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Há danos reputacionais para o Benfica com o caso Prestianni? Perguntámos a 6 jornalistas estrangeiros

25 fev, 2026 - 15:15 • Hugo Tavares da Silva

Jornalistas de "El Mundo", "L'Équipe", "el Periódico", "Marca", "UOL" e "Olé" partilham com a Renascença a visão e a opinião sobre o caso Prestianni-Vinicius, no dia da segunda mão do play-off da Liga dos Campeões entre Benfica e Real Madrid.

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Golaço. Sururu. Alegado insulto racista com a boca tapada. Ativado protocolo antirracismo. Jogo interrompido. Jogo retomado. Acusações. Defesas. Debate público. Suspensão preventiva. Recurso. Acusações. Defesas. Recurso recusado.

Foi assim, numa versão curta, a história do Benfica-Real Madrid, no Estádio da Luz, há uma semana, a contar para a primeira mão do play-off da Champions, que os visitantes venceram por 1-0, com golo de Vini Jr.

Em dia de segunda mão, no Santiago Bernabéu, a Renascença escuta seis jornalistas estrangeiros sobre o caso que tem marcado o futebol nacional e internacional.

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Eduardo Castelao, "El Mundo" | Espanha

“Tenho a certeza moral de que o jogador do Benfica proferiu um insulto racista ao Vinicius. Não creio que essa reação tão espontânea [do jogador] possa ser teatro, como dizemos aqui em Espanha. Tenho a convicção mas não tenho a prova, como ninguém.

Desde a conferência de imprensa logo a seguir [ao incidente], Mourinho tentou de alguma maneira justificar a reação dos jogadores e adeptos pela celebração do Vinicius. E depois o comunicado, de madrugada creio, tentando desacreditar o que disseram Mbappé e outros porque não estavam perto.

O Mourinho não pode falar de limpeza no desporto com toda a trajetória que acumula. O que acontece é que aqui, em Madrid, conhecemos bem o Mourinho, não tão bem como vocês, tivemo-lo aqui três anos. Faz parte da personagem, não nos surpreende.

Se nos esquecermos do Vinicius, há imagens de adeptos do Benfica a fazer gestos de macaco. Essas pessoas, três quatro ou cinco, estão num grupo de 60 mil no estádio. Não tem a ver com o Benfica, com a sociedade portuguesa, há uma percentagem da população mundial que utiliza insultos racistas para atacar pessoas. Não creio que isto se vá traduzir num dano reputacional para o Benfica.

No que acredito, sim, é que, tanto o Benfica como o Real Madrid ou o Atlético Madrid ou o Sporting, e nós como meios de comunicação social, têm e temos de ter uma política de tolerância zero com essa pequena parte que utiliza a cor da pele de uma pessoa para a insultar.

Faltou ao Benfica fazer como o Valencia e o Atlético fizeram quando expulsaram adeptos por gestos racistas. Isso sim podemos exigir aos clubes, que quando localizem esse tipo de pessoas, que é evidente que é uma minoria, que tenham tolerância zero com elas.”

Francisco Cabezas, "el Periódico" | Espanha

“Foi muito surpreendente o que ocorreu com o Vinicius no jogo contra o Benfica. Porque, normalmente, são atitudes que se veem nas bancadas dos estádios, não é habitual que seja de um companheiro de profissão para outro. Sim, é certo que nas imagens não se vê exatamente o que lhe disse, porque tapa a boca, mas se o faz é indicativo de que algo grave lhe pode estar a dizer. Mas não se vê nenhuma imagem. Se foi realmente um insulto racista, é um comportamento muito grave e a UEFA tem de punir com dureza.

Quanto ao comportamento do Benfica e de José Mourinho, suponho que tentaram defender o seu futebolista, mas creio que há casos que estão acima até dos próprios jogadores e há que denunciar um tema tão grave como o racismo. Conhecemos o José Mourinho, esteve cá muitos anos, como adjunto de Bobby Robson no Barcelona e depois como treinador do Real Madrid, e escutá-lo na conferência de imprensa deu-me bastante pena. Acredito que são momentos em que eles têm de estar por cima de tudo, têm de ter em conta que têm de ser responsáveis pela sociedade. O Mourinho costuma ser um protagonista negativo e um provocador. Não vai mudar nesta altura da vida.

