03 dez, 2025
No final da Primeira Guerra Mundial, com a derrota dos impérios alemão e austro-húngaro e com a fragmentação da Rússia czarista, novos Estados surgiram no Leste Europeu. Um dos mais importantes foi a Checoslováquia, que, ao contrário de outras novas nacionalidades, conseguiu estabilizar um regime democrático, presidido primeiro por Tomás Masaryk e depois por Edvard Benes. Acontece que a Checoslováquia, territorialmente composta pela Boémia, Morávia, Silésia, Eslováquia e Transcarpátia, dava guarida a mais de três milhões de germânicos – os chamados Sudetos, na zona de fronteira noroeste com a Alemanha. Quando Adolf Hitler chegou ao poder, em 1933, a doutrina do «espaço vital» ariano cimentou o apetite de Berlim em refazer o mapa das fronteiras do Leste europeu pela germanização de todos os espaços onde existissem populações alemãs, pela língua, cultura ou raça. Sem surpresa, nesse mesmo ano, surgiu um Partido Alemão dos Sudetos, liderado por Konrad Henlein, que, invocando supostas violências do governo de Praga sobre a «Sudetenland», passou a advogar a junção da região ao III Reich nazi.
Em 1938, depois da «Anschluss» - a anexação da Áustria - Hitler virou as suas atenções para a Checoslováquia. Perante a ameaça de invasão alemã, Praga pediu auxílio à Liga das Nações e, sobretudo, às potências que com ela tinham alianças diplomáticas (a França e a URSS), ou que mais influência poderiam ter no xadrez europeu (a Grã-Bretanha). Londres chefiou a aproximação conciliatória ao Reich, com o PM, Neville Chamberlain, a encontrar-se com Hitler em Berchtesgaden. Em Munique, a 29 de setembro de 1938, os dois sentaram-se com Édouard Daladier, o PM francês, e o Duce italiano, Benito Mussolini, para uma cimeira de apaziguamento que desarmasse a crise checa e a ameaça de uma guerra generalizada. O governo checo não foi sequer consultado para a decisão final: os 30 mil km2 da região dos Sudetos passariam para a Alemanha, contra a promessa de Hitler de que nada mais exigiria, nem tentaria obter do seu país vizinho. Os apaziguadores suspiraram de alívio e exprimiram a sua alegria. Munique seria “a paz para as nossas vidas”. Mais cético e sabedor, Winston Churchill, líder da oposição britânica, destoou, declarando que “entre a desonra e a guerra”, Chamberlain escolhera “a desonra” e teria “a guerra”. Tinha razão. Seis meses depois de retalhar parte da Checoslováquia, Hitler marchou sobre o que restava do país, tomando Praga em março de 1939. A Boémia e a Morávia foram anexadas ao III Reich como um protetorado; a Eslováquia ficou independente, mas como um Estado fantoche em relação a Berlim. A Checoslováquia desapareceu do mapa. Seguiu-se, no voraz apetite do Führer, a Polónia, cuja invasão, em setembro de 1939, lançou a Europa e o mundo na Segunda Guerra Mundial.
Em tempo de tensões territoriais e de falcões políticos, o apaziguamento pode ser um vórtice que passa, de facto, pela desonra para acabar na guerra. O atual dossiê da Ucrânia assemelha-se, em muito, ao da martirizada Checoslováquia, o Donbass (e a Crimeia) aos Sudetos, Putin a Hitler, a comunidade internacional ao ingénuo Chamberlain, Zelensky a Benes, Kyiv a Praga… e o Plano de Paz anunciado por Trump ao acordo de Munique. Mesmo com alguma revisão, o provável resultado será retalhar a Ucrânia para tentar apaziguar um insaciável neoimperialista, porque há escassas garantias de que Putin finalmente se aquiete, e inúmeros os precedentes de que não se aquietará na (re)construção do seu «espaço vital» eslavófilo. Mark Twain escreveu um dia que a história não se repete, mas muitas vezes rima. Ora, as eventuais rimas desta história, de um 2025 que ecoa 1938, não parecem nada positivas.