José Miguel Sardica
Opinião de José Miguel Sardica
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As presidenciais e a nostalgia de 1986

14 jan, 2026 • Opinião de José Miguel Sardica


Os candidatos de então eram, de facto, de outra e muito maior elevação e substância, num país e num tempo também muito diferentes da atualidade.

Tinham passado pouco mais de uma década desde o 25 de abril de 1974, menos de quatro anos desde a revisão constitucional de 1982 e poucos meses desde a assinatura, em junho de 1985, da adesão à CEE quando, no início de 1986, aconteceram as eleições presidenciais destinadas a escolher o sucessor de Ramalho Eanes. Quarenta anos depois, o país está a dias de repetir o gesto. Por simples efeméride ou talvez por algo que requer psicanálise coletiva, têm-se sucedido evocações históricas das presidenciais de 1986 - e todas com um inequívoco sabor saudosista e nostálgico, como uma celebração de um passado que se compraz com a crítica, justa, do presente.

Um podcast do Observador titulou 1986 como «A eleição mais louca de sempre»; e a RTP lançou a minissérie «A Duas Voltas. Mário Soares e as presidenciais de 86». O consenso entre os diferentes entrevistados não deixa dúvidas: os candidatos, as ideias, os debates e as campanhas eram então (muito) melhores do que são hoje, em 2026. Para João Soares e Domingos Amaral, os seus respetivos pais eram “ases” da política e o presente só nos dá, no máximo, “manilhas”. Descontado o amor filial de ambos, os candidatos de então eram, de facto, de outra e muito maior elevação e substância, num país e num tempo também muito diferentes da atualidade. Meio século depois de Abril e quatro décadas depois da Europa, a democracia portuguesa vive hoje óbvias dores de crescimento (e para onde?) ou de meia idade (e de declínio certo?). Nos anos 80, com uma democracia forte das promessas europeias, uma sociedade jovem e otimista e um progresso em plena arrancada, Portugal percorria um tempo de alvorada. Em 2026, angustia-se entre o crepúsculo e as vésperas de algo, nacional e internacional, que ainda não se divisa bem, mesmo que nos indicadores mais importantes esteja melhor do que em 1986 ou em 1974. Acontece que os números não são tudo e as perceções qualitativas também ajudam a definir, positiva ou negativamente, o «zeitgeist».

Mário Soares, Diogo Freitas do Amaral, Francisco Salgado Zenha e Maria de Lourdes Pintasilgo foram os protagonistas da extraordinária eleição de 1986, a única para a presidência que até hoje requereu uma segunda volta. Nesse decisivo round, o fundador do PS e antigo PM derrotou o fundador do CDS e antigo vice-PM por uma escassa margem de 138 mil votos (51,18% vs. 48,82%). A campanha e os debates foram épicos, coloridos, participados, tensos – mas de uma polarização saudável, de alta política, que dividiu o país ao meio, entre toda a esquerda que veio a apoiar Mário Soares na segunda volta e toda a direita que apoiou Freitas do Amaral na primeira e segunda voltas. A política eram os jornais, a televisão, os comícios, os cartazes e as conversas. Hoje, no tempo das redes sociais, dos “posts” e dos “memes” em caldo mais ou menos demagógico, impera muito o tribalismo narcisista ou rasteiro da politiquice.

Em janeiro-fevereiro de 1986, Portugal entrou na Europa a discutir os desígnios nacionais protagonizadas pela craveira senatorial de Soares e de Freitas, ambos indefetíveis pilares do chão-comum da (nossa) democracia liberal. Hoje, digladiam-se não dois (ou quatro, se recordarmos a primeira volta de 1986, com Zenha e Pintasilgo) projetos igualmente fortes, mas oito projetos (na maioria) igualmente fracos, menos definidos pela positiva do que propõem do que pela negativa do que estigmatizam. Em 1986, os finalistas eram muito bons e faziam adivinhar um presidente de alto nível. Em 2026, é patente a distância entre os candidatos que vemos em campanha e o presidente de que Portugal necessitará no Palácio de Belém. A culpa da “queda” é tanto deles como nossa. Esperançoso e dinâmico, o país era, em 1986, mais exigente. Como foi que aceitámos que as “más moedas” fizessem rarear as “boas moedas”?

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  • LAS
    15 jan, 2026 Lisboa 14:19
    Cavalheiro, todas as pessoas têm direito à sua opinião. Mas não compreendo como pode dizer que os candidatos de então eram muito melhores que os de hoje. A campanha de Soares só falava de democracia, liberdade e esquerda democrática. A de Zenha nada falou de tão tarde que chegou. A Pintasilgo não sabia ao que ia e a de Freitas era à base de festas. Nenhum desses candidatos tinha mais pensamento político que Ventura, Cotrim ou Gouveia. E não creio que fossem mais educados. O futuro veio a demonstrar que aqueles candidatos não eram quem diziam ser. A diferença para os dias hoje, é que as pessoas estão fartas de fantasias.