Luís António Santos
A campanha foi com o vento?
30 jan, 2026
A habituação de parte significativa do eleitorado à ideia de que André Ventura lidera a Direita e de que, nalgumas condições, pode ser opção viável de voto implicará um encolhimento do território do PSD, muito para lá do tempo de vida do atual Governo.
A tempestade Kristin virou de pernas para o ar a campanha presidencial nesta primeira semana da segunda volta e – mesmo pisando com cuidado a linha do aproveitamento político – ambos os candidatos mostraram ser mais ágeis a reagir do que os responsáveis do Governo (durante mais de 30 horas todos fomos convocados a recordar, por comparação, o episódio recente de um primeiro-ministro que não alterou os seus planos de férias no momento em que o país vivia uma vaga de incêndios).
Poderá dizer-se que essa determinação dos candidatos os apresenta aos respetivos eleitorados como agentes com iniciativa e que isso os tenta – e bem – manter presentes nas preocupações do dia-a-dia. Mas poderá igualmente admitir-se – e também, infelizmente, com propriedade – que para um número substancial de cidadãos nacionais as eleições presidenciais entraram definitivamente na caixa "temas que estão lá, mas não são prioritários".
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Esta semana juntaram-se ao grupo de ilustres apoiantes de António José Seguro um ex-candidato, Gouveia e Melo, o seu mandatário e ex-líder do PSD, Rui Rio, e um ex-presidente da República, Ramalho Eanes.
Para Ventura – que, como se previa – assumiu já de forma total o "nós contra eles" em formato "o Povo contra as Elites", estes apoios ao adversário são já processados apenas como prova de precisão da estratégia – o homem que está "no caminho certo", como dizem os mais recentes cartazes.
Tivemos, portanto, um desenrolar sereno e previsível que continua a servir, sobretudo, os interesses de quem mais pode ganhar se os votantes forem menos; de quem mais pode ganhar se essa abstenção for mais forte numas gerações do que noutras e maior entre as mulheres do que entre os homens.
O ritmo pachorrento dos percursos dos candidatos, combinado com o impacto devastador da tempestade e o impacto cumulativo de previsões sobre o estado do tempo para os próximos dias pode, de facto, desalinhar muita gente da intenção de votar no dia 8 de fevereiro, tanto mais que as sondagens continuam a dar conta de um resultado final previsível.
A quase ausência de risco e a falta de emoção poderão promover uma desmobilização dos que tencionariam votar num mal menor. Mas, ao contrário do que se possa pensar à primeira vista, um cenário de aumento da abstenção terá consequências, algumas delas muito significativas para o campo político da Direita.
A habituação de parte significativa do eleitorado à ideia de que André Ventura lidera a Direita e de que, nalgumas condições, pode ser opção viável de voto implicará um encolhimento do território do PSD, muito para lá do tempo de vida do atual Governo.
E, como sabemos, uma vez normalizados comportamentos, eles passam a acontecer sem sequer os questionarmos.
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