02 fev, 2026 • Luís António Santos
À entrada para a última semana de campanha eleitoral tudo parece estar já resolvido. Sabemos quem, como toda a probabilidade, deverá vencer, sabemos que um dos candidatos abdicou em definitivo do papel, assumindo-se como o que nunca deixou de ser – líder partidário – e sabemos que o próximo chefe de Estado vai precisar de saber interpretar bem a onda de indignação generalizada com a prestação de um governo que, perante uma crise de enormes proporções, demonstrou (uma vez mais) a fragilidade dos ocupantes de algumas pastas e o inenarrável auto-centramento de outros.
Já segue a Informação da Renascença no WhatsApp? É só clicar aqui
Perante estas certezas, a campanha é talvez a mais incomum das últimas décadas. O candidato indicado como favorito pelas sondagens, António José Seguro, pôs de lado o objetivo de ter mais de 2,5 milhões de votos e pede agora (apenas) uma votação expressiva; o que diz nos comícios, na rua e noutros momentos de campanha gira em torno da palavra ‘mobilização’, mas é difícil perceber isso concretizado no terreno.
Fala sempre em tom conciliatório e não responde quase nunca a perguntas e provocações do seu adversário. Vai – é certo – continuando a recolher apoios de peso, nomeadamente na área política do PSD, mas isso faz pouco mais do que confirmar o que parece óbvio.
Por seu turno, André Ventura, estará a fazer, também ele, uma campanha bizarra, porque precisou de oscilar entre discursos antes de assentar no papel de ‘líder da oposição’, depois de ter percebido que Seguro não iria jogar o seu jogo.
Andou perdido durante uns dias, avaliou mal a reação popular perante o episódio das ‘garrafinhas de água’, mas desistiu finalmente das eleições presidenciais e focou-se em usar o tempo de exposição mediática (e as ‘entrevistas exclusivas’ que continuam a acontecer a um ritmo quase diário nos canais de Informação televisiva em ciclo contínuo) para, enquanto líder partidário, reforçar a ‘persona’ que tem mais bem trabalhada.
O fim de semana ainda vem longe e não se antecipam grandes novidades até lá. O desafio, agora, será o de perceber o efeito destas eleições no equilíbrio do sistema político e no exercício da própria presidência.
Haverá, por um lado, um PS em processo de reconstrução, tentado a navegar próximo da legitimidade do novo Presidente da República e haverá, por outro lado, a anunciada recomposição de forças à Direita, com dúvidas sobre o posicionamento relativo da IL e sobre a articulação com o novo projeto de Cotrim de Figueiredo e a presença de um Chega simbolicamente reforçado.
Se pensarmos, também, na dimensão de gestão de política internacional associada à figura do chefe de Estado e nos ‘mares pouco navegados’ que temos pela frente nessa área facilmente concluímos que o novo ciclo que agora se abre será especialmente movediço.
O novo Presidente da República terá, do seu lado, a legitimidade do voto popular, mas não terá muito mais do que isso. Dadas as circunstâncias internas e externas, o habitual ‘estado de graça’ deverá ser efémero. Vamos, muito depressa, começar a perceber o que realmente vale.