Agradecer aos que caíram e se levantaram
06 fev, 2026
Sem uma visão diferente, os erros de ontem serão mais graves amanhã. Não basta pôr um penso rápido numa infeção vasta e profunda.
Confirma-se o óbvio: não temos um país preparado para um clima (que era) raro.
Não somos os únicos. Aqui ao lado, a tragédia de Valência em 2024 e outras de gravidade variável por essa Europa fora, colocam em evidência fragilidades estruturais semelhantes às nossas.
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Tempestades com ventos e chuvas acima da média, seguidas de severas inundações deixaram Portugal atónito pela violência das consequências.
As mudanças a introduzir, os planeamentos a fazer, a cultura a transformar devem reconhecer o contexto trazido pelas variações climáticas, agravadas, frequentemente, pela imprevisibilidade humana.
Sem uma visão diferente, os erros de ontem serão mais graves amanhã. Não basta pôr um penso rápido numa infeção vasta e profunda.
Os especialistas saberão como fazer. E os responsáveis políticos - no Governo, na administração central e na administração local – perceberão que é preciso ver mais longe e fundo.
De resto, um país pequeno com meios limitados está obrigado a não desperdiçar os que tem. Nem pode desperdiçar capacidades e oportunidades que tragédias como esta também devem significar.
Haverá sempre consequências humanas e prejuízos materiais, em eventos desta natureza. Nunca estarão resolvidos todos os problemas nem acauteladas todas as fragilidades. Será sempre impossível a omnipresença massiva de polícias, bombeiros e agentes da proteção civil.
Porém, é indispensável ter consciência daquilo que é preciso mudar. Criar um ‘caderno de encargos’ nacional, para os próximos anos. Definir metas e desígnios que mobilizem o país, incluindo os responsáveis políticos.
Desenvolver uma cultura de proteção e defesa das pessoas que começa na escola e se prolonga nas universidades, que ganha tração nas empresas, nas câmaras municipais, nos agentes económicos, em geral e nas forças de proteção civil, em particular. Uma cultura transversal com implicações também no ordenamento do território, nos processos construtivos e na salvaguarda das estruturas elétricas e de comunicações.
As mortes, os sofrimentos, os prejuízos, a destruição do modo de vida de tanta gente são razões mais do que suficientes para justificarem uma transformação de mentalidades e prioridades.
Estas são necessidades maiores que obrigam a maiores compromissos. No meio de tantas vidas à deriva, as disputas ideológicas (?) e partidárias acaloradas para culpar ou absolver responsáveis pela tragédia seriam apenas ridículas se trágicas não fossem.
No meio dos alaridos discursivos de alguns políticos, comentadores ou até jornalistas gostava mais de agradecer aos milhares de voluntários que em Leiria e na região centro e agora também noutras zonas como Alcácer do Sal, dão o que podem e às vezes o que não têm, por amigos, mas também por desconhecidos.
Como é obrigatório agradecer igualmente aos milhares de trabalhadores da E-Redes, da Meo, da Nos ou da Vodafone que dia e noite batalham em condições adversas para pôr de pé o que tempestade destruiu.
E é justo também não esquecer as mulheres e homens da Proteção Civil, cujo esforço e proximidade tem feito toda a diferença na ajuda às populações mais isoladas e fragilizadas, assim como todas as forças de segurança e militares.
E como não agradecer também aos bombeiros que uma vez mais demonstram proatividade e capacidade para levar o país aos ombros em momentos de tanta privação?
E o que dizer de tantas instituições, como as Caritas diocesanas e nacional, que colocaram toda a sua rede de experiência ao serviço dos que ficaram com a vida em suspenso, privados das condições mínimas de dignidade?
E nestes agradecimentos juntar também os responsáveis e todos os trabalhadores autárquicos que deram as mãos sem olhar a cores partidárias, dando ao bem comum o lugar cimeiro que sempre deveria ter.
E não esquecer igualmente tantos jornalistas, incluindo os da Renascença, que pelo país fora vão encontro dos mais isolados a quem pretendem dar voz, mas sem as perguntas óbvias de quem já nada tem a perguntar, exceto sobre a rainha de todas as questões, repetida à náusea e à exaustão: mas afinal de quem é, foi ou será a culpa?
Por junto, é preciso agradecer ao país que sofreu, mas não se rendeu; ao país que ajudou e se sacrificou; ao país que caiu e se levantou.
E uma boa forma de honrar e agradecer todos os esforços a que assistimos nestes dias para manter de pé o país, é ir votar no próximo Domingo. Procurar que a legitimidade do próximo Presidente da República não seja afetada ou diminuída, criando mais desconfianças numa altura em que mais precisamos de acreditar e confiar.
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