O segundo quartel do século XXI
31 dez, 2025 • José Miguel Sardica
O primeiro quartel do século XXI assistiu a transformações profundas na geoestratégia global, na tecnologia, nas comunicações, nos ambientes políticos e sociais, na agenda climática ou nos cenários demográficos e intergeracionais.
A partir desta quinta-feira, a humanidade que se rege pelo calendário ocidental transitará do primeiro para o segundo quartel do século XXI. Os seus primeiros 25 anos chegaram ao fim; e começam os próximos 25 anos, até 2050. Todos os momentos são úteis para uma retrospetiva e uma prospetiva; a presente passagem não será diferente.
O primeiro quartel do século XXI assistiu a transformações profundas na geoestratégia global, na tecnologia, nas comunicações, nos ambientes políticos e sociais, na agenda climática ou nos cenários demográficos e intergeracionais. Foi um tempo que nasceu em cima da morte do "fim da História", a utopia kantiana demasiado otimista que, depois de 1989-91, servira aos EUA para se deixarem embalar no momento unipolar americano, e aos europeus para se deixarem encantar na ilusão pós-Maastricht de uma “ever closer union”.
Vladimir Putin dava os seus primeiros passos, que ainda não eram de rutura violenta com a ordem internacional; Hu Jintao fazia Pequim parecer um bom aliado do crescimento capitalista ocidental, e ainda não havia BRIC’s hostis ao “nosso” mundo, nem PIGS deletérios da coesão intraeuropeia. Mas houve o 11 de Setembro, que revelou a nova face do terrorismo islâmico, e os sucessivos atoleiros em que os EUA (e não só) se enterraram no Médio Oriente, polarizando a sociedade norte-americana que, permeada pelo "wokismo" intelectual de uma esquerda em busca de causas, abriu a porta ao fenómeno reativo e pró-ativo de Donald Trump.
E do lado de cá do Atlântico, a União Europeia mergulhou numa espiral de problemas interligados: os impasses do federalismo constitucional, a crise das dívidas soberanas, a explosão imigratória, os populismos, o Brexit, a pandemia e a guerra. Tudo o que parecia funcionar bem desde meados da década de 1980 até ao final do século XX (no caso português, do ingresso na CEE ao “fim de festa” da Expo’98), pareceu ter passado a funcionar pior na primeira e, sobretudo, na segunda décadas pós ano 2000.
Como se nos apresenta o mundo no início do segundo quartel do século XXI? 80 anos depois de as lições da Segunda Guerra Mundial terem cimentado uma ordem internacional liberal, democrata, cosmopolita, multilateral, pacífica, balizada por instituições consensuais, como a ONU ou, logo depois, a CEE, o unilateralismo diplomático, o neoimperialismo militarista, as guerras comerciais e tecnológicas, a falência da lei e dos consensos globais, a demolição "woke" e seus (ou outros) cancelamentos culturais, os iliberalismos populistas, a desocidentalização do mundo, as crises climáticas e demográficas – tudo nos empurra para uma visão mais pessimista.
O tempo é de incerteza nas novas (des)ordens do mundo – e como ensinam a psicologia, a cultura ou a política, os seres humanos e as sociedades precisam de algumas convenções consensuais, de um chão comum onde a diferença e a novidade sejam geríveis, fugindo do “gelo fino” da imprevisibilidade, do capricho ou do acidente.
Não haverá, talvez, razões para sermos apocalípticos. A civilização já passou por outros enormes “testes de stress” e sobreviveu para contar e continuar a História. O sobressalto é cíclico, porque são intermitentes as curvas ascendentes e descendentes da espécie humana.
Em 1919, no prefácio das suas "Memórias", o escritor português Raul Brandão escreveu: “A vida antiga tinha raízes, talvez a vida futura as venha a ter. A nossa época é horrível – porque já não cremos e não cremos ainda. O passado desapareceu, de futuro nem alicerces existem. E aqui estamos nós, sem teto, entre ruínas, à espera…”. Eis um retrato desencantadamente realista do espírito do tempo que então caminhava para o segundo quartel do século XX. Cem anos volvidos, serão as palavras de Raul Brandão aplicáveis ao nosso tempo?
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