07 nov, 2025 - 07:10 • Eduardo Soares da Silva
Mais de 85 mil sócios do Benfica quebraram o recorde de participação nas eleições do clube. O presidente Rui Costa elogiou "a vitalidade democrática", João Noronha Lopes seguiu pelas mesmas linhas. Mas fará sentido elogiar a democracia quando os sócios não têm todos o mesmo número de votos?
Patrícia Calca, professora e investigadora do ISCTE, reconhece que "se formos a comparar com sistemas políticos das democracias ocidentais, não [é um sistema democrático], porque um dos princípios das democracias liberais e modernas é que um cidadão tem um voto".
Ainda assim, a "comparação pode ser injusta", segundo a investigadora, uma vez que "o Benfica não é um Estado."
"É uma instituição que representa os seus associados, que estão lá por vontade própria e, à partida, conhecem as regras", explica, à Renascença.
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No atual modelo eleitoral do Benfica, um sócio mais veterano pode ter até 16 vezes mais poder de decisão do que outro.
Pôde votar na primeira volta das eleições quem fosse maior de idade, sócio há mais de um ano e com as quotas em dia até agosto. No entanto, nem todos têm o mesmo peso no momento de colocar o papel nas urnas.
Quem não tem mais de cinco anos de associativismo, tem direito apenas a três votos. Entre cinco a dez anos de sócio correspondem dez votos. Até 25 anos de associativismo são atribuídos 20 votos e, a partir daí, os sócios tem 50 votos disponíveis.
Sistema por antiguidade significa que há sócios co(...)
Francisco Benitez foi o rosto da oposição a Rui Costa nas eleições de 2021. Perdeu essas eleições e não se candidatou este ano, embora tenha manifestado apoio a João Noronha Lopes. Explica à Renascença que a origem do sistema vem "da contribuição que alguns sócios davam ao clube."
"Nessa altura, foi-lhes dada preponderância nas decisões e começou aí a diferenciação", conta.
O ex-candidato concorda com o princípio do sistema: "Acho que é justo, confunde-se com o que é democraticamente aceite num país. Não há como fugir ao que pagamos ao Estado, pago impostos e sou tão português como todos os outros".
No Benfica, "as coisas não são bem assim, há uma situação contributiva. O querer contribuir para o clube deve ser valorizado. Os sócios queriam contribuir e considerou-se que deveriam ser diferentes do que os restantes sócios ou adeptos."
Patrícia Calca compara ao sistema eleitoral americano, "usado como exemplo da mais antiga democracia moderna" e que "funciona também com um colégio eleitoral."
"Nas origens da democracia ateniense, só votavam homens e que fossem filhos de pai e mãe atenienses. Vai também da conceção de democracia de cada um, neste caso para cada instituição. Se for premiar quem está há mais tempo, então está de acordo com isso", prossegue a investigadora.
A disparidade já foi maior. A mudança de estatutos de 2010 definiu que os votos ficaram distribuídos em 1, 5, 20 e 50. Este modelo significava que os sócios mais seniores tinham 50 vezes mais poder de decisão do quem tivesse chegado recentemente ao associativismo.
"Sempre se quis esbater esta diferença", contextualiza Benitez.
Na mudança dos estatutos de 2025, outras propostas agradavam mais o antigo candidato à presidência do Benfica: "Tínhamos propostas que poderiam ser mais interessantes. Uma previa um, dois, três, quatro e cinco votos, o que me parecia a mais acertada, mas não passou."
"Houve também a proposta de um sócio, um voto. Também não passou. Quase por exclusão de partes ficou-se com a proposta de consenso", conta. No Sporting, por exemplo, é o mesmo sistema do rival lisboeta, ainda que com distâncias menores. Já no FC Porto cada pessoa tem um voto.
A mudança aumentou os votos para os dois grupos com menor antiguidade. Os associados com filiação entre um e cinco anos passaram a dispor de três votos, quando antes tinham direito a um. Os sócios com cinco a dez anos de associados passaram a ter dez votos, acima dos cinco que tinham até então.
