Reportagem Renascença
Entre-os-Rios, 25 anos depois. A ferida que não morre
04 mar, 2026 • Isabel Pacheco , Miguel Marques Ribeiro
Poderá acontecer uma nova tragédia como a queda da Ponte Hintze Ribeiro? Quem participou nas operações de busca das 59 vítimas acredita que há lições por tirar. Em Castelo de Paiva, as marcas da perda e do trauma estão presentes, mas há também a esperança de aprender a "conviver" com a ferida "sem fim" que a tragédia deixou.
Tiago Gonçalves tinha 11 anos quando aconteceu o que parecia impossível: a queda da Ponte Hintze Ribeiro, que ligava Castelo de Paiva, a sua terra natal, a Penafiel.
Era um domingo, aquele 4 de março de 2001. O aluno do sexto ano da escola de Oliveira do Arda assistia ao programa “Domingo Desportivo” com o irmão quando surgiram as notícias na televisão, em "última hora". Só entendeu melhor o que se passava no dia seguinte, quando lhe faltou a amiga Flávia com quem fazia diariamente o percurso a pé para as aulas.
“Realmente, aí comecei a assimilar melhor aquilo que se estava a passar e que, se calhar, não voltaria a ver essa menina”, conta Tiago, ainda, com o estranho burburinho da “consternação e preocupação” dos adultos da altura na memória.
“Acima de tudo, era uma sensação de estranheza, de percebermos que havia alguns colegas que de repente estavam ausentes.”
“Havia sempre essa sensação de uma certa irrealidade. Parecia que estávamos a viver um pesadelo e que, em algum momento, aquilo ia acabar e as pessoas iam aparecer”, confessa o jovem, admitindo que o momento o moldou como adulto tal como a “identidade de toda a comunidade”.
Hoje, Tiago Gonçalves é psicólogo e reconhece que a tragédia não foi indiferente à sua decisão.
“Foi a primeira vez que pensei em psicólogos na vida porque percebi o papel dos psicólogos na vida das pessoas”, conta, recordando a chegada desses profissionais à terra nos dias seguintes à queda da ponte. “ Posso dizer que há aí uma ligação”, assume.
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Para além de Flávia, também, Bruno de 10 anos e Vasco, de três, seguiam naquele autocarro. Frequentavam a escola de Oliveira do Arda. Conceição Rodrigues era a diretora do agrupamento, acabado de criar.
"Numa situação destas, quem é que tem experiência? Ninguém" — Conceição Rodrigues, Diretora do agrupamento de escolas em 2001
A tragédia “levou-me muita gente que me dizia muito: alunos, ex-alunos, pais, vizinhos …”, enumera, pausadamente, dando tempo para a emoção espairecer, enquanto aponta para a casa branca ao lado da sua. “Esta casa, por exemplo, ficou vazia...”
Naquele ano letivo, recorda, tudo ficou em “stand by”. Ninguém sabia ao certo como lidar com a situação. Nem com as crianças.
“Era falar com elas, recordar e voltar a falar. Não sabíamos o que haveríamos de fazer e, acho que, às vezes, nem a psicóloga”, que chegou uns dias após o 4 de março, por indicação da Direção Regional de Educação do Norte (DREN). “Era complicado. Também, numa situação destas, quem é que tem experiência? Ninguém..."
Muitos "não conseguem falar"
Alda Moreira perdeu a mãe e o irmão no regresso daquela excursão de autocarro para ver as amendoeiras em flor. Nunca recuperou os corpos. Fala-nos de uma ferida “sem fim”.
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São “vidas que ficaram para a vida”, diz. “Uma ferida que a gente tenta ir curando com o tempo, mas que só morre quando a gente morrer”, desabafa Alda que viu o filho de 7 anos adoecer após a tragédia.
”Ele ficou marcado pela perda do tio Lino que era um homem forte que matava os ladrões. Começou por ter medos”, conta. Entretanto, foi-lhe diagnosticado “distúrbio emocional em tenra idade”, revela Alda.
"Uma ferida que a gente tenta ir curando com o tempo, mas que só morre quando a gente morrer" — Alda Moreira, familiar de vítimas
Mãe e filho são dois dos 20 utentes do gabinete de apoio psicológico da associação de familiares das vítimas da tragédia de Entre-os-Rios.
