26 jun, 2024
Os resultados das recentes eleições para o Parlamento Europeu podem alimentar tanto perspetivas otimistas como perspetivas pessimistas. Os europeístas respiraram de alívio. Afinal, a maré alta da direita radical desfez-se na praia, invalidando os maus cenários das sondagens. A extrema-esquerda saiu minguada e o “centrão” europeu - o Partido Popular Europeu (PPE), os Socialistas e Democratas (SD) e o Renovar Europa Liberal (RE) - vale mais de 400 eurodeputados em 720 assentos, podendo, portanto, ser barreira dissuasora contra os radicais de direita. Ursula von der Leyen já espreita o seu segundo mandato, António Costa a liderança do Conselho Europeu, a PM estoniana Kaja Kallas poderá ficar com a cadeira do espanhol Borrell e Roberta Metsola continuará na presidência do PE. É tudo gente boa, que promete congregar forças para um programa “pró-Europeu, pró-Ucrânia e pró-Estado de Direito”.
Ora, o simples facto de a agenda europeia ser dominada por estes lemas significa que a UE é uma cidadela sitiada por vozes e tendências em crescendo, que justamente são eurocéticas ou euro inimigas, porventura pró-Putinistas e talvez demolidoras das convenções legais que fizeram o edifício europeu desde a sua cristianíssima, irénica, desenvolvimentista e humanitária origem, depois de 1945. Os Conservadores e Reformistas (ECR) e a Identidade e Democracia (ID) elegeram 131 eurodeputados (18,2% - quase 1/5 do plenário de Estrasburgo). Ainda assim, ‘no pasa nada!’, dizem os incautos. Estão enganados. O Parlamento Europeu é uma soma de eleições nacionais. E adentro fronteiras, a direita radical cresceu em toda a Europa. Elegeu eurodeputados em 22 dos 27 Estados da UE; ganhou em França, Bélgica, Áustria e Hungria, ficou em 2.º lugar na Alemanha, na Polónia e na Letónia, em 3.º lugar em Espanha, Portugal, Bulgária ou Eslováquia. Os dois eurodeputados do Chega não ensombrarão o europeísmo de Bruxelas. Mas a humilhação eleitoral de Macron e de Scholz, o primeiro com menos de metade dos votos de Marine Le Pen, o segundo atrás da AfD, tem de merecer uma análise cuidada, porque só pode ser lida, em registo pessimista, como um hipotético início do fim do motor franco-alemão europeísta.
O oportunismo demagógico e o populismo “catch-all” de muita da direita radical fez e está a fazer caminho entre os europeus. O seu programa anticorrupção e antissistema, de nativismo e soberania, de protecionismo económico e nacionalismo identitário, contra a imigração, a agenda verde, o progressismo intolerante da esquerda, o Euro, Zelensky e o que mais for, mostra a gravidade das dores de crescimento num continente que não cresce, na economia, no bem-estar e na coesão política em torno da democracia parlamentar.
O porquê desta deriva direitista tem muitas razões. A principal delas, sistémica, é a rarefação de um centro que não seja mera equidistância entre berradores, mas que seja, e se afirme, uma plataforma plural de procura de soluções para relançar a solidez da democracia, do crescimento e dos valores da Europa. Faltam políticos que não cedam a modas, e que sejam intransigentes na liberdade, com a coragem de trazer para o debate causas que os extremistas ocuparam - que são problemas, mas para os quais o extremismo oferece más soluções. Não há nenhuma contradição entre ser democrata, liberal e forte, porque a autoridade natural não se confunde com o empertigamento autoritário. Em 1981, o socialista François Mitterrand ganhou as presidenciais francesas (encetando o seu duplo septenato no Palácio do Eliseu) com o genial slogan «La Force Tranquille». É só isto que é preciso; mas parece ser exatamente isto que falta na política europeia… e em muitos dos governos nacionais que a compõem.