"Foi um mal menor, não era o que gostaríamos, mas foi o que se conseguiu negociar para que, pelo menos, os sócios dos escalões mais baixos subissem os seus votos. Os de cinco votos duplicaram, os de um triplicaram", detalha Benitez.
O sistema atual continua a não estar adaptado aos tempos modernos, segundo Benitez.
Se o princípio é premiar a contribuição, alguém com dez anos de associado, que vá regularmente ao Estádio da Luz e compre regularmente "merchandising" nas lojas do clube poderá já ter contribuído mais do que um sócio há 25 anos e que apenas pague as quotas.
"São questões relativamente recentes e ainda não houve tempo para que fossem assimiladas, algumas propostas valorizavam a participação ativa, a compra de bilhetes, da BenficaTV, do 'red pass'. Tudo isso pode ser adicionado e criado uma espécie de 'ranking', como previa uma das propostas", explica.
O raciocínio "é o mesmo" e Benitez concorda com a valorização de quem contribui. Só não está de acordo com os moldes.
"A forma em que está a ser aplicado é que não concordo. Já evoluiu, o que antigamente era uma palavra nas decisões já se dividiu em quatro escalões. Irá evoluir, mas sempre no caráter contributivo", salienta.
O atual presidente do Benfica venceu a primeira volta com 42% dos votos. Ficou à frente de João Noronha Lopes, que conseguiu 30%. Rui Costa teve ainda mais cerca de seis mil sócios a votar em si do que no principal rival.
Como ninguém dos seis candidatos conseguiu a maioria, os dois mais votados defrontam-se na segunda volta, no sábado
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A investigadora Patrícia Calca garante que quem já está no poder tem vantagem em momentos eleitorais, que fica ainda mais acentuada com a questão da antiguidade.
"Está provado empiricamente que o incumbente tem sempre vantagem quando se recandidata. As pessoas têm mais alguma resistência para a mudança. Há uma procura de manutenção do 'status quo' e se os mais seniores têm maior capacidade de voto, então há ainda um reforço adicional desta vantagem", explica.
Chegar à mudança "será sempre mais difícil", de acordo com Calca. É uma teoria que prejudica João Noronha Lopes, candidato da oposição a Rui Costa e a um estilo de liderança que considera "do passado".
A antiguidade também pesa no voto dos estatutos e mudar o próprio sistema poderá ser mais difícil. Francisco Benitez está na categoria dos 50 votos e "acredita que é demasiado". Como ele, diz que encontrou muitos.
"Acredito que há muitos sócios que aceitariam, de bom grado, reduzir o seu número de votos. Na altura falei com muita gente, não era algo que chocasse manter uma diferença, mas esbater o diferencial", recorda.
Patrícia Calca sublinha que "a alteração de um regime, e falo de algo mais drástico do que só uma eleição de quem está no topo, só acontece quando as elites - maioritariamente compostas pelos mais velhos -, decidem que a situação já não lhes é benéfica. Em sistemas mais conservadores, como diria que este é, só correrá quando existir um grande desejo de mudança de quem tem mais votos."
"No Benfica, vimos na televisão um grande descontentamento, os que o manifestaram até poderiam ser mais, mas têm menos votos ao seu dispôr", explica.
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Não foi esse a realidade da primeira volta. Rui Costa teve mais votos e mais votantes, mas poderá acontecer na segunda volta. Reduzido a dois candidatos, existe a possibilidade de o vencedor ter menos votantes.
A acontecer, Calca considera que "daria uma imagem que não seria muito boa para o Benfica, uma ideia autocrática",
"O marketing do clube é que é o clube do povo, mas é contraditória a ideia que menos eleitores efetivamente possam escolher o líder. Mas o Benfica não é um Estado e, quando se é militante, sabe-se as regras", conclui.
Poderá um cenário desses criar problemas de estabilidade e legitimidade? Calca acredita que não e traça novo paralelismo com a vida partidária: "Tudo depende como reagem os adeptos. Uma vez que está decidido, as pessoas tendem a apoiar, isso também acontece na militância política, mas menos".
Os sócios do Benfica são chamados às urnas novamente este sábado, dia 8 de novembro, para escolher o novo presidente do clube: Rui Costa ou Noronha Lopes.