Pedro Vaz Patto
Opinião de Pedro Vaz Patto
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Blasfémia

05 jan, 2026 • Opinião de Pedro Vaz Patto


Será, pois, uma blasfémia que obscurece o “Santo Nome de Deus” invocar a identidade cristã das culturas portuguesa, europeia ou ocidental como justificação da hostilidade ao estrangeiro que não comunga dessa cultura.

De acordo com o catecismo da Igreja Católica (n. 2148), a blasfémia é um pecado contra o segundo mandamento (“Não usar o Santo Nome de Deus em vão”), uma falta grave contra o respeito devido a Deus. É blasfémia a invocação de Deus para justificar práticas criminosas ou moralmente condenáveis

A recente mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz condena deste modo algumas formas de blasfémia que se praticam no mundo de hoje:

«As grandes tradições espirituais, assim como o reto uso da razão, fazem-nos ir além dos laços de sangue e étnicos, ou daquelas fraternidades que reconhecem apenas quem é semelhante e rejeitam quem é diferente. Hoje vemos como isso não é óbvio. Infelizmente, faz parte do panorama contemporâneo, cada vez mais, arrastar as palavras da fé para o embate político, abençoar o nacionalismo e justificar religiosamente a violência e a luta armada. Os fiéis devem refutar ativamente, antes de tudo com a sua vida, estas formas de blasfémia que obscurecem o Santo Nome de Deus».

Facilmente associamos esta condenação à tentativa de justificar religiosamente a agressão da Rússia à Ucrânia (tida como “guerra santa”) que vem sendo proclamada pelo Patriarcado de Moscovo, uma tentativa firmemente rejeitada por outros expoentes das Igrejas ortodoxas, mesmo as que estão ligadas a esse Patriarcado (assim, as da Europa ocidental).

Mas nesse excerto da mensagem do Papa também se qualifica como blasfema a pretensa “bênção” daqueles nacionalismos que poderemos denominar como “nacionalismos de exclusão”, que «reconhecem apenas quem é semelhante e rejeitam quem é diferente», quando as «grandes tradições espirituais, assim como o reto uso da razão» nos fazem «ir além dos laços de sangue e étnicos». Entre essas «grandes tradições espirituais» conta-se certamente a mensagem cristã de amor universal que não faz aceção de pessoas.

Será, pois, uma blasfémia que obscurece o “Santo Nome de Deus” invocar a identidade cristã das culturas portuguesa, europeia ou ocidental como justificação da hostilidade ao estrangeiro que não comunga dessa cultura. Uma hostilidade que pode traduzir-se em ofensas, discriminações ou barreiras à legítima pretensão de, através da imigração, superar a pobreza material.

O objetivo de preservar a matriz cristã dessas culturas leva-nos certamente a reagir à tentativa de a apagar substituindo o Natal por festas de Inverno, ou retirando o presépio de lugares públicos (uma coisa é o diálogo de culturas, outra o cancelamento de culturas). Mas é, sobretudo, ser fiel à mensagem de amor universal que nos é dada pelo Natal e pelo presépio. Estes são muito mais do que sinais externos identitários ou simples recordações do passado. Não podem ser esvaziados daquilo que verdadeiramente significam.

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  • Bernardo Cunha
    07 jan, 2026 Lisboa 18:07
    O Catecismo da Igreja Católica (n.º 2241) reconhece explicitamente que “as autoridades políticas podem, em vista do bem comum…, subordinar o exercício do direito de imigração a diversas condições jurídicas”, e lembra também deveres do imigrante (respeitar leis, contribuir para o bem do país de acolhimento). Concordo com o texto exceto num detalhe onde o meu amigo e colega de curso Pedro Vaz Patto se espalha: a inclusão de “barreiras à imigração” no conceito de “hostilidade ao estrangeiro”. A introdução de barreiras, ou seja, a regulamentação da imigração, é legitimada pelo 2241 do CIC, e colocar as barreiras ao mesmo nível das ofensas e discriminações é abusivo. Condeno estas duas últimas, mas a primeira é perfeitamente legítima. O triste no texto do meu amigo é que parece estar a politizar as barreiras, colocando-as ao mesmo nível das ofensas e discriminações, prestando-se a ser instrumentalizado pelos partidos.