Entrevista Bola Branca

"Em 2019 também estávamos sete pontos atrás do Porto": Florentino ainda acredita num Benfica campeão

04 fev, 2026 - 16:05 • André Maia

Jogou sete jogos na Luz no início da época e seguiu para Inglaterra. Em entrevista à Renascença, Florentino Luís confessa que acompanha o Benfica "de altos e baixos" à distância e ainda acalenta o sonho de ir ao Mundial. Por quem? Portugal, sem dúvidas.

A+ / A-
Vídeo. "Em 2019 também estávamos sete pontos atrás do Porto": Florentino ainda acredita num Benfica campeão
Veja o vídeo. Florentino ainda acredita num Benfica campeão (foto: Burnley)

A poucos dias do jogo com o West Ham e na luta pela manutenção na Premier League enfiado na camisola do Burnley, Florentino Luís conversa com Bola Branca para relatar a sua experiência na Premier League, confessar um objetivo chamado seleção e ainda para dar conta de que a sua história com o Benfica ainda não acabou.

Contratado pelo Burnley no verão, por empréstimo com compra obrigatória, o futebolista de 26 anos revela também as diferenças de andamento entre Portugal e Inglaterra: "Aqui toda a gente tem de jogar no limite e sabe que os árbitros não dão abébias..."

Já segue a Bola Branca no WhatsApp? É só clicar aqui

O Florentino já jogou em França, pelo Mónaco, e em Espanha, pelo Getafe. Agora tem outro desafio numa liga dos chamados Big Five. Como é que tem corrido a aventura inglesa?

Tem sido um percurso muito positivo. Como disse, já tinha estado em Espanha, em França e em Portugal, também. São ligas muito competitivas, mas eles aqui... senti uma diferença. Porque a intensidade é realmente muito, muito alta. Mas tem sido uma adaptação boa, porque tenho conseguido desfrutar do tempo e o clube tem dado todas as condições para estar ao mais alto nível. É uma liga que é muito aliciante. Quando nós vimos na televisão, dá aquele ar de que é muito intenso, e quando nós, jogadores, estamos mesmo dentro de campo, conseguimos confirmar que sim. É diferente.

Normalmente dizemos que a intensidade do jogo em Portugal é baixa. De quem saltou diretamente da Liga Portuguesa para a Premier League, confirmas essa diferença?

Sim, notei essa diferença. Em Portugal, um jogador está habituado a ter muitas paragens, a ter algum contacto com outro jogador e a ter essas faltinhas. Aqui, o árbitro deixa muito andar. O tempo útil é muito maior, o que proporciona um maior espetáculo a toda a gente. No final é bom, porque toda a gente tem de jogar no limite e sabe que os árbitros não dão essas abébias, por assim dizer. Nós, jogadores, já estamos mentalmente preparados para isso.

Nesta altura, o Burnley está em zona de descida, no 17° lugar da Premier League. O que tem faltado à equipa?

A nossa equipa tem tido boas exibições ultimamente e os resultados dos últimos quatro jogos, tirando o último, foi contra três equipas do Top 5 da liga. E nós empatamos com essas três equipas. Estamos a conectar-nos cada vez melhor e estamos a fazer jogos cada vez melhores. Mas o que falta, se calhar, é a concretização das oportunidades que nós temos. Às vezes temos muitas oportunidades, mas não conseguimos concretizar. E também temos de ter atenção a pequenos detalhes, porque aqui em Inglaterra, à mínima distração defensiva, as equipas já aproveitam para marcar golos.

O Florentino está emprestado pelo Benfica, mas com cláusula de compra obrigatória. Se o Burnley não evitar a descida de divisão, fica arrependido por teres seguido para aí?

Muito pelo contrário, porque eu acredito até ao fim que vamos continuar na Premier League. E estou muito satisfeito de estar aqui, sempre foi o meu sonho estar entre os melhores e pretendo continuar aqui, nesse lugar.

Apesar dos maus resultados, individualmente as coisas têm corrido bem: o Florentino é o jogador da Premier League com mais ações defensivas, e o segundo com mais desarmes (logo atrás do João Palhinha). Este ano há Campeonato do Mundo. Apesar de nunca ter jogado pela Seleção, tem esperança de ser convocado para a competição?

Sim, tenho esperança de que isso possa acontecer, ainda que seja muito difícil, porque o leque de jogadores da Seleção Nacional é de muita qualidade. E é tudo jogadores que são muito constantes no clube. Acho que essa é mesmo a palavra-chave, a constância. E essa constância tem sido uma coisa que tenho conseguido adquirir aqui em Inglaterra. Tenho-me focado no meu trabalho diário e, claro, no final, quem sabe, possa ir ao Mundial. Era um sonho de criança.

E na sua opinião, com os números que tem tido, porque é que nunca tive essa oportunidade na Seleção?

Acho que se deve ao que estava a falar anteriormente, o leque de jogadores que existe na Seleção Nacional. São jogadores de muita qualidade e que jogam todos em grandes clubes. Mas a minha vinda para cá também pode ser um fator a ajudar nessa convocatória, porque aqui estou entre os melhores jogadores. Mas isso são decisões que cabem sempre aos treinadores. Mas claro que a minha presença em várias pré-convocatórias, mesmo este ano, ainda me dão esperança de estar no Mundial. Esse é o meu objetivo, é passar da pré-convocatória para a convocatória.

O estágio de março pode criar mais expectativas? É que Roberto Martínez já disse que vai convocar jogadores novos...

Claro, claro. Acho que é uma boa oportunidade, ainda por cima vai haver uma rotação dos jogadores e espero representar a Seleção.

