17 nov, 2025 - 13:55 • Inês Braga Sampaio
Foi com nove golos à Arménia que Portugal se apurou para o nono Campeonato do Mundo da sua história. Um percurso que se esperava, à partida, mais fácil do que foi, e que representou o regresso à dependência da calculadora.
O Grupo F, com apenas quatro equipas e seis jogos para cada —o que diminuía a margem de erro —, gerou otimismo, quando saiu à seleção nacional: o adversário mais forte era a Hungria, 30.ª classificada do ranking FIFA de seleções; depois, vinham República da Irlanda, 60.ª, e Arménia, 100.ª. Portugal era sexto.
Já segue a Bola Branca no WhatsApp? É só clicar aqui
A fase de qualificação começou sob a sombra da morte de Diogo Jota.
O internacional português do Liverpool, de 28 anos, e o irmão André Silva, de 25, foram vítimas de um acidente de viação em Zamora, Espanha, no dia 3 de julho.
O avançado acabara de vencer a Premier League, dois meses antes, conquistar a Liga das Nações, um mês antes de morrer, e de se casar, duas semanas antes. Dois meses depois, a seleção reuniu-se para iniciar a caminhada rumo ao Mundial 2026, o primeiro estágio sem Diogo Jota. A camisola "21" foi herdada pelo melhor amigo: Ruben Neves, que com ele jogara no FC Porto e no Wolverhampton.
O minuto 21, nos jogos da seleção, passou a ser o minuto de Diogo Jota. E apesar de no ar ainda pairar a tragédia, os jogadores portugueses celebraram o amigo com uma entrada com o pé direito: 5-0 à Arménia, fora, com golos "made in" Arábia Saudita: João Félix (bis), Cristiano Ronaldo (bis) e João Cancelo.
Três dias depois, a 9 de setembro, Portugal festejou uma vitória arrancada a ferros na Hungria: 3-2 com os golos de Bernardo Silva, Ronaldo e Cancelo a anularem o bis de Barnabás Varga. Apesar de ter apanhado algumas ondas altas em mar húngaro, o barco português levou o estágio de setembro a bom porto.
Em outubro, o barco meteu água pela primeira vez.
Começou por abanar na receção à República da Irlanda, a 11 de outubro, porém, Ruben Neves apareceu a resolver nos descontos, imbuído do espírito de Diogo Jota, e deu a vitória (1-0) a Portugal, com um golo a fazer lembrar os do amigo.
"O meu primeiro golo pela seleção e com este número não podia ser de melhor forma", declarou o médio do Al Hilal, que ao celebrar destapou a barriga da perna, onde tem tatuada uma fotografia de um abraço a Diogo Jota.
No dia 14 de outubro, Portugal tropeçou pela primeira vez. Apesar de ter vencido na Hungria, no jogo que se previa mais difícil, chumbou com os húngaros em casa.
No dia anterior, Roberto Martínez pedira "mais respeito" para os jogadores e "que as críticas fossem mais informadas": "Falar que ganhar 5-0 é porque o adversário é fraco e não ganhar 5-0 é porque não jogamos bem... É um discurso que não é certo."
Certo é que, em Alvalade (que recebeu as duas partidas do estágio de outubro), num jogo que podia garantir o apuramento, a equipa das quinas vacilou.
O encontro começou com um susto, autoria de Attila Szalai, mas Portugal deu a volta com um bis de Ronaldo (que ultrapassou o guatemalteco Carlos Ruiz como máximo goleador na qualificação para Mundiais). No segundo tempo, a seleção baixou de nível, as substituições de Roberto Martínez dificultaram e, nos descontos, Dominik Szoboszlai empatou e adiou o apuramento português para novembro.
Seleção Nacional
Bola Branca fez as contas: Roberto Martínez foi o (...)
