14 jan, 2026 • José Luís Ramos Pinheiro
As eleições presidenciais deste domingo são as primeiras em que os portugueses se preparam para escolher um Presidente da República que não desempenhou papel histórico no início do regime saído do 25 de Abril.
Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio, Cavaco Silva ou Marcelo Rebelo de Sousa foram figuras ativas nos primeiros anos da democracia. E marcaram esses anos, cada a um seu modo. E a seu modo, cada um deles tinha personalidade vincada e diferenciada. Ainda assim, como Presidentes da República no quadro dos respetivos poderes constitucionais, não governaram nem ‘mudaram’ o país. Nem o poderiam fazer. Não é esse, no nosso sistema constitucional, o papel do Presidente.
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Tomaram decisões que influenciaram genericamente o curso político do país, mas sem poderes executivos para decidirem o que alguns dos atuais candidatos presidenciais parecem querer decidir.
Mário Soares, por exemplo, dissolveu a Assembleia da República quando o PSD governava em minoria, abrindo portas à primeira maioria absoluta de Cavaco Silva. A sua decisão teve impacto nos anos que se seguiram. Mas foi Cavaco a governar, com soluções que frequentemente desagradaram ao Presidente.
Jorge Sampaio dissolveu o Parlamento quando PSD e CDS governavam com maioria absoluta, permitindo o início dos governos de José Sócrates. A decisão presidencial teve também consequências políticas importantes. Mas, uma vez mais, foi Sócrates quem conduziu o país, até ao ponto que se conhece. Não foi Sampaio quem governou.
Até às eleições de 18 de janeiro, a Renascença diz(...)
No meio de candidaturas que atualmente prometem mudar o sistema, o país, a saúde ou a justiça vale a pena sublinhar: quem promete essas mudanças está a mentir; quem promete essa transformação (rutura ou o que lhe queiram chamar), candidatou-se à eleição errada. Deve esperar com a paciência possível (mas que é própria das democracias) pelo tempo de novas eleições legislativas.
Não podendo aspirar a uma mudança significativa de políticas, cuja condução não lhe pertence, o que podem procurar os portugueses no novo Presidente da República?
Em primeiro lugar uma figura agregadora. Em tempos de fracionamento a todos os níveis, interno e externo, qual dos candidatos pode melhor agregar, juntar e motivar os portugueses?
Se é verdade que a maior parte dos eleitores não morre de amores por nenhum dos principais candidatos, então qual dele é o menos divisivo?
Qual deles terá mais capacidade e engenho para incluir e acolher a maior parte dos eleitores, sejam eles de direita, de esquerda ou do centro?
Qual dos candidatos, após vencer a mais que provável segunda volta, terá, no frémito da vitória, a vontade de construir pontes e não o ímpeto de as dinamitar?
Qual deles - num quadro externo previsivelmente imprevisível - terá mais experiência e competência para colaborar com o Governo numa política externa que ajude Portugal e acompanhe os portugueses (incluindo aqueles que procuraram lá fora o bem-estar que não lhes sorriu cá dentro), a ultrapassar as ‘intempéries históricas’ que já estamos a viver?
Qual dos candidatos gera, não por ‘marketing barato’, mas pela sua substância e capacidade, a confiança necessária nos agentes económicos, sociais, empresariais e universitários?
Ainda que nenhum dos candidatos reúna todas estas condições, qual deles se pode vir a tornar - com o andar dos anos e perante cenários difíceis - numa figura mais agregadora, mais confiável e mais inclusiva?
E a pergunta pode ser feita pela negativa: ainda que nenhum dos candidatos reúna todas estas condições, qual deles se pode vir a tornar - com o andar dos anos e perante cenários difíceis - numa figura ainda menos agregadora, ainda menos confiável e, porventura, ainda menos inclusiva?
A experiência é outro elemento a ter em conta, na escolha de um Presidente. Um candidato agregador, mas sem experiência política, arrisca-se a ser presa fácil de grandes ou pequenos interesses.
A experiência não é tudo, mas não é coisa pouca.
