O tempo da força
28 jan, 2026
Um só discurso não faz um grande estadista, mas Mark Carney bem merece o título.
O discurso de Mark Carney, o primeiro-ministro do Canadá, no Fórum Económico de Davos é uma peça oratória destinada a resistir à usura do tempo e à velocidade a que as redes sociais trituram as palavras de ontem (ou de hoje) com os posts destinados ao amanhã. Distante das platitudes inconsequentes de tantos outros líderes ali oradores, e ainda mais da longuíssima arenga, narcisista na forma e caótica no conteúdo, com que Donald Trump castigou os presentes em Davos, Mark Carney foi suavemente assertivo no estilo e muito substancial no conteúdo, combinando uma leitura culta e arguta do mundo com a exposição de uma linha de ação, não só para o seu Canadá natal, mas para todos os outros Estados, regimes, líderes e sociedades que estão a viver o que ele definiu como “a realidade brutal” da “rutura da ordem mundial”.
Tratar-se-á, de facto, de uma “rutura” e não de uma simples “transição”. A velha ordem - a do direito internacional multilateral pós-1945 - não vai voltar e a nostalgia não serve como estratégia. A nova (des)ordem global está aí, com as suas dinâmicas em que os fortes “fazem o que querem”, condenando os fracos “a sofrer o que têm de sofrer”. O (pseudo) direito da força submerge hoje a força (moral e efetiva) do direito - e sem os referir, Carney visou assim a Rússia, a China, os teocratas árabes e, talvez sobretudo, o seu vizinho do Sul, os EUA de Trump. Será uma fatalidade conducente à subordinação (geoestratégica, política, comercial, económica, sociomoral) dos mais pequenos? O PM canadiano acha que não, e por isso citou, numa lição de história, o célebre moto «o poder dos impotentes», com que o checoslovaco Václav Havel alentou os seus compatriotas, na altura esmagados pela “mentira” do comunismo.
Os pequenos, e mesmo as potências médias (como o Canadá), não têm meios para neoimperialismos ou entrincheiramentos egoístas; mas não devem render-se ao multilateralismo ingénuo, que é hoje sabotado pela vontade dos mais poderosos ‘de facto’ (que não ‘de jure’). Os grandes podem agir sozinhos, na sua arbitrariedade e imprevisibilidade; os outros têm de cooperar entre si, defendendo e reunindo recursos, diversificando parcerias sem “parti pris” geográficos, coligando vontades, criando novos espaços económicos, comerciais, até políticos, participando no mundo como ele é, e não ficando na margem ou no muro, a lamentar que ele (já) não seja o que foi. Pura realpolitik descarnada? Não. O Canadá, e mais quem queira, defende uma nova ordem que recobre com pragmatismo princípios de sempre: os direitos humanos, o desenvolvimento sustentável, a solidariedade, a soberania e a integridade territorial dos Estados. Carney chamou a isto “realismo com valores”, porque é da “força dos nossos valores” que virá “o valor da nossa força”, desde logo por “investimentos coletivos em resiliência” que demonstrem a capacidade de resistir às pressões.
Trump (pois claro!) não gostou de ouvir o “amigo Mark”, porque para o espalhafatoso inquilino da Casa Branca, o Canadá, uma (grande) potência média, só existe por obra e graça dos EUA e melhor fora que os integrasse, como 51.º e dócil Estado! A força tranquila de Carney irrita os grandes e expõe, em atitude contrastante, as misérias, sabujices e submissões de outros pequenos líderes - do bom “filhinho” Mark Rutte à destratada Ursula von der Leyen, do impotente António Guterres (Secretário-Geral da ONU) à desonrada Corina Machado (que imolou o seu Nobel da Paz à vaidade do senhor de Washington). Um só discurso não faz um grande estadista, mas Mark Carney bem merece o título. Num tempo de força bruta, por alguns exibida como único argumento, o PM canadiano mostrou ao mundo uma outra força - a da clarividência moral e a da determinação em saber agir no gelo fino em que o mundo se tornou.
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