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Presidências Abertas: a "pedrada no charco" que "foi levantar a tampa de alguns problemas"

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Presidências Abertas: a "pedrada no charco" que "foi levantar a tampa de alguns problemas"

07 abr, 2026 • Isabel Pacheco , Miguel Marques Ribeiro


Da criação de Mário Soares à promessa de Seguro. 40 anos depois, o recém-eleito Presidente dá continuidade ao modelo que deu “voz às populações” e desloca-se em Presidência Aberta à zona Centro do país. Recuamos até 92, ano em que Soares se mudou para Viana do Castelo durante mais de uma semana, para perceber se este é um estilo de Presidência que continua a fazer sentido.

Vídeo. Presidências Abertas: a "pedrada no charco" que "foi levantar a tampa de alguns problemas"
Vídeo. Presidências Abertas: a "pedrada no charco" que "foi levantar a tampa de alguns problemas"

Da bancada do estádio do Sport Clube Vianense, Joaquim Almeida olha para o relvado enquanto recorda o dia em que o então Presidente da República, Mário Soares, chegou de helicóptero.

“O Dr. Mário Soares pousou aqui no Puma. Depois vieram alguns ministros que vinham reunir com ele no Hotel Santa Luzia”, recorda o funcionário do clube, lamentando “os bocados de relva” que ficaram “queimados” naquele dia com as manobras do helicóptero.

“Se eu soubesse teria metido logo um pouco de água e tudo ia ao normal”, atira Joaquim ainda um pouco indignado com o incidente da altura.

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Estávamos em 1992 quando o então chefe de Estado aterrou na capital do Alto Minho. Desses dias de setembro, Joaquim guarda na memória o entusiasmo de uma visita com contornos inéditos.

“Falava-se que o Presidente da República vinha a Viana do Castelo e que ia ficar aqui uns dias. Até puseram um nome qualquer, que não era visita. Diziam qualquer coisa de Presidência Aberta, aqui, em Viana”, conta.

Era a nona iniciativa semelhante levada a cabo por Mário Soares e uma das mais longas da sua presidência. Durante mais de uma semana percorreu a região, ouviu a população e visitou vários pontos estratégicos. Entre eles, os Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC) que já tinham servido de palco para quase todas as campanhas eleitorais. Dessa vez, recebiam a visita de Soares, o Presidente.

“Ele ouviu a comunicação da comissão de trabalhadores, o discurso do presidente da empresa. Saiu preocupado com a empresa dando garantias de que, da parte dele, faria o que pudesse”, conta Gonçalo Fagundes que, na década de 90, integrava a comissão de trabalhadores dos Estaleiros.

O "golpe diabólico" da privatização

Era o início dos anos 90 e de uma crise nos ENVC que, 22 anos depois, terminaria na entrega da empresa à gestão de privados culminando no despedimento de mais de 600 trabalhadores diretamente e outros tantos indiretamente.

Gonçalo recorda as dificuldades praticamente impossíveis de combater no mercado global: “Quando Mário Soares veio à empresa em 92 estávamos a construir navios com preços dos anos 80. E isso é terrível”.

O desfecho parecia estar anunciado. Concretizou-se em 2014 com um processo de privatização dos ENVC que continua a deixar dúvidas a quem, como Gonçalo Fagundes, viveu durante décadas da empresa naval.

“A privatização dos estaleiros foi uma vergonha", insiste Gonçalo, ainda inconformado com a situação.

"A culpa disso foi do ministro, que é hoje Presidente da Assembleia da República, Aguiar-Branco, que apostou fortemente na privatização da empresa”, atira o antigo trabalhador.

Foi um “golpe diabólico” para os trabalhadores, conta. “É o que apelidei de golpe do enlouquecimento dos trabalhadores que, ao fim de dois anos, fartos de estarem desocupados aceitaram o contrato que lhes apresentaram e foram-se embora. A partir daí, fez-se a privatização. Foi diabólico”.

Para o antigo representante da comissão de trabalhadores a gestão da empresa não tinha necessariamente de deixar a gestão pública, mas faltou vontade dos sucessivos governos que “nunca encararam a situação verdadeiramente”, lamenta Gonçalo.

