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Natal. Preservar tradições como a Missa do Parto

12 dez, 2025 • Ana Isabel de Castro Neves • Opinião de Opinião


Quanto maior é a interligação do mundo, maior se torna a importância de protegermos as nossas raízes culturais — aquelas que nos distinguem, nos dão memória e nos unem enquanto povo.

Entre avanços, ruídos e incertezas, é cada vez mais fácil perdermos o contacto com as referências que moldaram a nossa identidade. Paradoxalmente, quanto maior é a interligação do mundo, maior se torna a importância de protegermos as nossas raízes culturais - aquelas que nos distinguem, nos dão memória e nos unem enquanto povo.

A Missa do Parto é um desses tesouros culturais. Uma das mais belas e antigas tradições do povo madeirense regressa à paróquia da Divina Misericórdia em Alfragide dia 13 Dezembro (sábado), às 6:30, mantendo viva uma herança espiritual e cultural secular.

Originária dos séculos XV e XVI, profundamente ligada ao quotidiano das comunidades rurais, ultrapassa hoje o seu significado religioso para se afirmar como um património imaterial que continua a unir gerações. É um ritual que reúne música tradicional, convívio, gastronomia, espiritualidade, fraternidade e a alegria que caracteriza tão profundamente o povo das ilhas.

Tradicionalmente realizada antes do nascer do sol - quando o trabalho no campo exigia madrugar – a Missa do Parto integra uma novena dedicada à Virgem Maria e simboliza a esperança, a expectativa do nascimento de Jesus e o desejo de bênçãos para o novo ano.

Em Alfragide, celebra-se uma única Missa, cuidadosamente preservada na sua estrutura original: cânticos próprios, ornamentação típica com bordado madeira, os tecidos tradicionais do arquipélago, a lapinha as searinhas e a fruta da época, terminando em procissão para o adro, entoando o cântico “ Virgem do Parto, ó Maria”, em ambiente festivo. Após a celebração segue-se um momento de convívio aberto à comunidade, com gastronomia típica da ilha, música inspirada nas suas tradições. Como é habitual nas ilhas, convidamos todos a trazer algo para partilhar — um pequeno contributo simbólico que enriquece a mesa comum e perpetua o espírito de fraternidade, solidariedade e alegria que torna a Missa do Parto tão especial.

Sou natural do Porto Santo e crescer numa ilha pequena mas culturalmente imensa ensinou-me que proteger as tradições não é um gesto de nostalgia, mas um compromisso com o futuro. Para se olhar verdadeiramente para o futuro é essencial reconhecer o valor do passado. Celebrar a Missa do Parto no continente português, em Alfragide, é um ato simbólico e precioso e um contributo para o fortalecimento da diáspora. Esta celebração anual, é um momento de encontro, partilha e convívio — aberto a todos: madeirenses, portossantenses, continentais e a todos os que se deixam tocar pela autenticidade desta tradição.

Que este evento continue a ser um cartão-de-visita da região. Quem vive esta celebração sente o pulsar da cultura madeirense — um aperitivo do que poderão encontrar no Arquipélago neste período mágico, reconhecido mundialmente pelo seu património, a sua paisagem e a sua festividade.

Agradeço de forma muito especial a todos os que têm mantido viva esta tradição, iniciada em Lisboa pelo saudoso padre Nélio Tomás, e a todos os que com generosidade e dedicação contribuem para que esta celebração cresça e se afirme, anos após ano.

Honrar o passado, viver o presente e fortalecer a identidade que nos une — é isso que levamos connosco quando acendemos a luz desta tradição tão nossa e tão universal.

Que o espírito desta celebração – feito de fé, encontro e partilha – nos inspire a viver de forma mais próxima e fraterna.

*Ana Castro Neves é médica, natural de Porto Santo e membro da organização da Missa do Parto
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