Jéssica Silva dança no campo e na página por amor ao futebol e a Portugal. "É a minha bandeira"

27 jun, 2025 - 11:00 • Inês Braga Sampaio

Foi campeã no clube do coração, o Benfica, que deixou dois anos e meio mais tarde, em busca da felicidade. Jéssica Silva não esconde o orgulho que é representar Portugal e, no podcast "Olhá Bola, Maria", reforça o objetivo da seleção nacional para o Euro 2025.

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Olhá Bola, Jéssica Silva
Olhá Bola, Jéssica Silva - Veja a entrevista na íntegra

Jéssica Silva é movida pela paixão. É o amor a Portugal que a enche de orgulho de cada vez que veste a camisola da seleção nacional, é o amor ao futebol que alimenta cada truque que faz com a bola e é o amor pelas palavras que alimenta cada texto em que prosa sobre a carreira, a vida e o mundo em redor.

É também um sentimento palpável em cada palavra durante a entrevista, na Cidade do Futebol, no "Olhá Bola Maria", o podcast de futebol feminino da Renascença: "Eu continuo a jogar à bola por amor, por pura paixão. Esse é o meu maior 'drive' nisto que é o desporto, que é o futebol. Eu amo muito isto."

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É assim que Jéssica Silva se expressa, quando questionada sobre a sensação de poder voltar a fazer as malas para representar Portugal no Euro 2025. "É orgulho, é um amor", confessa a jogadora das norte-americanas do Gotham FC.

"Ter a oportunidade de poder representar [Portugal] noutro Campeonato de Europa é algo que não se mede. Poder fazer as malas, poder viajar com a minha equipa e representar o meu país, e mostrar aquilo que nós temos, aquilo que nós somos enquanto equipa, contra as melhores seleções... É algo bonito", confidencia.

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A extrema assume que, aos 30 anos, e "já com uma maturidade diferente", sente "alguma leveza nisto, independentemente da responsabilidade".

"Sinto que visto esta camisola de uma forma muito apaixonada. (...) É a minha bandeira, eu não consigo mesmo transcrever, nem tampouco dizer em palavras aquilo que é representar Portugal", reconhece.

A presença de Jéssica Silva no Europeu chegou a estar em dúvida, depois de uma "senhora bolada" num treino, que a deixou sem visão num olho.

A avançada já voltou, desde então, a jogar pelo Gotham, inclusive na final W Champions Cup, a maior prova de clubes da CONCACAF, e por Portugal. Ainda assim, revela: "Não estou completamente recuperada."

"Estive afastada do campo por menos tempo do que aquilo que eu pensava, por estar afastada do campo, mas ao mesmo tempo, também, a vinda precoce para o campo acabou por me trazer outras mazelas. Mas vou ter tempo para me preocupar pós Europeu e perceber o que é que tenho de fazer para melhorar a minha vista. Efetivamente, ainda não estou totalmente recuperada, mas posso jogar futebol, posso estar no Europeu e estou focadíssima nisso", vinca.

No Euro, e com o "10" nas costas de Jéssica Silva, pode esperar-se "um Portugal bastante convicto e confiante, a continuar a fazer as coisas bem".

"Nós queremos continuar a consolidar aquilo que tem sido o nosso caminho. Queremos ser felizes, porque sabemos que temos qualidade para estar lá. Portanto, é continuarmos a trabalhar. O ambiente está ótimo, somos um grupo bastante ambicioso e temos noção daquilo que podemos dar", afirma.

Questionada sobre se o objetivo é chegar aos quartos de final, o que seria inédito para a seleção portuguesa, a criativa não se esconde: "Claro."

Apesar dos azares, "consegui sempre ser feliz"

Jéssica Silva é uma das jogadoras mais reputadas do futebol português.

Cresceu como jogadora no Clube de Albergaria e daí saltou rapidamente para o Linköping, com que ganhou duas Taças da Suécia. Voltou a Albergaria-a-Velha pouco tempo depois, para dar novamente o salto em 2016: integrou o recém-formado plantel do Sporting de Braga em 2016/17.

Conhecida, em especial, pela facilidade com que ultrapassa adversárias em drible, Jéssica chamou a atenção do Levante, de Espanha, e daí até ao Lyon, o melhor clube da história do futebol feminino, foram duas temporadas apenas. Porém, em França, sofreu uma rotura do tendão de Aquiles, o que a impediu de se afirmar numa equipa que, nessa mesma época, 2019/20, venceria a Liga dos Campeões — a sétima de um total de oito, um número sem par na Europa.

Em conversa no "Olhá Bola, Maria", um podcast Bola Branca, a avançada conta que olha "de uma forma muito orgulhosa e muito feliz" para a carreira.