Nós construímos para todo o mundo. Não há continente não tenha navios dos Estaleiros – Gonçalo Fagundes, ex-membro da comissão de trabalhadores dos ENVC

“A empresa podia estar a trabalhar só para o Governo, para a Marinha Portuguesa, para a Marinha de Guerra. E aí tinha um campo muito vasto desde que se construíssem os navios que o país precisava e que se pagassem os navios ao seu preço real”, ressalva. “Assim era possível sustentar e aproveitar uma capacidade de construção única no país”.

“Nós construímos para todo o mundo. Não há continente que não tenha navios dos Estaleiros”, diz orgulhosamente.

Primeira doca seca construída em 50 anos

Foi exatamente o que fez a West Sea quando, há 12 anos, assumiu a gestão dos ENVC: captou encomendas da Marinha portuguesa. Antes, e para revitalizar a empresa, apostou na reparação naval. Todo o processo foi acompanhado, a par e passo, por António Silva a trabalhar há 46 anos nos ENVC.

Há 34 anos foi um dos representantes dos trabalhadores que recebeu Mário Soares.

“Estive, não digo nesta mesa, mas numa mesa semelhante com ele. Lembro-me, perfeitamente, dele cá ter vindo – sempre com aquele ar bonacheirão e bem-disposto”, brinca António, mencionado a “exposição de maquetes dos vários navios” construídos pelos Estaleiros que Soares visitou.

Também, para António Silva, a solução dos ENVC poderia ter sido outra que não a privatização.

“Poderia ter sido semelhante, mesmo, com gestão pública. Se tivessem adotado as medidas que estavam perfeitamente identificadas. Sabia-se o que era necessário fazer: a redução de pessoal que tínhamos em excesso, e isso era inevitável. E reestruturar a empresa de forma a responder aos novos desafios”, resume.

Mais de uma década desde a privatização dos ENVC, tudo se agilizou e a reparação naval é atualmente uma das principais fontes de receita da West Sea.

No mar andam 40 mil navios e, todos os dias, têm de ser reparados nos locais próximos onde operam”, lembra o líder da estrutura da reparação naval na West Sea, que se prepara para inaugurar uma doca seca.

O investimento de 25 milhões de euros vai permitir alargar a capacidade de reparação e, com isso, prolongar por mais 25 anos o contrato de concessão dos ENVC.

“Se não me engano, há mais de 50 anos que não se construía uma doca seca em Portugal e nós estamos a terminar a construção dessa doca”, revela Vitor Figueiredo, da administração da empresa do grupo Martifer.

“É uma doca de 220 metros por 45, que vai entrar em operação em abril para poder crescer na área da reparação. Para haver um rácio de equilíbrio entre construção e reparação”, explica o administrador, que reconhece que as encomendas do Governo português são “uma importante janela de oportunidade” para a empresa.

"Temos trabalho até 2030"

Nos últimos anos, foram construídos quatro navios patrulha para a Marinha. Mas, há mais seis a serem entregues até 2030.

A encomenda resultou de “um programa de 10 navios lançado por Paulo Portas, quando era ministro da Defesa. Portanto, esse objetivo mantém-se, aponta o responsável, notando que a West Sea “ganhou o concurso no final de 2024” para o contrato de fornecimento dos últimos seis navios.


“Estamos neste momento com este contrato em execução. Já estamos a iniciar os primeiros blocos que serão instalados agora no primeiro trimestre de 2026”, revela.

Mas, nos estaleiros de Viana do Castelo, prepara-se outra encomenda: a de um navio cruzeiro de luxo para o Japão. Trata-se do “maior contrato” até agora firmado pela empresa que ultrapassa os 100 milhões de euros, conta o administrador enquanto caminhamos para a plataforma de construção onde já se vê o “esqueleto” da embarcação .

“No fundo é como se fossem peças de Lego que vão fazendo crescer todo o casco do navio”, explica. “Nota-se que ainda faltam uns quantos que estão na oficina a ser construídos”.