Um Presidente da República inexperiente nos quadros políticos internos e desconhecedor da densidade da política externa nos anos que vamos viver, não será uma mais-valia para o país, em tempos exigentes, para não dizer severos.
Sendo ‘La Paliciano’, um terceiro aspeto tem a ver com o bom senso. Noutras alturas, seria desnecessário referi-lo. Porém, neste momento, e por oposição a tantos líderes nacionais e internacionais que passeiam ostensivamente a sua manifesta escassez de bom senso, seria útil que tal não faltasse ao próximo presidente português.
A pressão interna e sobretudo a externa serão enormes. Todos os principais responsáveis políticos serão submetidos a testes de stress. Basta pensar na guerra da Ucrânia, nas reviravoltas da ordem internacional, na crise da NATO e na retração da União Europeia.
Um Presidente leviano, sem resiliência nem resistência que à primeira dificuldade perca o bom senso, o equilíbrio na análise, a oportunidade da palavra e a sabedoria da decisão (naquilo que lhe compete...) é um perigo acrescido, no mar de muitos outros.
Noutras conjunturas, o bom senso talvez fosse secundário; nos tempos que correm é de bom senso não eleger um Presidente que o não tenha.
Cabe aos eleitores fazer a melhor (ou a menos má) escolha possível entre os candidatos em presença.
As últimas semanas têm-nos dado sondagens, tracking polls e episódios para vários gostos. Marques Mendes e Gouveia e Melo já lideraram a corrida. Depois, Ventura passou para a frente, com Seguro a subir e Cotrim a sprintar para disputar a segunda volta.
Neste momento, as sondagens (e não meras tracking polls) indicam que André Ventura estará quase certo na segunda volta, devendo mesmo vencer a primeira. Simultaneamente, Mendes voltou a subir a ponto de poder disputar a segunda volta.
No domingo à noite muito se falará de sondagens e, sobretudo de tracking polls, para ver se souberam captar tendências de voto ou se, pelo contrário, nos precipitaram para cenários insuficientemente fundamentados, induzindo - objetivamente - o eleitorado em erro.
Ao longo dos anos, tem sido discutida também a necessidade de um dia de reflexão, antes da votação. Talvez nunca como nestas eleições se justifiquem estas vinte e quatro horas reflexivas.
Gostando-se mais ou menos dos candidatos no seu conjunto, é indispensável escolher e votar. Quem não votar no domingo, não se queixe depois das escolhas que tem (ou não tem) ao seu dispor, na segunda volta.
Com estas eleições, Portugal pode aproximar-se da situação política francesa. Marine Le Pen, candidata da extrema-direita, quase venceu a primeira volta das últimas eleições presidenciais francesas e dificultou a vitória de Macron na segunda.
Para os eleitores portugueses que pretendam a todo o custo evitar a eleição de Ventura é indispensável reforçar o voto num candidato que possa realmente vencê-lo na segunda volta.
De todos aqueles que ainda conservam possibilidades de aceder à segunda volta, aquele que terá maior dificuldade em vencer André Ventura parece ser João Cotrim de Figueiredo. Não apenas pelas acusações de assédio de que foi alvo, mas sobretudo pela leveza com que admitiu eventualmente votar em Ventura, caso não viesse a passar à segunda volta. Depois disto, duvido que a generalidade dos eleitores socialistas ou de partidos mais à esquerda, por exemplo, concentrassem o seu voto num candidato ferozmente liberal, mesmo para derrotar André Ventura.
Nesse aspeto, Marques Mendes estará em melhores condições de assegurar o eleitorado necessário para chegar a Belém numa segunda volta. E o mesmo pode acontecer com António José Seguro ou Henrique Gouveia Melo se conseguirem passar com sucesso o teste do próximo domingo.
Sendo André Ventura o candidato claramente mais bem colocado para disputar a segunda volta, a escolha de quem não vota nele, só pode obedecer a esta pergunta: quem pode, com maior probabilidade, vencer Ventura, na segunda volta?
Do meu ponto de vista, o candidato mais agregador, mais experiente e com maior bom senso.
Boas escolhas!