aspirações maiores. Também por isso não se indignaram quando alguns o quiseram matar. Nem se importaram com a sua sorte. Era apenas mais um, a ter um destino comum – antes de tempo, a sua morte.
A história deste Menino que vemos nascido no presépio é luz que ilumina fraquezas e pobrezas. As de hoje e as de sempre.
Desde as gravidezes interrompidas e às mortes antecipadas, até às exclusões e às condições de vida dolorosas e sofridas.
Desde as perseguições pelas cores - das crenças ou da pele - até à fuga para novos destinos em busca de um destino melhor.
Desde o respeito pelos mais pobres, à abertura universal a culturas e a protagonistas diferentes.
No silêncio do presépio não ganham os que mais gritam ou aqueles que procuram na força o que lhes falta em razão.
Infelizmente, genuínos ou induzidos os preconceitos continuam a gritar mais forte, em muitas situações. E o preconceito tantas vezes gritado, acaba por acordar o pior de nós mesmos.
A mentira – repetida, argumentada e gritada - tanto mais sucesso tem, quanto em nós vive, ainda que silencioso, o preconceito contra a diferença que nos torna indiferentes a esses outros.
Os populistas de direita atiçam o ódio contra os imigrantes e esquecem a dignidade de toda a vida humana e durante toda a vida. É difícil que o preconceito aquecido por qualquer tipo de ódio possa coadunar-se com uma perspetiva cristã da vida.
Os populistas de esquerda abrem as portas a todas as culturas que vêm de fora, mas querem cancelar, anular, às vezes proibir, tudo aquilo que emana das raízes culturais da sociedade em que nasceram.
Outros ainda, movidos pelo comodismo da indiferença, procuram descartar o presépio e disfarçar ou plastificar o significado do Natal.
Para, alegadamente, não ofender aqueles que vieram de fora, algumas sociedades europeias fizeram delete ao Natal. Evitam o termo e ergueram em seu redor uma espécie de barreira sanitária.
As férias de Natal e os mercados de Natal são agora, nesses países europeus, férias e mercados de Inverno, onde brilham as luzes, mas se esconde a alma.
Noutros casos, procura-se retirar ou esconder sinais religiosos de espaços públicos. Recentemente uma escola portuguesa terá decido nada fazer para assinalar o Natal, não fosse alguém de outra confissão religiosa ficar ofendido.
Argumenta-se, e é verdade, que o Estado é laico. Esquece-se, e é pena, que a sociedade não é.
De resto, se os próprios europeus desvanecem ou adulteram as suas raízes culturais, como se pode pedir aos de fora que as conheçam ou respeitem?
Boa parte da falta de integração de muitos imigrantes resulta do vazio cultural que aqui encontram. Como se todas as culturas fossem bem-vindas, com exceção da nossa.
Nas últimas décadas, a agenda woke levou à descaracterização cultural da Europa. Substituíram-se valores de sempre, pelo valor do pragmatismo, impregnado de uma cartilha relativista.
A desorientação política europeia não é alheia ao abandono de tais raízes. E, gostem ou não, são cristãs as raízes da nossa cultura.
Não se trata, porém, de um cristianismo seletivo, aplicado e vivido segundo conveniências pessoais ou devaneios ideológicos.
Naquelas imagens simples, com dois mil anos de história, cada presépio é uma grelha de vida, pessoal e coletiva. No modo como olhamos a vida e a morte, os próximos e os estrangeiros, os poderosos e os indefesos, a guerra e a paz.
O presépio não nos fala do passado: traça, pelo contrário, uma narrativa intemporal, renovadamente indispensável.
E para os cristãos transmite a alegria de uma certeza: este menino nasceu e morreu, para nos salvar - a mim, a nós e a todos.
Santo Natal.