“É uma encomenda com um tempo de construção, aproximadamente, de três anos. Portanto, em abril de 2027, há de estar pronto para entregar ao cliente e navegar até ao Japão. O que será uma grande viagem”, nota.

Ao curriculum da West Sea – empresa do grupo Martifer criada em 2014 para assumir a gestão dos ENVC – juntam-se cinco navios de expedição polar. O último foi entregue em 2025, ano em que a empresa fechou as contas com um volume de negócios superior a 115 milhões de euros.

Nessa altura, as pessoas não tinham oportunidade de ver ministros. Era tudo em Lisboa e em Lisboa ficava – Maria José Azevedo, ex-jornalista

Até 2030, só a carteira de encomenda de mais seis navios-patrulha para a Marinha portuguesa representa “300 milhões de euros”, revela Vítor Figueiredo, otimista quanto ao futuro da empresa nos próximos anos.

“Lotados? Não, totalmente, mas temos trabalho até 2030. Conseguiremos agora encaixar algumas coisas para 2028, 2029 e anos seguintes. É para aí que estamos a apontar”, antecipa. “Do lado da reparação naval, as coisas também têm corrido muito bem. Temos uma carteira de clientes muito fiel”, remata.

Um modelo irrepetível

Em 1992, Mário Soares estaria longe de imaginar o dinamismo dos Estaleiros 34 anos depois da sua visita.

Maria José Azevedo, jornalista da RTP, acompanhou a Presidência Aberta do socialista ao Alto Minho. A jornalista fala de uma “marca política” de Soares “irrepetível”.

“As Presidências Abertas foram uma pedrada no charco” atira Maria José Azevedo, uma das profissionais da estação pública destacadas para Viana do Castelo, em setembro de 1992.

“Parecia manifestamente que havia ali um objetivo de chamar a atenção do Governo de Cavaco Silva para determinadas realidades sociais, nomeadamente, na cintura industrial de Lisboa”, assume Maria José Azevedo, recordando aquela e outras Presidências Abertas nos anos 90.

“Esse enquadramento era muito Mário Soares. Marcou muito, pelo menos para mim, como um selo de Mário Soares. Acho que não é repetível nem porque não há um segundo Mário Soares nem porque as circunstâncias hoje são outras.”

Ainda assim continua a fazer sentido uma Presidência Aberta? “O mesmo sentido não, que nessa altura as pessoas não tinham oportunidade de ver ministros. Era tudo em Lisboa e em Lisboa ficava”, lembra a também ex-vereadora socialista da autarquia do Porto, reconhecendo que o modelo “na altura funcionou muito bem” porque “deu voz de alguma forma às populações”.

Já sobre a próxima Presidência Aberta do Presidente António José Seguro, “ele sempre disse que se fosse eleito que visitaria as zonas afetadas pelo mau tempo para saber como as pessoas estão. Portanto, aí tem um objetivo concreto, faz todo o sentido uma Presidência Aberta”, ressalva.

"Mas é evidente que tem de ser feito um arranjo, uma adaptação à realidade presente da Presidência Aberta, ainda que ela mantenha o mesmo nome, mas terão que ser necessariamente coisas diferentes", conclui Maria José Azevedo.

Aproximar Belém do país real

Independentemente dos objetivos, Joaquim Almeida, que há 34 anos recebeu o Presidente Soares no estádio de Viana, garante que qualquer chefe de Estado é sempre bem-vindo.

“Uma coisa é certa: os presidentes, todos, deviam vir de norte a sul do país para ver como as coisas são. Eles mesmos, para sentirem o povo e ouvirem o que o povo diz”, sublinha o vianense, certo que foi exatamente isso que Mário Soares fez em 92, em Viana do Castelo. “Foi. Ele ouviu muitas coisas e ele foi um senhor. Foi um senhor na Presidência”.

Depois de Mário Soares, que inaugurou o conceito de Presidência Aberta, também Jorge Sampaio, Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa tentaram, cada um ao seu jeito, seguir as pisadas e aproximar Belém do país real. Segue-se António José Seguro, que um mês depois de tomar posse como Presidente da República, sai à rua, naquela que é a sua primeira Presidência Aberta.

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