“É importante porque é onde desabafo”, admite a paivense, lembrando que, tal como a sua, “há muitas histórias” e “muitas delas as pessoas não conseguem falar”. A mim, reconhece Alda, “faz-me bem”.
“E todas as vezes que eu falo daquele dia, eu vivo aquele dia como fosse o presente."
Aprender a conviver com a ferida
É ao lado da escola primária de Raiva - a freguesia mais atingida pela tragédia - que encontramos, instalada numa casa pintada de amarelo que era de duas das vítimas da tragédia, a Associação dos Familiares das Vítimas da Tragédia de Entre-os-Rios (AFVTER).
A associação, conta o seu presidente, Augusto Moreira, nasceu para “dar voz e o apoio que faltava” aos familiares.
“Percebemos, claramente, que o sistema nacional de saúde (SNS) não dava a resposta adequada às necessidades dos familiares”, aponta.
Lucinda Giestas é uma das duas psicólogas de serviço na associação. A profissional reconhece que só teve noção da dor da gente de Raiva quando aqui chegou há oito anos.
"Percebemos claramente que o sistema nacional de saúde (SNS) não dava a resposta adequada às necessidades dos familiares" — Augusto Moreira, presidente da AFVTER
O gabinete apoia 20 utentes, metade dos quais foram tocados direta ou indiretamente pela queda da ponte
E por Raiva são “muitas as problemáticas” e “algumas muito complexas”, conta Augusto Moreira dando conta de que, 25 anos depois, “há pessoas que ainda não mexeram no quarto dos familiares”. Outras há que “não são capazes de atravessar a ponte - e já é outra ponte com outras condições de segurança. Mesmo assim não são capazes de passar”, relata o responsável que também perdeu gente na tragédia.
“Há traumas que as pessoas dificilmente conseguem ultrapassar”, finaliza.
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Felicidade não é exceção. A familiar de duas das 59 vítimas continua a receber apoio psicológico e psiquiátrico. Confessa que “sonha menos e dorme melhor” graças à medicação. Está mais tranquila, mas não está “em paz”.
“Não nos é fácil perceber o que é que mais mexe connosco. É a ausência do corpo, sem dúvida”, reconhece a agente da polícia municipal que, aquando da tragédia, foi logo transferida de Lisboa para o Porto, de modo a poder estar junto da família.
“Mas, os edifícios, os monumentos e as infraestruturas são para ser cuidadas, não são para cair”, acrescenta.
“Há fenómenos naturais que não são previsíveis, mas aqui há desleixo numa infraestrutura que caiu, que devia ser cuidada e não foi. Não me sossegava se A, B ou C fosse responsabilizado, mas essa responsabilização tem de existir”, atira Felicidade.
“Se alguém atropelar o meu filho ou dê um tiro num familiar meu, logicamente, vou querer que a justiça exista e funcione”, resume.
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Os familiares das vítimas foram indemnizados pelo Estado, num valor total de 5,820 milhões de euros, repartidos por 47 processos. No entanto, nunca foi apurada a responsabilidade criminal pela tragédia. Em 2006, o Tribunal de Castelo de Paiva absolveu os seis engenheiros acusados de negligência.
Em situação de crise, legislação não serve de desculpa
Duas décadas e meia depois, o então presidente da Câmara de Castelo de Paiva, Paulo Teixeira, insiste que tudo poderia ter sido evitado.
“Acredito que sim”, atira o antigo autarca, justificando que, na altura, já se sabia que “o projeto de uma nova ponte estava em cima da mesa”.
"Esta região tem pouco peso eleitoral e representa poucos para os partidos”, lamenta Paulo Teixeira, dando o exemplo da construção “do IC35 - que saiu em Diário da República - e da Variante 222 que 25 anos depois estão por executar”.
O social-democrata que liderou o município de Castelo de Paiva por três mandatos não tem dúvidas de que há um “antes” e um “depois” da tragédia de Entre-os-Rios no que toca à gestão de uma situação de crise. Ainda assim, lamenta a falta de aprendizagem com a tragédia.
