Eleições Benfica

Noronha Lopes. A promessa do fim do "vieirismo” ganhou o direito à segunda volta

27 out, 2025 - 07:50 • Eduardo Soares da Silva

Deu cara ao movimento de oposição a Luís Filipe Vieira em 2020 e promete agora lançar o clube para um futuro com um mínimo de três campeonatos em quatro anos. Conheça o advogado, tornado empresário, que agora vai lutar taco a taco contra Rui Costa pela presidência do Benfica.

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João Noronha Lopes não é um homem do futebol. Define-se como um “homem no futebol” e vai, no dia 8 de novembro, disputar a presidência do Benfica contra o homem que ainda está nesse gabinete. O advogado e gestor convenceu 30% dos sócios votantes com a promessa de ser o rosto da mudança, mas Rui Costa garantiu 42.13% dos votos, ou seja, 32.898 sócios deram-lhe 744.655 votos e chegaram a ameaçar dar-lhe a maioria, a vitória na primeira volta.

Mas a história continua, pelo menos mais duas semanas.

Durante o longo período de campanha eleitoral, os adversários atacaram a falta de experiência no futebol de Noronha Lopes, que depois de ser advogado, teve carreira ligada à restauração.

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“Eu sou um homem no futebol. Ouço dizer que o Noronha Lopes não está preparado para gerir o futebol, mas quando se fala desse tal ‘homem do futebol’, eu pergunto: Vieira e Rui Costa trouxeram-nos dois títulos em oito anos, é isso que os benfiquistas querem num homem do futebol? Eu trago organização, uma estrutura em que as pessoas sabem o que querem”, defendeu, numa entrevista à Renascença.

Com uma breve passagem pelo clube na direção de Manuel Vilarinho, em 2000, Noronha Lopes quer agora regressar para assumir o mais importante cargo no clube com mais sócios do país.

Nuno Gomes terá o dossier do futebol e Vítor Paneira será o diretor técnico, se 8 de novembro cair para o lado de Noronha Lopes. Muitas figuras do universo encarnado também apoiaram esta candidatura: Miccoli, Cardozo, Ricardo Araújo Pereira, Seara Cardoso, Bagão Félix, entre muitos outros.

A "semente de um Benfica novo" foi plantada em 2020

Fora da esfera encarnada, Noronha Lopes pode ser uma cara algo desconhecida. Para os benfiquistas, ganhou notoriedade quando se candidatou contra Luís Filipe Vieira nas eleições de 2020.

Nessa altura, não conseguiu fazer o suficiente para destronar o presidente que liderava o clube desde 2003. 14 mil sócios confiaram o voto em Noronha Lopes, que perdeu para os quase 23 mil apoiantes de Vieira.

As eleições de 2020 colocaram-no no mapa como a cara de uma oposição que, até então, quase não existia. Quatro anos antes, Vieira vencera com cerca de 96% dos votos.

“A semente de um Benfica novo está plantada. Sei que, a partir de agora, muitos se vão voluntariar para se afirmar num futuro assente em transparência e credibilidade”, disse, então, após a derrota.

Noronha Lopes acabaria por não concorrer no ano seguinte, depois da detenção de Vieira que conduziu à eleição do presidente interino Rui Costa como sucessor definitivo.

Cumpriu com a promessa que tinha feito quando perdeu. Tinha "um compromisso com a minha família que seriam as únicas eleições” e, por isso, não se voltaria a candidatar.

Este ano, não faltou quem tentasse chegar à liderança. Ao presidente Rui Costa, juntaram-se na campanha Cristóvão Carvalho, João Diogo Manteigas, Luís Filipe Vieira, Martim Mayer e, claro, Noronha Lopes, que avançou no início de junho.

As críticas aos quatro anos de liderança de Rui Costa marcaram a campanha eleitoral. Neste período, o Benfica foi apenas uma vez campeão, com Roger Schmidt. Noronha Lopes defendeu que o clube mergulhou numa “falta de cultura de exigência”.

“Quando o presidente acha que se deve recandidatar porque estivemos quase a ganhar, isto não é o Benfica. Ou ganhamos, ou não ganhamos. O Rui Costa é o presidente do quase”, atirou, à Renascença.