Dizer que podemos erradicar o racismo nos estádios de futebol é difícil porque as bancadas não deixam de ser um reflexo da sociedade e a sociedade é racista. Nos últimos anos em Espanha houve muitas atitudes racistas contra futebolistas, foram muitos famosos os casos com Vinicius, o Yamine Lamal no Santiago Bernabéu, como há muitos anos Roberto Carlos no Real Madrid e sobretudo Samuel Eto’o no Barça.

Há um caminho que está a funcionar mais ou menos em Espanha, o da justiça penal e não só a desportiva, para que atue com firmeza perante comportamentos racistas nas bancadas. Agora temos tecnologia suficiente para detectar quem faz cânticos e insultos, não há outra saída que não seja denunciar e que sejam castigados. Insisto, é difícil erradicar o racismo, as bancadas são um reflexo do que acontece no dia a dia na nossa vida.”

Regis Dupont, "L’Équipe" | França

Em França, a posição do Mbappé foi muito importante, a maneira como ele falou na zona mista. Foi forte. Estamos todos ao lado do Kylian Mbappé e do Lilian Thuram, que tem falado desse assunto. Não há incerteza nos franceses, no futebol e nos jornalistas na televisão. É um caso muito grave.

Todos pensam que a reação de José Mourinho não foi boa, não foi uma maneira boa de responder. Podemos entender que o José Mourinho tentou defender o seu jogador, não podemos concluir com certeza que houve insultos racistas, mas a maneira de responder convocando Eusébio… não esteve ao nível do problema.

Em França, tem-se falado muito e vamos falar muito deste assunto. Se o Prestianni estivesse convocado seria um grande problema [a conversa foi antes da suspensão preventiva]. Claro que para a imagem do Benfica não foi uma boa publicidade, foi com o jogador Prestianni, mas também há a reação do público e a maneira que o Benfica respondeu não foi ao nível do que aconteceu. O Benfica é o clube do povo, da liberdade, o clube que depois do Salazar foi uma luz, depois de tempos muito sombrios. Realmente, é um problema para a imagem do clube, que não é imaculada mas é muito boa aqui em França, temos muitos franceses e muitos adeptos do Benfica.

Por agora e por muitas semanas ou até muitos meses, o Benfica, de uma certa maneira, está associado ao racismo.”

Juan Castro, "Marca" | Espanha

“O que se passou é muito fácil de ver, é a típica confusão de Vinicius com um rival, mas o Prestianni cometeu um erro gravíssimo ao insultar de forma racista. Aí mudou tudo. Se lhe tivesse dito “és um filho da p…” não tinha acontecido nada de especial, não teria repercussão. O insulto racista eleva a polémica a um nível muito alto.

Evidentemente, os meios de comunicação portugueses defendem mais a postura do Benfica. No jornalismo de hoje é lógico, mas, para além dos meios porque cada um faz o que quer, não entendo a postura do Benfica. Não porque defenda o Prestianni, porque é lógico para mim, mas porque o apoiou. Uma coisa é dizer que não há provas, por isso o nosso jogador é inocente, parece-me bem e lógico, outra coisa é apoiá-lo, estamos contigo e tal, porque é evidente que o Prestianni cometeu um ato mau. Não é uma notícia nova, todos os clubes do mundo fazem o mesmo, defendem os seus jogadores aconteça o que acontecer.

O Benfica é uma instituição com muitos anos e muito prestígio, campeão da Europa. Não me parece que por um incidente isolado a imagem do clube fique mal. É verdade que por estes dias a imagem do clube, em Espanha no mundo e em Inglaterra, está um pouco pelo chão, mas não creio que vá afetar a imagem do clube em geral.”

Vicente Muglia, "Olé" | Argentina

“Evidentemente, o Prestianni disse algo a Vinicius, isso de tapar a boca com a camisola condena-o um pouco. A realidade é que, e não digo por ele ser argentino porque ao contrário diria o mesmo, é muito difícil castigar ou culpar um futebolista por algo que é tão difícil de comprovar. É a palavra de Vinicius contra a palavra de Prestianni, mesmo que Mbappé tenha dito que ouviu. É muito difícil, existe a presunção de inocência. É-se inocente até que demonstrem o contrário e não ao contrário, parece que o Prestianni é culpado até que se demonstre que é inocente...

