1945: o longo verão que nos criou
23 jul, 2025 • José Miguel Sardica
A maior parte dos adultos de hoje pertence às gerações de 1968, de 1989 e também já de 2001. Mas somos todos filhos de 1945, e daquele longo verão em que acabou a II Guerra Mundial.
Para o mundo como um todo, tudo o que se passou nas últimas oito décadas aconteceu em cima do legado de 1945. O facto de o pós-Guerra e o pós muros, na celebração do internacionalismo liberal-democrático (re)erguido em 1945, se ter, entretanto, volvido num regresso às guerras e aos muros (físicos ou mentais) torna a recordação desse ano singular ainda mais importante. O que fomos sendo (continuaremos a ser?) durante oitenta anos forjou-se no curto espaço de alguns meses, no fecho da II Guerra Mundial e na definição da ordem internacional que lhe sucederia, sob o lema «Nunca mais!».
1945 começou com a libertação soviética de Auschwitz e o bombardeamento anglo-americano de Dresden, revelando a inexorabilidade da derrota nazi. Em Ialta, em fevereiro, os três grandes (EUA, URSS e GB), começaram a retraçar o mapa da Europa e do mundo. A recriação da Polónia e a quadripartição da Alemanha fizeram logo adivinhar a futura bipolarização da Guerra Fria. O acordo sobre a criação da ONU permitiu que em junho - depois de Mussolini ter sido executado, de Hitler se ter suicidado e de a guerra ter terminado na Europa - a conferência de São Francisco votasse a Carta fundadora da ONU, subscrita pelos 51 vencedores da Guerra, que entrou em vigor a 24 de outubro, dotando o mundo de um extraordinário instrumento jurídico, diplomático e humanitário de regulação pacífica.
Da conferência interaliada de Potsdam, em julho-agosto, saiu o entendimento tácito de que a Alemanha seria a fronteira das futuras duas Europas, democrática e a comunista, dando azo às doutrinas da vigilância e contenção mútuas enunciadas por Kennan, Truman e Jdanov, em lados opostos da nova «Cortina de Ferro». E saíram também os planos para derrotar quem ainda faltava vencer – o Japão. Tóquio já era massacrada pelos B-29 americanos; a 6 e 9 de agosto, duas bombas atómicas arrasaram Hiroxima e Nagasaki, com a justificativa de Washington de que só isso abreviaria um conflito que a humanidade queria encerrar, forçando a rendição incondicional japonesa. O Imperador Hirohito assim o entendeu, anunciando-o a 15 de agosto.
A 2 de setembro de 1945 (seis anos e um dia depois da invasão nazi da Polónia), a II Guerra Mundial chegou ao fim, com a assinatura do termo de rendição nipónica a bordo do «USS Missouri» fundeado na baía de Tóquio. Nesse mesmo dia, Ho Chi Minh proclamava a fundação da República do Vietname, ponto forte de irradiação de uma vaga de descolonizações que ocuparia os anos seguintes, criando novos países ou gerando pontos quentes na Guerra Fria. Em março surgira já a Liga Árabe, fundada no Cairo pelo Egito, a Arábia Saudita, a Jordânia, a Síria, o Líbano e o Iraque. Foi o início da multipolaridade dentro da bipolaridade, ou seja, a consolidação de um Islão político, que descobriria em Israel o seu inimigo e no ocidente um rival. A 20 de novembro começou o julgamento de Nuremberga, destinado a desnazificar a Alemanha e a codificar a nova jurisprudência internacional contra guerras, massacres e genocídios. Na esteira de Bretton Woods, 1945 e os anos seguintes refizeram também a ordem económica global, com o FMI, o Banco Mundial, o Plano Marshall, o GATT, a OECE e a integração ocidental europeia da CECA e da CEE. A NATO é de 1949, o ano da fundação das duas Alemanhas, cuja reunificação demoraria quatro décadas.
A maior parte dos adultos de hoje pertence às gerações de 1968, de 1989 e também já de 2001. Mas somos todos filhos de 1945, e daquele longo verão em que acabou a II Guerra Mundial. Todas as outras datas posteriores só ganham legibilidade se inseridas nessa filiação, fosse para a corrigir, potenciar ou contestar. Em 2025, oitenta anos depois da «Hora Zero», oxalá não estejamos a deitar fora esse berço original.
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