Reportagem
Dona Rosário só quer regressar a casa, mas a Alcácer do Sal ainda não chegaram apoios
18 mar, 2026 • Ana Catarina André
Quase um mês e meio depois das cheias em Alcácer do Sal, ainda há dezenas de casas e empresas por reconstruir. A presidente da Câmara lamenta que os apoios do Estado ainda não tenham chegado. “De cada vez que falo com alguém do Governo, dizem-me que estão a estudar, que vai ser rápido, mas a verdade é que não passa disso...”
Há mais de um mês que Rosário Rosa aproveita o mais ínfimo raio de sol para arejar a casa, lavar a roupa e secar dezenas de livros e outros documentos que, no início de fevereiro, ficaram submersos, durante dias.
Aos 75 anos, esta moradora na aldeia de Arez, no concelho de Alcácer do Sal, assistiu de perto à subida do rio Sado que, em poucas horas, atingiu mais de um metro de altura dentro de sua casa.
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“Os colchões, os estrados, a máquina de lavar roupa foram para o lixo”, conta, enquanto mostra o que resta dos móveis. Muitos não têm fundo; outros continuam com as gavetas empenadas. “Há um ou outro que o carpinteiro disse que conseguia arranjar”, diz.
Na sala, agora sem sofás (ficaram estragados com a água), Rosário Rosa vai guardando alguns sacos de plástico com roupa já lavada. “Dou uma primeira passagem na máquina e depois volto a lavar as vezes que for preciso”, constata.
Nem penso já que me vão ajudar - Rosário Rosa
Pelo resto da casa não faltam alguidares e caixas com objetos amontoados que contam a história de quem ali viveu. “Olhe, isto era o cartão de pensionista do meu marido”, conta, enquanto apanha do chão o documento.
Desde as cheias que atingiram Alcácer do Sal, há quase um mês e meio, tem recebido apoio alimentar da Câmara Municipal. “A comissão do futebol aqui da aldeia em frente, o Vale de Guizo, fizeram peditórios e angariam algum dinheiro para os quatro [moradores] desta rua, que foram os mais lesados, mas foi pouco”, diz a reformada, contando que um grupo de conhecidos da neta lhe deu uma máquina de lavar, um ferro e um frigorífico. Dos apoios prometidos pelo Estado, ainda não recebeu nada. “Nem penso já que me vão ajudar”, lamenta.
Sem apoios do Estado
À Renascença, a presidente da autarquia, Clarisse Campos, adianta que o município e a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) Alentejo validaram até agora candidaturas no valor de 300 mil euros.
“Essas candidaturas aprovadas estariam em condições já de as pessoas terem recebido o dinheiro, mas ninguém recebe porque a CCDR não tem [o dinheiro]. Não foi transferido do Governo e, portanto, não têm como pagar”, afirma a autarca.
De cada vez que falo com alguém do Governo dizem-me que estão a estudar - Clarisse Campos
No início da semana, voltou a confirmar com a CCDR que não tinha havido qualquer transferência. “De cada vez que falo com alguém do Governo dizem-me que estão a estudar, estão a estudar, que vai ser rápido, mas a verdade é que não passa disso”, lamenta.
Clarisse Campos considera, ainda, que “os seguros têm levantado muitas questões para poder pagar” as devidas compensações às pessoas afetadas pelas cheias.
“Conta-se pelos dedos de uma mão o número de pessoas que receberam já o apoio dos seguros, a começar pelo município”, afirma.
A autarca acrescenta que há ainda famílias que não voltaram a casa por falta de condições. “Estão em habitações alternativas. Temos também famílias no hotel da Barrosinha – o hotel suporta despesas com alojamento e a autarquia com a alimentação há mais de 40 dias.”
Como tantos no concelho de Alcácer do Sal, Rosário Rosa não conseguiu ainda voltar a casa. Está a morar com a filha e com as netas, no andar de cima, do mesmo edifício onde vivia.
“O que quero mesmo é voltar para a minha casa”, sublinha. Apesar de tudo, diz que é possível tirar ensinamentos destes tempos difíceis. “São lições. A gente pensava: ‘A água não vem aqui parar, mas mesmo que venha é coisa pouca. Vê como não foi coisa pouca?’”, afirma. E constata: “Não mandamos em nada, em nada. Não controlamos nada”.
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