"Não invoquem a legislação. Em casos extraordinários é preciso que a legislação vá de forma diferente para o terreno" — Paulo Teixeira, autarca de Castelo de Paiva em 2001
"Uma das ilações que tirei de Entre-os-Rios é a forma como se comunica. E quem comunica. Porque nós não somos todos iguais e, por isso, temos de encontrar a pessoa certa para passar a mensagem", alerta Teixeira, para quem a legislação "não pode servir de desculpa" na resposta a uma catástrofe. A esse propósito, o antigo autarca lembra que durante a tragédia foram vários os momentos em que se teve de "furar protocolos".
"Mudou-se muita coisa. E, acima e tudo, o que é importante para as catástrofes de agora: não invoquem a legislação porque, em casos extraordinários, é preciso que a legislação vá de forma diferente para o terreno", avisa Paulo Teixeira.
"Aprendam com Entre-os-Rios", apela.
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"Desde a identificação dos corpos a fazer obras de dimensão internacional sem concurso publico, ultrapassamos a legislação existente e ninguém perdeu o mandato. Fizemos coisas ultrapassando e mesmo indo contra a legislação. Temos de ser práticos e objetivos: quando há uma catástrofe tudo tem de ser diferente", enfatiza Paulo Teixeira.
As lições aprendidas e por aprender
Desde a retirada do autocarro no Rio Douro à identificação dos corpos e à comunicação com a população tudo foi inédito e tudo foi difícil, diz Paulo Vicente, um dos protagonistas das autoridades presentes, em 2001, na operação de busca.
Vicente, então chefe da equipa de 30 mergulhadores, recorda a tragédia de Entre-os-Rios como "o momento mais marcante na sua vida profissional e pessoal".
Com a corrente de água do Rio Douro a uma velocidade de 40 km/hora, Paulo Vicente admite, pela primeira vez, que sobretudo no primeiro mergulho - realizado ao segundo dia da tragedia - a vida dos seus homens foi colocada em risco.
"Foi o abraço de uma terra para toda a vida" — Artur Teixeira, técnico da proteção Civil em 2001
Como militares, Paulo Vicente garante que a sua equipa estava preparada para quase tudo, menos para a pressão emocional.
"Faltou o apoio psicológico. Porque, efetivamente, não existe", lamenta o responsável da Marinha. "Existem mecanismos que nós próprios encontramos, em termos pessoais e da organização. Estamos treinados e habilitados para lidar com situações de pressão, mas, efetivamente, a pressão era muita."
Apesar das falhas, Paulo Vicente reconhece que, no que toca à resposta em situações de crise, o país melhorou e aponta como exemplo a queda, em 2024, no rio Douro do helicóptero com elementos da GNR.
"Ali, atuaram vários atores no âmbito da proteção civil: da GNR, da Polícia Marítima, mergulhadores forenses. Portanto, foi possível tudo isto, julgo eu, muito devido àquilo que aprendemos em Castelo de Paiva e da necessidade de interagirmos numa situação de crise”, diz.
Em 2001, Artur Teixeira, técnico da Proteção Civil, foi o último a abandonar Castelo de Paiva no decurso da operação de buscas. O responsável pela proteção civil municipal de Gondomar guarda o abraço de agradecimento de um casal desconhecido naqueles últimos dias de missão. Estávamos já em junho.
"Esses abraços nunca se esquecem, não é? Foi o abraço de uma terra para toda a vida", recorda o especialista, lamentando que, em situações de crise, "o país continua a ter memória de peixe".
"Gostaria que aprendessemos mais do que o que temos aprendido", atira.
"Isto tem a ver com a questão do investimento para estarmos mais habilitados - com meios e recursos - para fazer face a estas situações. Na prevenção, um euro que se investe significa oito euros que não se vão gastar na recuperação. Mas ainda não chegamos lá."
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Questionado sobre se atualmente seria possível uma tragédia, como a de Entre-os-Rios, Artur Teixeira hesita: “Nesta matéria, não vou dizer que isto nunca pode acontecer.”
Da tragédia resultaram 59 mortes. Apenas 23 dcorpos foram recuperados.
O caso, há 25 anos, serviu de impulso para a criação de cursos de proteção civil e de estudo na gestão de crise pelos psicólogos. Ainda assim, nem tudo terá siodo aprendido.
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