Vai ser muito difícil a UEFA determinar que tipo de sanção deve aplicar. Não se observa nada, não há leitura de lábios, corre-se o risco de se sancionar um futebolista por um crime do qual não temos a confirmação que praticou. É um caso muito difícil.

Não me parece que isto possa fazer um dano reputacional ao Benfica, de todo, é um caso isolado. É um caso de um futebolista a representar um clube, o clube em si não está implicado nisto. Por outro lado, a imprensa argentina e a sociedade argentina, pelo menos pelo pouco que vi, há uma certa defesa do Prestianni. Não por ser argentino, mas porque em nenhum momento se observa que ele tenha dito o que o Vinicius diz que ele disse. É esse o problema, não há uma confirmação.”

Danilo Lavieri, "UOL" | Brasil

“Não sou negro, não sofro com racismo. Vejo muitos amigos e conhecidos sofrendo com esse problema. Isso obviamente marca e deixa-nos muito aborrecidos. Ver jogadores de futebol, mesmo que o cara seja super bem-sucedido e rico… Ele sofreu disso e sofreu na carreira a vida toda. Aqui no Brasil também há casos de racismo. Aqui, quem comete racismo é preso, é realmente um crime. Não há meio caminho, é uma diferença que temos no Brasil.

Todo o mundo aqui no Brasil ficou abismado com as tentativas de minimizar um comportamento racista, ainda que seja impossível ter a certeza do que o jogador falou. Mas o manifesto do Mbappé, que disse que ouviu, e a própria palavra da vítima valem muito. Então, toda a gente dá o crédito ao Vinicius Jr., até porque das vezes que ele falou que estava a ser vítima de racismo colocou o peso em cima dos ombros. Não fazia muito sentido inventar uma situação dessas, então acreditamos muito na palavra da vítima.

A sensação que temos aqui, no Brasil, é que muitos europeus, não todos mas alguns, tratam o racismo como se fosse mais uma provocação qualquer. Dentro do jogo sabemos que há provocação, mas racismo é racismo, racismo aqui é crime. Provocação é diferente. Tentamos deixar isso claro. Eu entendo que os europeus ainda não tenham essa noção, essa profundidade, é algo relativamente novo. Aqui, os negros são maioria no Brasil.

Tenho essa ideia que as pessoas confundem racismo com provocação. Dentro do jogo há provocação, mas racismo é racismo. Homofobia é crime também. Temos dificuldade a passar isso para os europeus mas também para os sul-americanos, argentinos, peruanos, paraguaios. É curioso, até as pessoas de origem negra fazem gestos de racismo para brasileiros como se isso fosse uma provocação a brasileiros. É uma luta que temos de ter ainda. Achei maravilhosos os testemunhos do Henry e do Kompany, o do Kompany foi uma aula. Ele falou da gravidade do problema, do que não pode acontecer, mas ele não pediu punição, prisão, pediu educação, consciencialização. É o que falta especialmente a muita gente, as pessoas ainda tratam o racismo como uma coisa menor.

Não acho que o caso vai manchar a imagem do Benfica, a não ser que o Benfica continue a colocar-se ao lado do jogador sem tratar da maneira correta, da nossa visão, que é punir o racismo. Pelo menos orientar e pedir desculpa de verdade. Vimos aqui o jogador escondendo a boca, mas também vimos vídeos e fotos de adeptos a fazer gesto de macacos e fazendo palavras de macaco. Se essa postura não mudar, se o Benfica continuar a defender essas pessoas, pode ser que o Benfica tenha a imagem manchada, como há clubes de Espanha aqui no Brasil, que normalmente ofendem o Vini Jr. e não são punidos.

Há uma coisa importante para dizer: perguntam porque é que só acontece com o Vini Jr? O que podiam pensar é que ele talvez seja o único disposto a comprar essa briga, certamente todos os negros já passaram por tratamentos racistas, como mostrou o Kompany.”

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