José Miguel Sardica
Opinião de José Miguel Sardica
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​Leão XIV: (re)humanizar o futuro

03 jun, 2026 • Opinião de José Miguel Sardica


Se desumanizada, a IA desumanizar-nos-á.

O pior que se poderá fazer – mas haverá quem talvez o esteja a fazer – será pedir à inteligência artificial que elabore um resumo ou um comentário à primeira Encíclica do pontificado de Leão XIV, «Magnífica Humanidade», que trata justamente, mas não só, da salvaguarda da pessoa humana na era da IA. Não sei o que faria um computador com o texto papal; mas sei que nenhum conseguiria compreender e explanar o que só um ser humano consegue fazer – em particular se esse ser humano é o Sumo Pontífice, um padre missionário de sólida formação agostiniana, a um tempo teólogo e pastor, pensador profundo e diplomata discreto. Em 2025, a influente revista «Time» escolheu como «Pessoa do Ano» os arquitetos da IA; talvez em 2026 queira fazer o favor – à humanidade, não ao Papa – de eleger Leão XIV para a mesma distinção.

Este desejo não significa que a Santa Sé e a tecnologia são hoje inimigas declaradas, nem que Leão XIV tem de se posicionar como contraponto de “soft power” em relação ao “hard power” das “big tech” que rodeiam Donald Trump, americano como Robert Francis Prevost. No seu tempo, João Paulo II foi um aliado de Ronald Reagan na denúncia (espiritual) das misérias do comunismo. Perante os males do (nosso) mundo, esse eixo já não existe e o inquilino da Casa Branca não gostará do resumo que o seu ChatGPT ou um qualquer assessor elaborará da Encíclica de Leão XIV.

A «Magnífica Humanidade», que não deve ser entendida como um manifesto ludita contra a tecnologia e o alcance da inteligência artificial. 135 anos depois da «Rerum Novarum» de Leão XIII, o Papa oferece agora uma extraordinária reflexão sobre as “coisas novas” que marcam, porque desafiam e ameaçam, o nosso mundo. Qualquer leitor humano ainda estará, e vai continuar, a ler e a compreender a Encíclica. Do que já li, é muito mais do que um alerta contra os perigos de uma IA desumanizada e desumanizadora; trata-se de um extraordinário fresco de muitos outros temas da nossa comum humanidade, entretecidos à luz dos fundamentos e dos princípios da Doutrina Social da Igreja – a rocha sólida sobre a qual se deve edificar a casa comum – refletidos à luz de uma escolha que é humana porque é moral – cairmos na Torre de Babel ou (re)criarmos a Cidade de Deus – e orientados para um presente e um futuro que nos façam permanecer humanos. Como resume o Papa em palavras introdutórias, “na era da inteligência artificial, em que a dignidade humana corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumanização, temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos, salvaguardando com amor essa magnífica humanidade”.

Eis o melhor dos humanos, porque por ele fala a voz de Cristo, a dizer a todos os outros para assim se manterem. E essa humanidade só será salva se em todas as áreas da vida onde a IA pode intervir, ou que estão de alguma forma a ser desafiadas pela sua existência civilizacional – não só a tecnologia, com os seus perigosos horizontes de transumanismo ou de pós-humanismo, mas o indivíduo, a família, os jovens, a escola, a educação, a economia, a comunicação, a política, a diplomacia e a guerra – a nossa atitude for a de exigir a quem inova ou decide nas esferas transnacionais do(s) poder(es) que “sintam” a dignidade e a fragilidade do ser humano e que não artificializem as decisões imersos numa húbris de Ícaros omnipotentes. Se desumanizada, a IA desumanizar-nos-á. E diante de um computador, de um algoritmo, de um drone, de um meio de comunicação ou de uma decisão política, a leitura de Leão XIV pode ser uma lúcida atualização de uma verdade espiritual eterna: quanto mais podemos fazer o que até hoje não imaginávamos ser possível, mais temos de ser chamados ao discernimento humano de saber se devemos fazer tudo o que podemos.

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