Olhá Bola, Maria
Carolina Mendes, a lesão grave e o fim da carreira. "Passou-me muitas vezes pela cabeça"
20 mar, 2026 • Inês Braga Sampaio
Uma rotura do ligamento cruzado anterior do joelho direito tirou Carolina Mendes do Euro 2025, a duas semanas do arranque. Em entrevista ao "Olhá Bola Maria", o podcast de futebol feminino da Renascença, a avançada fala da recuperação, admite que pensou em terminar a carreira e olha mais para a frente, para um futuro sem bola no pé.
O fim da carreira "passou muitas vezes pela cabeça" a Carolina Mendes, mesmo antes de se lesionar gravemente, uma só dúzia de dias antes do arranque do Euro 2025. A paixão pelo futebol ganhou sempre. Agora, a avançada, de 38 anos, está focada em recuperar. O resto logo se vê.
"Passou-me muitas vezes [pela cabeça] e o curioso é que passou muitas vezes até antes da lesão. Mas eu sempre tive um prazer imenso em jogar futebol, sempre me senti super feliz dentro de campo. Agora, claro, quando nos acontece uma lesão deste tamanho, questionamos muitas coisas: 'será que vou voltar, será que...' Mas é muito o dia-a-dia. Posso nem querer jogar daqui a nove meses, como posso querer continuar a jogar", assume a internacional portuguesa, em entrevista ao "Olhá Bola, Maria", no Portugal Football Summit, uma iniciativa da Federação Portuguesa de Futebol.
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No podcast de futebol feminino da Renascença, Carolina Mendes assume que sofrer uma rotura do ligamento cruzado anterior mesmo antes do Europeu "foi talvez um dos momentos mais duros" da carreira. O processo de recuperação é "bastante difícil e complexo, porque não é só o joelho".
"Eu tenho a ajuda de um psicólogo. Nós devemos procurar ajuda, não nos devemos esconder, não nos devemos isolar. O que eu aconselho é que as pessoas procurem ajuda, porque há pessoas especializadas nestas áreas e acompanham os atletas, sobretudo nestas fases. Também tenho um nutricionista a acompanhar-me. São coisas que é tudo muito normal e é um bocado por aí, é procurar o máximo de ferramentas e de ajudas, para podermos voltar da melhor maneira possível", sublinha a jogadora.
Experiências que inspiraram mudança
Num olhar sobre a carreira, que começou em 2007/08 e passou por grandes clubes, como o extinto 1.º Dezembro, o Sporting e o Braga, e cinco países diferentes — Espanha, Itália, Rússia, Suécia e Islândia —, Carolina Mendes recorda a experiência que mais a surpreendeu.
"Quando fui para Moscovo [no Rossiyanka], não estava nada à espera. As condições eram espetaculares. Tínhamos um estádio só para nós, tínhamos um campo de treinos só para nós. Eles estavam muito mais à frente do que nós", assinala a internacional portuguesa.
Já a passagem pelo futebol nórdico motivou-a a lutar pelo futebol feminino em Portugal: "Elas eram super focadas, super profissionais. Mesmo o papel da mulher na sociedade não eram tão discriminadas como nós. As coisas já mudaram muito, mas naquela altura sentia-se mesmo muito mais essas distâncias. E isso também me fez querer lutar pelo futebol feminino e fazer parte desta mudança, porque realmente que isso era possível."
"Sou uma avó bem conservada"
Carolina Mendes faz parte da geração de futebolistas portuguesas que se apurou pela primeira vez para um Europeu, em 2017, e depois para um Mundial, em 2023. Foi campeã nacional, venceu a Taça de Portugal e ainda a Taça da Liga. Aos 38 anos, e com uma carreira que a orgulha, a lesão dá-lhe tempo para pensar sobre o futuro após pendurar as botas.
"Gostava de estar no futebol feminino, gostava de dar continuidade ao crescimento do futebol feminino. Fazer parte noutras funções. Ainda não sei [se dentro ou fora do relvado], também ainda não sei para o que é que vou ter aptidão. É uma questão também de uma procura interior e perceber aquilo que me vai dar prazer", reconhece.
Voltar à seleção, pós lesão, é um sonho que Carolina Mendes não esconde, embora seja realista. Impor metas "não seria bom" e, antes de mais, tem de perceber em que condições físicas estará no fim da recuperação.
Ainda assim, suspira com o ambiente que ajudou a criar. A avançada tenta ajudar as mais novas, como a geração anterior à sua a ajudou quando se estreou na seleção. O impacto na nova geração é tal que há, até, quem lhe chame "avó". Uma alcunha que Carolina acolhe com um sorriso.
"Há várias jogadoras que já me chamam avó. Acho que até sou uma avó bem conservada", acrescenta, com um sorriso. Contudo, deixa também um aviso a quem começou a moda: "Qualquer dia, vai ser a Kika a avó."
Pode ouvir a entrevista completa a Carolina Mendes em todas as plataformas de podcast e no site da Renascença. Há um novo episódio do podcast "Olhá Bola, Maria" todas as terceiras sextas-feiras do mês.