As contas continuavam a ser simples. Portugal precisava de dois pontos para confirmar matematicamente o apuramento, logo, uma inédita vitória na Irlanda carimbaria o bilhete para México, Estados Unidos e Canadá.
Um empate não deixaria preto no branco, mas a diferença na "goal average" (primeiro critério de desempate) entre a equipa portuguesa e a Hungria era tal que mesmo um ponto significaria qualificação virtualmente garantida.
E eis que Portugal registou o pior resultado, a derrota. A seleção nacional teve mais bola (70%) e rematou mais (28), mas teve muito pouca pontaria. Além de só ter enquadrado cinco remates com a baliza (18% de eficácia), contra três dos irlandeses, não meteu a bola uma única vez nas redes — e a equipa da casa aproveitou para, com um bis de Troy Parrott, renovar a esperança no acesso ao Mundial.
Futebol Internacional
O avançado guatemalteco nunca jogou um Campeonato (...)
A imagem do desatino de Portugal foi o capitão, que foi expulso, por agressão. O VAR detetou a cotovelada Cristiano Ronaldo em Dara O'Shea e alertou o árbitro, que após ver as imagens no relvado alterou o cartão amarelo para vermelho direto. Uma punição que não só manchava a exibição portuguesa em Dublin, como tirava goleador do jogo decisivo, com a Arménia — e ainda pode excluí-lo dos dois primeiros jogos de Portugal no Mundial, consoante o castigo da FIFA.
História de amor reatada com a calculadora. A primeira fase de apuramento com Roberto Martínez correra de forma pouco habitual para Portugal: com uma liderança de sete pontos, dez vitórias em dois jogos e voo "sem espinhas" para o Euro 2024. Por fim, a seleção nacional já podia deitar fora o stock de calculadoras, porque com o espanhol ao leme já não terminaria as qualificações a fazer contas à vida. Ou não, porque, dois anos mais tarde, a matemática voltou.
Seleção Nacional
Sanção prevista nos regulamentos da FIFA é de três(...)
Cristiano Ronaldo não seguiu com a equipa para o Porto. O capitão foi dispensado e viajou diretamente para a Arábia, pelo que não esteve no Dragão.
Apesar da derrota na Irlanda, Portugal continuava na liderança do grupo, pelo que as contas se mantinham simples: uma vitória garantia bilhete para as Américas. O empate podia não chegar; por outro lado, até a derrota podia servir.
Frente à equipa teoricamente mais fraca do grupo, a seleção nacional descansou os adeptos bem cedo, com um golo de Renato Veiga logo aos sete minutos. Contudo, o empate, 11 minutos depois, pelos pés de Eduard Spertsyan, gelou as bancadas e reavivou a necessidade de abrir a calculadora do telemóvel.
Aí surgiu o substituto de Cristiano Ronaldo, Gonçalo Ramos, a resolver e a justificar a oportunidade, com o golo da vitória portuguesa. Depois, choveram golos. Bruno Fernandes e João Neves assinaram "hat-tricks" e Francisco Conceição completou a goleada, para selar o nono apuramento de Portugal para um Mundial.
O Estádio do Dragão voltou a ser talismã: no século 21, nenhum outro recinto viu a equipa das quinas fechar mais qualificações para grandes competições. Assim foi para o Euro 2008, para o Mundial 2022, para o Euro 2024, para a fase a eliminar da Liga das Nações 2025 e, agora, para o Mundial 2026. Já vai em cinco.
Esta foi também a segunda vez que Portugal chega aos nove golos num jogo, com a particularidade de, em ambas ocasiões, ter tido Gonçalo Ramos no lugar de Cristiano Ronaldo. A primeira foi a 11 de setembro, diante do Luxemburgo (9-0).
Com ou sem o capitão na decisão, e quer o tenha nos primeiros dois jogos da fase final ou não, Portugal está no Mundial 2026, que será organizado por México, Estados Unidos da América e Canadá, entre 11 de junho e 19 de junho.