Aqui ninguém é parvo
10 jun, 2026
Foram as eleições no Real Madrid que tornaram o silêncio do presidente do Benfica ensurdecedor, mas não creio que Rui Costa pudesse fazer muito mais do que fez.
Está consumada (finalmente) a saída de José Mourinho do Benfica, confirmando o que ele próprio dissera após a última jornada do campeonato: "Aqui ninguém é parvo", declarou. Especialista em jogar com as palavras, Mourinho teve, no mesmo momento, o desplante de afirmar que havia 99 por cento de probabilidades de permanecer no Benfica, sabendo que tal não iria acontecer, porque, como era do seu conhecimento, Jorge Mendes já estava a tratar do seu regresso ao Real Madrid.
Aqui ninguém é parvo. Incluo nesta lógica Rui Costa, que fez o que tinha a fazer, ao avançar com uma proposta de renovação, ciente de que José Mourinho não trocaria um regresso ao Santiago Bernabéu e a uma das maiores ligas do mundo, pela continuidade no Benfica. O clube é grande, o estádio também, mas a liga é pequena. Se juntarmos a este fator a ausência do Benfica da Liga dos Campeões - para a qual próprio Mourinho contribuiu - percebe-se e aceita-se a sua escolha. Não creio que José Mourinho seguisse outro caminho, ainda que tivesse renovado mais cedo pelo Benfica; a sua decisão é lógica e legítima.
O mesmo não se pode dizer da novela em que tudo isto se transformou. Acredita que, de forma consciente, presidente e treinador do Benfica tenham estabelecido um pacto de não agressão ou de silêncio, até que a saída se consumasse, mas a imagem que transpareceu foi a de um José Mourinho a assobiar para o lado, perante um Rui Costa impotente para correr com ele do Benfica para fora (em boa verdade, nem uma atitude destas casaria com a forma de Rui Costa estar no futebol, nem os sócios entenderiam porque iria o seu presidente entregar, de mão beijada, 7 milhões de euros, a um funcionário que desejava sair pelo seu próprio pé).
Foram as eleições no Real Madrid que tornaram o silêncio do presidente do Benfica ensurdecedor, mas não creio que Rui Costa pudesse fazer muito mais do que fez: defender os interesses financeiros do clube e encontrar um treinador com um capital de competência capaz de, no universo encarnado, tornar a escolha inquestionável.
Com José Mourinho (que nunca foi consensual) não correu bem.
A Marco Silva ( que parece reunir consenso) não basta fazer melhor. O novo treinador do Benfica, que de parvo também não tem nada, sabe que o espera um clube onde ser segundo ou ser último é basicamente o mesmo, e onde,por detrás do desejo de vencer, se escondem facas afiadas, prontas a ser usadas assim que surja o primeiro insucesso.
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