José Miguel Sardica
Opinião de José Miguel Sardica
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​André Ventura: a (a)ventura plebiscitária

22 out, 2025 • Opinião de José Miguel Sardica


Ao mesmo tempo que ensaia um governo-sombra de olhos postos em São Bento, quer eletrizar multidões de olhos postos em Belém.

Ainda antes e sobretudo depois das eleições autárquicas, nas quais o Chega teve um resultado “em forma de assim” (como diria Alexandre O’Neill), André Ventura não podia não ser candidato às eleições presidenciais. A hipótese de colagem a Gouveia e Melo revelou-se impossível e o partido tinha de ter candidato - porque praticamente todos os restantes partidos o têm (numa estranha perversão do carácter teoricamente suprapartidário da eleição presidencial). Mas não podia apresentar um nome qualquer, incapaz de fixar o eleitorado conquistado nas últimas legislativas, em maio. Portanto, só Ventura poderia ser, e tinha de ser, o homem providencial.

Eanes, em 1976, Soares, em 1986, Sampaio, em 1996, Cavaco, em 2006, e Marcelo, em 2016, não eram líderes da oposição partidária ao governo em exercício. Com os seus 60 aduladores em São Bento, André Ventura é-o em 2025 e sê-lo-á na campanha para janeiro de 2026. Ao mesmo tempo que ensaia um governo-sombra de olhos postos em São Bento, quer eletrizar multidões de olhos postos em Belém. A sua distópica utopia é talvez uma outra Constituição, uma outra República, um outro “sistema” em que Belém e São Bento se fundissem num modelo de presidencialismo puro à americana, com o chefe de Estado a presidir a um governo de Secretários de Estado. Se assim for, não há contradição, nem a impossível ubiquidade é um problema. Como todos os partidos,Ventura e o Chega movem-se pela conquista do poder: são “resultadistas” e, no caso do Chega, particularmente “catch-all”, pela positiva (a quem seduz pelas suas ideias) ou pela negativa (a quem oferece um escape de protesto). E para alcançar o poder, tanto lhe serve São Bento como Belém.

André Ventura olha para cada eleição como um plebiscito ao seu carisma e discurso. Entre 2019 e 2025, quatro plebiscitos legislativos levaram-no de 1,29% para 22,76% do eleitorado. Sendo verdade que a candidatura de Gouveia e Melo também atrairá eleitores do Chega, o momento político atual parece indicar que Ventura conseguirá segurar grande parte daquele número. E perante a multiplicação de candidatos, talvez isso seja suficiente para o levar à 2.ª volta das presidenciais. Não é até impossível que ele ganhe a 1.º volta; mas não ganhará Belém porque, na 2.ª volta, o voto útil, do sistema ou não, fará de Gouveia e Melo, de Marques Mendes ou de António José Seguro o expediente “à Macron” para barrar a entronização do “Le Pen” português.

Acontece que em qualquer destes cenários, Ventura saberá capitalizar habilmente a sua (a)ventura plebiscitária. Numa 2.ª volta, mesmo perdendo, a sua votação - que será dele, e não tanto do Chega - poderá aproximar-se ou até superar os 31,2% que deram o governo à AD em maio deste ano. Se assim for, Luís Montenegro enfrentará em São Bento um adversário agigantado por essa conquista. E lá mais para 2029, se os socialistas não se reinventarem drasticamente e a AD não mostrar obra suficiente, Ventura poderá chegar mesmo a primeiro-ministro… porque se o nosso presente indica alguma tendência é a de que uma derrota eleitoral do PSD será sinónimo de uma vitória do Chega… e não do PS. Residente em São Bento, Ventura tratará de lembrar semanalmente ao presidente que estiver em Belém que lhe disputou a eleição na 2.º volta de 2026… e que só não o venceu porque o “sistema” se uniu para o tramar.

É cenário demasiado rebuscado? Talvez. Entretanto, os que mais contestam Ventura são, afinal, os que mais o promovem: os media, porque o líder do Chega é íman de audiências, estando sempre em toda a parte e vociferante; e as oposições, na estratégia suicida de o usarem para se amedrontarem uns aos outros, sem perceberem que ninguém o amedronta e que a todos ele - qual tigre de papel - parece sobrelevar.

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