"Eu tive muitos desafios, muitos obstáculos, e foram esses obstáculos que me tornaram a jogadora e a mulher que sou hoje, portanto não me arrependo de nenhum passo que dei. Tive de lidar durante toda a minha carreira, e vou continuar a lidar, com algum azar, mas há pessoas que foram feitas para lutar e o meu caminho vai ser sempre assim. Se calhar, se tivesse sido mais facilitado, não me sentia tão orgulhosa da pessoa que sou hoje, da jogadora que me tornei. Faz tudo parte do caminho, e a verdade é que eu tive sempre os meus objetivos bem delineados e consegui sempre alcançá-los e ser feliz", assinala.

Para Jéssica, mesmo quando teve de "dar um passo atrás para dar dois à frente, foi sempre a pensar que aquela decisão ia ser o melhor" para o futuro:

"Por exemplo, quando assinei com o Kansas City [em 2021], a minha vontade não era jogar nos Estados Unidos, mas sabia perfeitamente que era o único campeonato que me podia dar alguma consistência. Eu estava a recuperar de uma lesão gravíssima e estava no Lyon, e disse: 'Tenho de me ir embora, porque preciso de jogar, preciso de treinar, preciso de ter consistência, que aqui, na melhor equipa do mundo, não vou ter'. E então, ir para o campeonato americano, naquele momento, que era só por um curto espaço de tempo — porque sempre disse que gostava de voltar aos Estados Unidos, e sempre foi uma liga onde eu quis competir —, eu sabia que aquele momento ia ser só uma transferência para algo maior. Porque eu queria jogar a Champions, quero estar nos melhores campeonatos da Europa."

"Fui à procura da minha felicidade"

O sonho chegaria em janeiro de 2022. Jéssica Silva deixou os EUA e assinou pelo Benfica: "Foi um passo muito bonito da minha carreira. Foi o voltar a ser profissional, mas no clube do meu coração, em casa, com a minha família."

"Fazer história com o Benfica, com a minha família a ver, e fazer parte de um momento muito especial para um clube como o Benfica... Isso foi algo que me deixou, 'uau, tão bom, eu fiz parte disto'. Fizemos duas temporadas e meia incríveis, ganhei muitos títulos. Ganhar títulos em Portugal, estar num clube com tanta visibilidade, com o investimento que estava a fazer no futebol feminino... Não só os troféus dentro de campo, mas a imagem que estávamos a passar do crescimento do futebol feminino. Era algo que me deixava, e deixa, bastante orgulhosa", frisa.

Contudo, a relação com a treinadora Filipa Patão azedou. Foi um "problema na vida" de Jéssica Silva, como a própria assumiu, no programa "As Três da Manhã", da Renascença, e que a levou a sair do Benfica.

"Fui à procura da minha felicidade. Foi um momento em que eu disse: 'Quero voltar a ser feliz, quero voltar a jogar de forma apaixonada', que foi aquilo que, nos últimos períodos do Benfica não estava a acontecer, por diversos e inúmeros motivos, que não são segredo para ninguém", admite.

A necessidade de "ir sempre à procura da felicidade" e o desejo já assumido de regressar aos Estados Unidos juntaram-se e a avançada partiu rumo à NWSL, para representar o Gotham FC, que acabara de se sagrar campeão.

"Foi um passo que eu achei necessário para o meu bem-estar mental e físico", explica a jogadora, acabada de conquistar a W Champions Cup.

"Eu vivo para o coletivo, adoro ganhar títulos, é o meu passatempo favorito. Adoro estar em equipa, adoro as minhas equipas, adoro as minhas colegas. E ter esta oportunidade de viajar, de estar noutros países e ganhar títulos, é algo que vou poder contar aos meus filhos. É esta bagagem que eu às tantas vou trazendo e vou fazendo a minha viagem, e tenho sido bastante feliz", salienta.

Jéssica espera que a melhor história que um dia contará aos filhos ainda esteja para acontecer. Para já, pelo menos, "é impossível escolher uma".

E contar histórias é um talento da autora de tantos túneis em relvados de futebol.

"Adoro escrever", confessa, acrescentando que sim, é algo que gostaria de explorar no futuro: "É um passatempo, é também uma terapia, mas eu gosto muito de brincar com as palavras, gosto de inventar, gosto de escrever aquilo que sinto. Estar aqui na seleção também me permite escrever os meus sentimentos, escrever as frustrações quando os treinos não correm bem, mas há sempre uma linha bonita, uma linha dançante, que me faz escrever de uma forma feliz. É um momento meu."

Jéssica Silva leva agora a caneta e as chuteiras para a Suíça, onde Portugal vai disputar o Euro 2025. A estreia é diante da Espanha, na próxima quinta-feira, 3 de julho, às 20h00, em Berna. Seguem-se a Itália, no dia 7, à mesma hora, em Genebra, e a fase de grupos termina com a Bélgica, a 11, também às 20h00, em Sion. O objetivo é passar pela primeira vez à fase a eliminar de uma grande competição.

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