Em 2024 e, mesmo no início deste ano, falou-se muito sobre o Florentino poder vir a representar a Seleção de Angola. Isso ainda pode ser uma possibilidade ou está fora dos seus planos?

Angola é o país onde nasci. E eu tenho muito orgulho das minhas raízes. Mas foi Portugal que me deu as condições para estar onde estou hoje. Os meus pais emigraram na altura para Portugal, quando eu tinha um ano e meio, dois anos. Essa vinda para cá fez com que eu pudesse estar no nível em que estou hoje, por isso sou muito grato pelo que Portugal já fez comigo. A minha entrega no futebol sempre será por este país. Claro que não esqueço Angola: tenho a ideia na minha cabeça de fazer projetos sociais para ajudar pessoas mais carenciadas. Mas dentro de campo quero representar Portugal. E assim como já foi no passado, pretendo fazê-lo também no futuro.

Olhemos para o Benfica, até porque ainda está ligado ao clube, teoricamente. Terceiro lugar no campeonato, eliminado da Taça de Portugal e da Taça da Liga, com o play-off da Champions por jogar numa fase de liga difícil... quando começou a época no Benfica, esperava uma temporada tão complicada para o clube?

As épocas no Benfica são sempre assim, complicadas. Mesmo quando fomos campeões, nas últimas duas vezes, foram os dois na última jornada. É sempre até ao fim. E acho que este ano também vai ser assim, apesar de o Porto estar um pouco mais adiantado na classificação. Acredito que vai ser luta até ao fim. E os jogadores, a comissão técnica, acredito que também tenham essa convicção, que ainda que seja difícil, ainda têm essa oportunidade. E na Champions, quem sabe, possam fazer uma coisa engraçada. Acho que o foco deles deve estar naquilo que eles podem fazer, que é controlar os jogos e darem o máximo. Mas quem sabe. No meu primeiro ano, quando o Benfica é campeão, também estávamos sete pontos atrás do Porto. Agora, o Benfica está a nove. Mas ainda há muito jogo para acontecer, muitos jogos entre as equipas grandes, é possível.

Olhando para o plantel, o Enzo Barrenechea ainda não convenceu totalmente os adeptos. Manu Silva está ainda a recuperar a forma. Richard Ríos, mesmo que com caraterísticas diferentes, também está lesionado e também ainda não convenceu os adeptos. Neste momento, um Florentino Luís daria jeito ao Benfica?

Isso é complicado de dizer, mas esses três jogadores são jogadores com muita qualidade e às vezes demoram algum tempo até convencer toda a massa associativa. Mas acredito que no futuro vão conseguir fazê-lo. Mas claro que um dia gostaria de voltar ao Benfica, um clube por que tenho muito carinho.

No início da época ainda fez sete jogos pelo Benfica e foi treinado por Bruno Lage. Obviamente que não consegue prever o futuro e não sabia quem aí vinha, mas... tem pena de não ter sido treinado por José Mourinho?

O José Mourinho é um treinador muito especial e toda a gente sabe das suas qualidades, da forma como gere o grupo. Mas graças a Deus também estou aqui. Se fosse treinado por ele, não estaria aqui na Premier League. Eu encaro essas coisas assim, vejo o lado positivo, e o lado positivo é que estou aqui a desfrutar do melhor campeonato do mundo.

E como avalia o trabalho de José Mourinho? Eu tenho acompanhado o Benfica, acho que tem sido um trabalho com alguns altos e baixos. Momentos muito marcantes, mas também alguns momentos um pouco mais abaixo do que eu esperava. Mas essa estabilidade num clube como o Benfica, por vezes demora um certo tempo. Às vezes os adeptos não têm essa paciência para os resultados aparecerem, mas quando as coisas forem consolidadas, acho que irão fluir de uma melhor maneira.

Temos visto aqui uma onda de regressos ao Benfica: Gonçalo Guedes, Di María, Renato Sanches, agora Rafa Silva... um dia gostavas de regressar também

Sim, gostaria de voltar ao Benfica. Creio que a nossa ligação ainda não acabou definitivamente. Claro que agora saí, mas um dia mais tarde gostava de representar o Benfica.

Por falar em regressos e reencontros: encontrou, agora com a mesma camisola, o Marcus Edwards, que era seu rival no Sporting. Como tem sido a vossa relação?

Tem sido boa. Ele foi uma pessoa que no início me ajudou muito com a adaptação, porque eu sabia que, vindo de Portugal para a Inglaterra, teria dificuldades. As mesmas que, se calhar, ele teve na adaptação ao nosso país. E vendo um jogador que veio de Portugal para cá, isso também foi importante para a adaptação. E é uma pessoa cinco estrelas, tem-me ajudado muito. Tenho a sorte de estar com ele, porque é um jogador de muita qualidade, e que era difícil de enfrentar quando jogava no Sporting. Espero continuar aqui com ele também.

Antes de fechar, queríamos fazer-lhe uma pergunta mais pessoal sobre a sua outra vida: o canal de YouTube, como está a correr?

Está a correr bem. Quando criei o canal, há algum tempo, a ideia era mostrar o meu lado mais pessoal, porque às vezes as pessoas olham para o lado mais sério. Por exemplo, eu já reparei, quando vejo imagens minhas a jogar, que estou sempre com o meu lado mais sério. Depois as pessoas pensam que é só isso que passamos cá para fora, por isso é bom termos essa abertura, faz com que as pessoas possam conhecer um pouco mais de mim. É um projeto que nasceu para isso, para demonstrar o meu lado mais pessoal. Estou a trabalhar nisso, e mais episódios vão sair daqui a nada, para as pessoas acompanharem como é que estão as coisas aqui na Inglaterra. Acho que é uma coisa que os jogadores deviam fazer um pouco mais.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

Destaques V+