José Miguel Sardica
Opinião de José Miguel Sardica
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​Yitzhak Rabin: e se…?

05 nov, 2025 • Opinião de José Miguel Sardica


O assassinato de Yitzhak Rabin foi a maior tragédia da história de Israel.

Na história de Israel, houve fugazes momentos em que um futuro de paz poderia ter chegado. E nenhum pareceu tão próximo e real quanto o dos chamados acordos de Oslo, no início dos anos 1990, graças à mediação norte-americana e, sobretudo, porque Yitzhak Rabin e Yasser Arafat convergiram numa mudança construtiva, que queria trocar a via do confronto militar entre Israel e a OLP por uma via de negociação política de dois Estados, com territórios mutuamente reconhecidos.

Para os dois líderes contendores, o caminho fora longo. Ao fim de quase três décadas de infrutífera luta terrorista no quadro da OLP, Arafat compreendera finalmente que o seu sonho de uma Palestina viável passaria pela negociação com o inimigo. E ao fim de uma vida de soldado, general (fora o comandante vitorioso da Guerra dos Seis Dias, em 1967) e político, Rabin foi reeleito como primeiro-ministro, em 1992, com um programa que convergia com o do inimigo na procura de uma via de pragmatismo e de conciliação, que desse segurança e esperança aos seus dois povos.

Os acordos de Oslo estabeleceram uma troca de territórios por paz, assente no prévio reconhecimento mútuo dos dois Estados: Arafat renunciou à luta armada e condenou todas as formas de terrorismo, e Rabin entregou o controlo da Faixa de Gaza e da Cisjordânia à OLP, transmutada em Autoridade Nacional da Palestina. A 13 de setembro de 1993, nos jardins da Casa Branca, sob a mediação de Bill Clinton, o aperto de mão entre ambos foi histórico. Em 1994, Arafat pôde, finalmente, regressar a Gaza e Israel normalizou relações com a Jordânia. Em dezembro, ambos, e Shimon Peres (o MNE israelita), foram digníssimos recipientes do Prémio Nobel da Paz.

1993-94 parecia ser o momento em que tudo iria mudar para melhor. Mas qualquer coisa mudaria em Israel que acabou por invalidar a mudança em favor da paz. A extrema-direita sionista, que não aceitava fazer recuar os colonatos na Cisjordânia, denegriu Rabin como um traidor e a violência entre judeus e palestinianos recrudesceu. Na noite de 4 de novembro de 1995 - completaram-se ontem 30 anos - o primeiro-ministro Rabin encabeçou uma manifestação-comício de apoio ao acordado em Washington, dois anos antes, que encheu a Praça dos Reis, diante da Câmara Municipal de Telavive. Findo o discurso, e quando caminhava para a sua limusine, um jovem judeu ortodoxo de extrema-direita, Yigal Amir, ativista no apoio aos colonatos de Hebron e muito crítico dos acordos de Oslo, atingiu-o com dois tiros quase à queima-roupa. Esvaído em sangue, Rabin morreu 40 minutos depois. No subsequente processo que o condenou a uma pena de prisão perpétua, Yigal Amir nunca demonstrou qualquer arrependimento, argumentando que cumprira «ordens de Deus»!

O assassinato de Yitzhak Rabin foi a maior tragédia da história de Israel. Como depressa se percebeu, e ainda mais depois da chegada de Benjamin Netanyahu ao governo (em 1996), o acordo de Oslo morreu ali: Rabin era o único israelita em quem Arafat confiava e sem Rabin, nem os EUA, nem qualquer outro mediador conseguiriam domar o radicalismo palestiniano, que já ultrapassara Arafat, e o radicalismo judeu, que assassinou o seu próprio primeiro-ministro. Rabin, o homem que fora toda a vida soldado da guerra, dera a vida por uma outra «guerra» - a «guerra» político-diplomática que travava em casa, contra os seus, em favor da paz. No seu funeral de Estado, a 6 de novembro, ao lado de Mubarak e Hussein (os líderes do Egipto e da Jordânia), um choroso Bill Clinton pronunciou em hebraico «Shalom, Haver» («Adeus, Amigo»). Se Rabin não tivesse sido assassinado, talvez – nenhum contra factual pode produzir certezas - o Médio Oriente fosse hoje diferente, para melhor, do que é.

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