Luís António Santos
Opinião de Luís António Santos
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Opinião

O país político mudou e as Presidenciais são só mais um sinal

15 jan, 2026 • Opinião de Luís António Santos


André Ventura – talvez o mais sereno André Ventura que já vimos – navegou à vista, com aparições em contextos populares e confiante no apoio fiel dos eleitores do seu partido.

É sempre expectável que a última semana de uma campanha eleitoral seja mais carregada de emoção, com mais excessos de linguagem e com mais exageros sobre os riscos de uma ou outra solução. Mas não se esperaria – sobretudo depois de um arranque morno e permeável a eventos externos – que esta reta final fosse tão distinta. Parte do dramatismo, é certo, criou-se artificialmente com umas coisas que parecem sondagens, mas às quais não se pode chamar sondagens, mas que são discutidas como se fossem sondagens, apesar de toda a gente saber que não são sondagens e que servem, precisamente, propósitos muito mais de entretenimento do que informativos. Acrescentam, sobretudo, ruído, e foi isso que fizeram nesta semana – deram-nos uma espécie de ‘música de fundo’ sobre a qual tudo o resto aconteceu.

Mas o resto foi, apesar de tudo, significativo e – talvez – esclarecedor. O compromisso de destruição mútua assegurada entre Gouveia e Melo e Marques Mendes terá sido amaciado, com ambos a fazer apelos a eleitorados mais amplos, mas nenhum se livrou dos efeitos da batalha. O primeiro agregou o apoio declarado de militantes relevantes do PSD (alguns, ex-ministros) e o segundo selou a proximidade ao atual governo com o envolvimento direto do apoiante Luís Montenegro, mas nenhum se livrou realmente de uma imagem de queda.

André Ventura – talvez o mais sereno André Ventura que já vimos – navegou à vista, com aparições em contextos populares e confiante no apoio fiel dos eleitores do seu partido. Agora, como noutros momentos, sabendo que a mensagem simples, contrastante e sem contraditório (seja verdadeira ou falsa) é a mais eficiente nestes tempos de fluxo informativo acelerado e contínuo.

Os candidatos da Esquerda persistiram em caminhos individuais e com apelo popular limitado e António José Seguro sentiu a confiança para se apropriar de expressões das campanhas vencedoras de Mário Soares – ‘Presidente de todos os portugueses’, por exemplo.

O pivot da semana foi Cotrim de Figueiredo, com a sua dupla declaração não afastando uma possibilidade de apoio a Ventura numa segunda volta, ao mesmo tempo que se desdobrava em apelos ao primeiro-ministro pelo voto útil do PSD e iniciava, de forma atabalhoada, um caminho de defesa contra uma acusação de assédio sexual. Se fosse preciso, desde já, escolher o percurso eleitoral com mais altos e baixos desta campanha, seria o do ex-líder da IL.

O que sobrará deste período intenso, para além da escolha das duas pessoas que vão à segunda volta?

Por um lado, a ideia de que a confirmada perda de relevância da Esquerda não está ainda assimilada e resolvida e de que a Direita aprofunda agora, também ela, um caminho de fragmentação. O sistema político tal qual o conhecemos durante as ultimas décadas está, à semelhança do que aconteceu noutros países europeus, em profunda e decisiva mudança, sendo cada vez mais natural prever o surgimento de novas forças políticas e a quebra continuada de apoio às duas que, à vez, nos trouxeram até aqui.

Por outro lado, a sensação de que esta campanha eleitoral saltitou, em termos temáticos, entre pronunciamentos ad-hoc sobre politica internacional e sobre questões de governação, como a Saúde, deixando completamente de lado preocupações que se enquadrariam mais com as funções presidenciais – o posicionamento estratégico do país (a que NATO pertencemos? Que UE queremos?), a preocupante caminhada para a centralização das atividades do Estado (de que as recentes ‘eleições’ para as CCDR foram um deplorável exemplo), ou a ativação da participação cidadã em processos de regeneração da atividade política em democracia.

Fica para a próxima, não é?

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