José Miguel Sardica
Opinião de José Miguel Sardica
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​Os legados do século XX nas guerras do século XXI

17 jun, 2026 • Opinião de José Miguel Sardica


A Rússia de Putin e os EUA de Trump são as duas encarnações atuais das duas grandes superpotências do século XX, uma a querer recuperar esse estatuto, a outra a não o querer perder.

Quando começou a presente era da incerteza? Na aparência, a mais antiga das guerras que ensombram o nosso mundo – a russo-ucraniana – começou a 24 de fevereiro de 2022; a mais recente – a americano-iraniana, com a subespécie de Israel contra o Hezbollah – teve o seu ensaio geral em junho de 2025 e a sua recente escalada a partir de 28 de fevereiro de 2026. A “operação militar especial” de Putin na Ucrânia já ultrapassou em duração a I Guerra Mundial; o conflito entre Washington e Teerão, por causa do nuclear iraniano e do estreito de Ormuz e envolvendo aliados económicos ou “proxys” terroristas, tem agora um cessar-fogo anunciado, que poderá, ou não, verter-se numa paz mais duradoura dentro de 60 dias, se ninguém o sabotar até lá.

Isto, contudo, é só a micro-história. Em história não há inevitabilidades, mas a espuma dos dias faz muitas vezes perder a noção das possibilidades. Para a Rússia, a invasão “full-scale” da Ucrânia foi apenas a decorrência da política neoimperialista de Vladimir Putin, filha da orfandade da década perdida de Boris Ieltsin e do complexo de cerco com que a retórica do Kremlin malsinou a opção europeísta (NATO e UE) do Leste e de antigas repúblicas da URSS. Putin estreou-se na Chechénia, revelou-se na Geórgia e radicalizou-se na Crimeia, em 2014, e na guerra híbrida que lavrou no Donbass desde então até 2022. Não é um novo Estaline, nostálgico do comunismo e da URSS; pretenderá mais ser um novo czar, cioso de um qualquer “espaço vital” eslavófilo, que simplesmente não aceita que os povos que os russos um dia vassalaram possam livremente decidir o seu futuro, e que procura, desde há duas décadas, senão mesmo desde que chegou ao poder, em 1999, superar o profundo vazio político, identitário e geoestratégico que foi o trauma da Rússia pós-soviética a partir de 1991.

A possibilidade de os EUA colidirem quase “full-scale” com o Irão também não nasceu há um ano. Estava escrita no plano das possibilidades e teve já vários afloramentos desde a revolução iraniana de 1979 até ontem à tarde – com Israel, que a agrava, ou sem Israel, que não a apaga. Houve logo a crise dos reféns, em 1979-81, seguida da guerra dos petroleiros e da aposta de Reagan em Saddam para conter Khomeini, nos anos 80. O fim da guerra fria pode ter dado aos EUA a ilusão triunfalista do unilateralismo. Mas o 11 de Setembro de 2001, apesar de perpetrado pela Al-Qaeda, logo levou George Bush a definir o Irão como o pivô maior do «Eixo do Mal». E o regresso americano ao Médio Oriente – Afeganistão, Iraque e proxys – nunca fez Washington perder de vista que a cabeça do polvo da ameaça islâmica contra o amigo israelita, e xiita contra os aliados locais dos EUA, era (e é) Teerão. Foi em 2025-26; podia ter sido (e já foi) antes. A amizade particularmente belicosa entre Trump e Netanyahu apressou as coisas; mas as coisas têm uma raiz muito mais profunda.

A Rússia de Putin e os EUA de Trump são as duas encarnações atuais das duas grandes superpotências do século XX, uma a querer recuperar esse estatuto, a outra a não o querer perder. Putin não aceita que a Ucrânia se possa europeizar; e Trump está convencido de que a subsistência do Irão implicará a secundarização americana no Médio Oriente e no mundo. Em ambos os casos, a superioridade militar não se traduz em vitória estratégica e política, e oxalá se traduzisse, a bem da Ucrânia na Europa e contra o terrorismo no Médio Oriente. E enquanto a ex-superpotência vilã da história e a grande superpotência heroína da história se arrastam em impasses militares, económicos ou diplomáticos, a China, humilhada até Mao Tsé-Tung e aspirante a grande potência a partir de Deng Xiaoping – lá atrás, na história do século XX – vai tecendo de forma metódica o seu novo lugar de superpotência no século XXI.

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