Luís António Santos
Opinião de Luís António Santos
A+ / A-

Debate da Rádio

​Sem barafunda percebemos melhor o que dizem as pessoas

02 jan, 2026 • Opinião de Luís António Santos


O mérito de uma conversa em que há perguntas claras e tempo para lhes responder é que também percebemos melhor as diferenças reais entre candidaturas. Foi um bom exemplo de que há alternativa, não apenas entre propostas de Política, mas sobretudo à forma como a tornamos presente e relevante nas nossas vidas.

Veja também:


O que faz deste debate nas rádios o mais interessante e o mais revelador de toda a campanha até aqui poderá ser, curiosamente, aquilo que – na lógica acelerada dos ciclos informativos em que hoje vivemos – o levará a ser apresentado como ‘sem sumo’.

Tivemos muito poucos atritos a escalar sem destino (a vulgar barafunda) e tivemos muito menos iniciativas para subverter o planeamento de quem conduzia a conversa e/ou para impedir a escuta do pensamento de cada interveniente. Esvaziou-se assim, em grande medida, por mérito do formato e dos entrevistadores ou por recuo estratégico dos agentes políticos (as equipas de apoio estarão já quase todas na fase ‘vê lá se não perdes a postura institucional / olha que um(a) PR tem que ser fiável’), o potencial para muitos momentos daqueles que, nas horas seguintes, alimentam debates infindáveis nas TV’s de ciclo contínuo ou a para a promoção de publicações com grande impacto nas redes sociais. Perdeu-se ainda espaço de manobra para as vulgares, mas tão redutoras avaliações com notas a cada candidato(a), sendo honestamente difícil responder às perguntas: ‘quem ganhou / quem perdeu?’.

Nada disto – fugas ao cada vez mais habitual – é negativo, no meu entender, porque a hegemonia de formatos promovendo o confronto, o choque, a altercação não ajuda no esclarecimento e não presta, desse ponto de vista, serviço público à Democracia.
O que foi, então, possível perceber em duas horas de discussão com menos ruído?

Percebeu-se, desde muito cedo, que em áreas relevantes da atuação de um Presidente da República – seja por intervenção direta seja por gestão de influência – há mais consenso (nalguns casos até unanimidade, como salientou a dada altura, António José Seguro) do que se poderia imaginar.

Isso foi visível na censura à atuação do atual presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, pela forma como interferiu na dinâmica entre Governo e Parlamento a propósito da aprovação de Orçamentos de Estado, na questão dos mandatos presidenciais ou até, em larga medida, em questões como a necessidade de implementar regulamentação para o lobbying ou de haver uma gestão prudente e enquadrada de qualquer presença militar nacional num dispositivo de manutenção de paz na Ucrânia.

Percebeu-se também que os candidatos à Esquerda não terão fechado ainda em definitivo a possibilidade de entendimentos, que Gouveia e Melo se sente muito mais confortável com temas nos quais tem experiência (Ucrânia, Base das Lajes) e que Cotrim de Figueiredo navega com maior despreocupação do que todos os outros uma onda otimista que as sondagens lhe parecem dar.

O mérito de uma conversa em que há perguntas claras e tempo para lhes responder é que também percebemos melhor as diferenças reais entre candidaturas (e não as exageradas por discurso hiperbólico de campanha). António Filipe, Catarina Martins e Jorge Pinto demarcam-se afirmando a necessidade de posicionamentos mais interventivos em aspetos ligados a questões sociais (das quais, curiosamente, muito pouco se falou neste debate); Marques Mendes assume, de forma cada vez mais explícita, o perfil de parceiro do atual Governo; António José Seguro não larga o lugar de defensor dos poderes que a Constituição confere ao cargo e da centralidade do diálogo; Cotrim de Figueiredo insiste na sua independência; Gouveia e Melo não abandona a estratégia de levantar dúvidas sobre a probidade de Marques Mendes; André Ventura apresenta-se como o mais determinado em alterar o equilíbrio de forças entre a Presidência, o Governo e o Parlamento.

Teremos ainda um debate final entre todos os candidatos confirmados e é natural que o enquadramento possa ser diferente, mas valeria a pena usar este como referência. Foi um bom exemplo de que há alternativa, não apenas entre propostas de Política, mas sobretudo à forma como a tornamos presente e relevante nas nossas vidas.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.