19 jan, 2026
O sonoro quinto lugar de Marques Mendes na primeira volta das eleições presidenciais é mais do que uma derrota pessoal do candidato ou até de um perfil específico de agente político. É, também, a sirene que assinala um importante momento na vida do PSD que, recorde-se, foi elemento central da escolha do chefe de Estado no país nos últimos 20 anos.
Na sua declaração da noite, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, disse duas coisas relevantes neste enquadramento: o PSD não estará presente na luta eleitoral que se segue e o PSD escolhe (sem que os órgãos do partido tenham sequer sido consultados) não sinalizar voto preferencial em nenhum dos dois candidatos.
O líder de um governo minoritário, que precisa de negociar a sua continuidade através de uma instável geometria de pactos (ora com o Chega, ora com o PS) preferiu, portanto, passar a ilusão de que se mantém em cima de um muro cada vez mais estreito, na presunção de que isso lhe garante o futuro imediato.
O que fez, porém, foi dar o maior e mais rápido passo de sempre no sentido de hipotecar a própria existência do PSD enquanto partido central do sistema. Esta retirada de cena voluntária - uma decisão que será, certamente, estudada em detalhe por historiadores daqui a uns anos - abriu caminho a uma declaração de ‘vitória’ de André Ventura que arrancou, precisamente, com referências à derrota social-democrata e que culminou na expressão ‘liderança da Direita’. De uma assentada, Luís Montenegro, acossado na sua sobrevivência política imediata, cede o Centrão a António José Seguro e ao que quer que venha a ser o PS em reformulação interna e cede a Direita a duas forças que estão a conseguir estabilizar eleitorados de forma eficiente - o Chega e a IL.
Escrevi há dias, aqui mesmo neste espaço, que o país político estava a mudar e que as presidenciais nos dariam sinais desse processo; confesso que não esperava que parte delas resultassem de uma assumida saída de campo da liderança do PSD.
Diz-nos a investigação em Ciência Política sobre o crescimento das opções mais radicais de Direita na Europa que resulta, também, de uma captura da agenda temática dos chamados partidos do sistema; seduzidos pelo apelo de mensagens simplistas sobre temas que tradicionalmente não são os seus - a Segurança e a Imigração, por exemplo - apresentam-se com propostas que pouco diferem das dos partidos extremistas na esperança de que esse seja o caminho da sobrevivência. Não é. Nunca é. Os exemplos abundam de que, nessas circunstâncias, o eleitorado prefere sempre a mensagem original à cópia.
É natural que, nas próximas semanas, setores e militantes mais ou menos proeminentes do PSD indiquem um posicionamento claro sobre a segunda volta das presidenciais. Mas a ferida profunda que a decisão de Luís Montenegro abriu não cicatriza depressa. Talvez não cicatrize mais.