Ao jornal "Expresso", Noronha Lopes acusou o presidente de “falar do passado e desculpar-se pelo presente”, cimentando a narrativa que a sua candidatura era “a de futuro”.

Rui Costa não reuniu consenso junto dos sócios e até Luís Filipe Vieira se voltou a apresentar nas urnas, apesar dos vários casos na justiça a envolver o ex-presidente.

Noronha Lopes colocou-os em pé de igualdade. Rui Costa foi dirigente durante muitos anos da liderança de Vieira. Numa entrevista ao "Correio da Manhã", em setembro, acusou-os de representarem “o passado”: “São farinha do mesmo saco, trabalham com as mesmas pessoas e usam as mesmas práticas”.

Fez campanha sob a grande bandeira de levar o Benfica para uma nova era, colocando “fim a um regime”, o “vieirismo”.

O concorrente de Rui Costa defende ainda a transparência e divulgou as suas declarações de rendimentos depois de notícias que sugeriam uma vida empresarial com pouco sucesso, questionando ainda o financiamento da sua campanha. O candidato mostrou rendimentos a rondar os 23 milhões de euros entre 2017 e 2023.

“Sou um homem sério e que subiu a pulso na vida fruto do meu trabalho. Se me tocam na honra e na dignidade, respondo com transparência. Quem não deve, não teme. Na sua esmagadora maioria, a campanha é financiada por mim", disse, na CMTV. O resto, justificou, foi financiado por amigos.

Mourinho é "dos melhores do mundo", Bernardo Silva para volta a casa

O novo presidente herda uma equipa no terceiro lugar da tabela, atrás dos rivais FC Porto e Sporting, com o apuramento em cheque na Liga dos Campeões e com um novo treinador ainda contratado por Rui Costa.

Noronha Lopes não tem problemas com José Mourinho. Pelo contrário: quer trabalhar com ele.

“Temos que dar tempo a Mourinho, o que esperamos de um treinador que é um dos melhores do mundo é que ganhe e que ponha o Benfica a jogar à Benfica”, atira.

E, para isso, uma das primeiras medidas que promete é reunir com o treinador para perceber as necessidades de Mourinho. Um dos reforços possíveis para janeiro é Bernardo Silva. O internacional português namora o regresso ao Benfica há vários anos e foi uma das promessas mais sonantes de Noronha Lopes.

“Eu quero trazê-lo e vou criar condições para que isso aconteça com Mourinho no Benfica”, disse, à Renascença.

O médio de 31 anos saiu do clube com apenas três jogos feitos. Tem uma carreira feita ao mais alto nível no Mónaco e Manchester City. É o capitão dos “cityzens”, mas está em final de contrato e poderá regressar à casa de partida para cumprir os sonhos que não realizou.

É apenas um de muitos dossiers que Noronha Lopes terá de tratar: apresentou dez medidas para cumprir nos primeiros 100 dias de mandato, entre as quais arrancar com uma auditoria externa ao clube e à SAD, nomear um provedor do sócio, reorganizar a estrutura do futebol profissional, formação e futebol feminino, e preparar o projeto de expansão do Estádio da Luz para 83 mil lugares.

Nessa lista está ainda o objetivo traçado de “liderar o processo de centralização dos direitos televisivos”. Na entrevista a Bola Branca, Noronha Lopes prometeu assumir esse dossier “pessoalmente, porque é de crucial importância para o Benfica.”

O novo presidente eleito defende ainda que “há clubes a mais na I Liga” e que a Taça da Liga “não faz sentido”.

O mandato de Noronha Lopes, se tudo correr favoravelmente para ele no dia 8 de novembro, durará quatro anos. Até lá, coloca uma exigência alta em relação a objetivos: “Em quatro anos, o Benfica tem de ganhar três títulos. Essa é a minha bitola.”

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  • Altere campanha
    27 out, 2025 E cuidado com as alianças 12:03
    Menos arrogância, mais humildade, menos saídas espertas, e congregar o apoio de quem não votou Rui Costa - e cuidado com Vieira que deve andar à procura de uma maneira de arranjar lugar no Benfica, aliando-se a 1 das listas. O apoio dele, pode custar mais votos do que os que dá. Se quer ser o arauto da Mudança, não pode liguar-se à lista de Vieira

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