Luís António Santos
Opinião de Luís António Santos
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08 jan, 2026 • Opinião de Luís António Santos


Em momento de renovação de ciclo, a campanha para as eleições presidenciais não conseguiu ainda mobilizar como outras anteriores.

A primeira semana de campanha eleitoral oficial ficou marcada por desenvolvimentos em duas áreas que lhe são externas – a ação militar dos Estados Unidos na Venezuela e a profunda crise na Saúde.

Se a situação na Venezuela se prestou a um alinhamento dos candidatos consoante a sua maior ou menor sensibilidade à legitimidade do exercício unilateral da força ou ao respeito pela Lei e pelos tratados nas Relações Internacionais (com apenas um candidato a adotar a postura mais radical – ‘foi assim e devia ter sido pior’), na Saúde percebeu-se mais unanimidade na crítica à falta de ação do atual governo e até à sua absoluta ausência do espaço público, com Marques Mendes a ser – por razões óbvias – o único a não escolher esse caminho.

Em combinação, estas duas inevitabilidades, subverteram agendas pré-estabelecidas e terão desviado parcialmente as candidaturas do que teriam planeado. Quem viu o último debate televisivo, entre todos os que se apresentam a sufrágio, terá percebido algumas tendências nas mensagens individuais que não puderam crescer como antecipariam as candidaturas. Percebeu-se, por exemplo, que Gouveia e Melo terá despido de vez a farda de homem prudente e experiente, trocando-a por um camuflado de guerrilheiro, focado em acentuar o ataque a Marques Mendes e a António José Seguro. Percebeu-se ainda melhor que a Esquerda se esqueceu de ter conversas prévias relevantes – com Jorge Pinto a deixar cair uma frase complicada: ‘ não é por mim que António José Seguro não é Presidente’ -, que André Ventura quis também entrar no jogo ‘Eu é que sou o herdeiro’ e que Cotrim de Figueiredo, surpreendido com as suas possibilidades, descobriu os encantos do populismo e desfez-se em mensagens de compatibilidade com toda a gente e o seu gato – em menos de 24 horas falou de Sá Carneiro, de Cavaco Silva e de Passos Coelho. Percebeu-se, por último, que António José Seguro evitou confrontos, evitou polémicas, evitou tudo o que pudesse trazer-lhe qualquer dano e que isso, curiosamente, o estará a beneficiar.

As candidaturas navegaram, portanto, não apenas ao ritmo das suas intenções, mas sobretudo acompanhando as exigências de um fluxo informativo contínuo atento a temas distantes das eleições. Nesse sentido, o aparecimento em força das sondagens (e das muito discutíveis ‘tracking polls’), permitiu manter aceso o interesse de alguns eleitores. A aparente cambalhota nas hipóteses de passagem de Seguro à segunda volta (e a igualmente aparente perda de terreno de Marques Mendes) introduziu a única dose de tempero novo, sendo que – como sempre acontece quando se permitem sondagens em período de campanha – o apertado enquadramento da fórmula ‘quem sobe / quem desce’ restringe ainda mais o campo de manobra para a semana determinante que se avizinha.

Em momento de renovação de ciclo, a campanha para as eleições presidenciais não conseguiu ainda mobilizar como outras anteriores. Talvez isso aconteça por falhas das candidaturas e talvez isso aconteça por desmotivação mais continuada do eleitorado; se calhar, como diria o candidato Manuel João Vieira, mais de nós querem é um ‘Botão Resolver’ para tudo o que é complicado na vida. Mas todos sabemos que isso não existe.

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